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CARVALHO COUTO - LIÇÃO DE ETNOGRAFIA COM UM AUSTIN A30 VAN

Topos & Clássicos

2025-09-26 21:07:03

O carisma e distinção dos veículos comerciais antigos, faz deles uma excelente ferramenta publicitária. Carvalho Couto realça dois exemplos com que se cruzou. Crónica de O Austin A30 foi produzido em várias carrocerias, incluindo a versão de dois lugares como furgoneta (van), mais tarde substituído pela versão van do A35 (com pequenas alterações), caracterizado por um design muito semelhante ao resto da gama. Pequeno veículo comercial, também conhecido como «Novo Austin Seven», foi fabricado no Reino Unido entre 1951 e 1956, com a particularidade de ser dos primeiros veículos da marca a usar chassis monocoque. A sua pequenez e formas levaram-no a ser apelidado de “Steel Teddy Bear” (Ursinho de Aço, cognome ternurento). Lembro-me bem do modelo, era eu pequeno, década de 50. Quer furgoneta, quer berlina. Por ser um veículo económico, via-o com alguma frequência na cidade de Lisboa, onde então vivia.com um motor de 802cc, de design compacto e arredondado, também era popular devido à utilidade (amplo espaço de carga) e porque era robusto e confortável. As van Austin A30/A35 continuam a ter procura, em especial se restauradas, com o objetivo em exposições de automóveis clássicos, ou para fins promocionais. Procura em Portugal e em Inglaterra, onde existem clubes de proprietários, como o Austin A30/A35 Owners Club. Aquando da minha recente ida à II Penafiel Classic, visitei e revisitei viaturas clássicas e antigas que, naturalmente, são do meu agrado, por tudo o que representam. Desde um Rolls-Royce ao Ford Taunus 12m, do Mercedes-Benz 230 SL ao Porsche 911 Targa, Lancia Fulvia, e tantos outros. Mas não escondo a minha emoção ao dar de frente com duas viaturas comerciais, que marcaram a diferença: uma delas a Fleur de Lys, evocação do emblemático Ford TT (a versão comercial do Ford T), de 1920, construída em Inglaterra, nos anos 80. Aliás, entre 1983 e 1994, seriam produzidas cerca de 150 unidades, tendo como base o chassis Ford Transit MK II. Em Portugal, existem sete unidades. A viatura exposta é uma de duas unidades adquiridas em 1986 pela Imperial Produtos Alimentares SA. Na ideia que originou a construção do modelo, procurou-se um veículo vintage e impactante para a promoção do negócio. Daí que, em-presas da dimensão da Harrods, Kellog s, Michelin e Budweiser, tenham usado o veículo para publicitar os seus produtos. A segunda viatura tratou-se de um Austin A30 van, raro de se ver por aí, mesmo em exposições. Eximiamente conservado, de cor azul celeste, destacava-se logo à primeira vista, não muito longe da Fleur de Lys. Chamou particularmente a minha atenção. Nos dois veículos, um ponto em comum: a promoção comercial. Fotos: Clube Penafidelense de Automóveis Antigos SóBRIO E ELEGANTE No caso do A30, tudo muito sóbrio, tudo muito elegante. Uma única palavra (OLGA), acompanhada de dois desenhos de época (a lavagem de roupa e a sua consequente engomagem), transmitiam a quem passasse (especialmente aos mais novos, mais habituados às máquinas de lavar...) que, nos anos 50, a vida era mais complexa. O A30 (5CWT), matriculado em 4 de Maio de 1956, protagoniza a triste história de um abandono que durou cerca de 30 anos em campo aberto, na aldeia de Lagares, sujeito às agruras do tempo. Um dia, deu-se um feliz achado, como diz o actual proprietário António Coelho (Se-nhor Tó), mecânico. A viatura, muito degradada na chapa e na pintura. O motor, nem rodava. Estava simplesmente colado! Mesmo assim, o Sr. Tó e a esposa (Olga) adquiriram o veículo, tendo sido rebocado para a sua oficina. O facto não se deu por acaso. e que os proprietários da Casa OLGA (lavandaria/engomadoria), Olga Lopes e António Coelho, feliz e simpático casal, ambos na casa dos 60 anos de idade, haviam decidido promover o estabelecimento através de um automóvel antigo, certificado como veículo de interesse histórico. E juntando o útil ao agradável, deitaram as mãos ao trabalho. Dentro da sua disponibilidade e paixão, o Sr. Tó trabalhou mais de quatro anos no processo de reparação e restauro do veículo, conseguindo enfim atingir o seu objetivo: dar nova vida ao Austin A30. O restauro foi demorado e algo complexo. A pouca oferta de trabalhadores nas áreas da chaparia e pintura, foram o obstáculo. Já na parte mecânica, motor, caixa, suspensão e travões, tudo foi mais simples, pois O Sr. Tó é um excelente entendido na arte da reparação. Aliás, António Coelho dedica-se também ao recondicionamento de motores de automóveis antigos. Pintado num delicado azul (original) e com os cromados luzidios, estofos confortáveis e tablier simples, embora harmonioso, o A30 está irrepreensível. Direi mais: elegante. Trata-se de uma excelente recuperação para avida e para a história comercial daquele tempo. A PUBLICIDADE QUE O A30 EXIBE . E como a criatividade do Sr. Tó é significativa, resolveu publicitar (de forma minimalista) nos painéis laterais da carroçaria a atividade da esposa. Nos anos 50, comentava-se então que o cuidar da limpeza e da higiene de roupas, refletia um provérbio que fica nas orelhas: “A limpeza Deus a amou...” Sobre Olga, uma mulher esbel-ta, sorridente e alma transparente, há para cima de 40 anos, tem vindo a dedicar a sua vida (com processos industrializados) a trabalhar e a cuidar de roupas de penafidelenses. Antes, como funcionária de uma lavandaria. Agora, por conta própria, com os seus conhecimentos e com a publicidade que O A30 exibe. A junção destas duas facetas tem-lhe vindo a garantir o sucesso comercial. Quanto aos transeuntes, desperta-lhes a lembrança do passado automóvel e da forma diferente de se lavar a roupa na antiga selha. Sempre com o cheirinho da natureza de uma roupa imaculada. O casal tem assim ao seu dispor uma fórmula mágica. Por um lado, o sr. Tó concilia o prazer de conduzir, percorrendo quilómetros ao volante de um A30. Por outro lado, o casal desfruta de belos passeios. Sem nos esquecermos que, aos domingos de manhã, é altura de uma voltinha pela cidade de Penafiel... Em suma, aliam o prazer simples do restauro, da condução, da publicidade e dos passeios. Tudo isto, porque sabem tirar partido de um automóvel clássico! A terminar: há quem tenha o dom de ser feliz com coisas simples. Porque tem os pés bem assentes na terra... 40 Crónica LIÇÃO DE ETNOGRAFIA COM UM AUSTIN A30 VAN Carvalho Couto analisa o poder dos clássicos enquanto ferramenta de marketing. Carvalho Couto