APÓS SETE ANOS DE ESPERA, MUSEU ZER0 VAI FINALMENTE MOSTRAR ARTE DIGITAL À COMUNIDADE
2025-09-27 21:06:45

Os antigos silos e armazéns da Cooperativa Agrícola de Santa Catarina da Fonte do Bispo já passaram de espaço industrial desativado a centro vivo de criação artística . O primeiro museu de arte digital do país abre as suas portas este sábado, dia 27 de Setembro, às 20h00, de forma simbólica, à comunidade local, após sete anos de espera, e o resultado das primeiras residências poderá ser apreciado a 18 de Outubro. É um momento sobretudo desejado, porque levou o seu tempo, mas tudo foi feito com conta, peso e medida. Marca mais um momento do processo do Museu Zer0 , disse ao Sul Informação João Correia Vargues, presidente da direção do Museu Zer0, à margem de uma visita para a imprensa realizada esta sexta-feira. Finalmente acabaram as obras de mais de 4 milhões de euros , com financiamento europeu em 80%, entre outros apoios , que permitiram reabilitar as antigas instalações da cooperativa agrícola daquela aldeia do concelho de Tavira, particularmente os silos, desativados desde a década de 90 do século passado depois de mais de 30 em atividade. Este é um projeto fundado por Paulo Teixeira Pinto, antigo presidente do Banco Comercial Português (BCP), que se mudou para o Algarve e iniciou o desafio de criar, no interior da região, um espaço dedicado à arte digital, em convergência com tecnologia, conhecimento e território . O propósito não é fecharmo-nos nas nossas raízes, é continuar a trabalhar na região para valorizar o território, valorizar o ambiente, valorizar as tradições e ter uma ligação muito próxima às comunidades , assinalou João Correia Vargues. No Museu Zer0, não há uma aposta em coleções físicas permanentes, mas sim em processos criativos inovadores , com criação e produção site-specific, ou seja, obras concebidas em estreita relação com o espaço arquitetónico e o contexto local , utilizando as mais recentes tecnologias digitais. Há aqui muito material para servir de inspiração à criação , refere o diretor do museu, que pretende posicionar-se como um nó numa rede nacional internacional de arte digital , construindo pontes com outras instituições culturais e académicas. A programadora Fátima Marques Pereira, entusiasmada pelo desafio de trabalhar fora dos centros urbanos , o que é também um desafio para todos os artistas , conduziu a visita dos jornalistas ao espaço. A nossa luta é a possibilidade de ter cada vez mais espaços no interior do país que aproximem as pessoas [da arte]. Temos de deixar de ser elitistas. O acesso à cultura, o acesso à arte contemporânea, é muito importante , considerou. Na entrada do edifício principal, a empresa byAR instalou um dispositivo digital inovador, parecido com um “capacete” de realidade virtual, pensado e construído para a abertura , em que será possível ver a reconstituição de como funcionavam as máquinas e a cooperativa, que foi desenhada pelo arquiteto modernista Manuel Gomes da Costa. O piso 0 conta ainda com uma sala imersiva , sem luz natural ,, uma sala de exposições, a sala do órgão , onde está uma antiga máquina industrial , e uma sala polivalente. Um andar acima, encontra-se o laboratório do som e uma sala “fablab”. O terraço, acessível a partir do 2º andar, permitindo uma vista invejável para a serra algarvia, será palco de espetáculos, concertos, ciclos de cinema, projeções (videomapping) e performances. Espalhados por um total de sete andares, há mais espaços de exposição, de criação de projetos e de investigação, combinando-se com o interior, já reabilitado, dos antigos silos. O Museu Zer0 quer ser um espaço de criação, produção artística e conhecimento , afirmou a programadora cultural, lembrando as conversas com Paulo Teixeira Pinto, em que este dizia querer que o museu fosse uma oficina renascentista contemporânea . Este espaço é singular, inspirado num número e num infinito da criação digital. O que é que isto significa? Isto significa uma visão de plenitude, de liberdade, de democracia. É assim que eu penso. E foi assim que eu pensei a programação , sublinhou Fátima Marques Pereira. As atividades foram pensadas face aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e às Prioridades Estratégicas da União Europeia. Nós estamos a viver um momento dramático. Portanto, se por um lado nós temos as grandes preocupações deste local, como a memória, o território, a identidade, por outro lado, também temos as grandes preocupações e os grandes desafios contemporâneos ao nível da intervenção ativa que os artistas podem ter para mudar o mundo , sustenta a programadora. Depois do primeiro momento de abertura, este sábado, haverá um segundo momento no dia 18 de Outubro, em que será mostrado o resultado das cinco residências artísticas que estão agora a ter lugar, com apoio do Fundação MEO, definido em protocolo assinado esta sexta-feira com o Museu Zer0. Sonoscopia e Os Resistentes, Maotik e Mina Mohseni, Francisca Rocha Gonçalves e Christian Dimpker, Tatiana Macedo e Luís Fernandes serão os primeiros artistas a exibir os seus trabalhos a partir da experimentação direta e da descoberta do edifício. Entre aqueles dois momentos, o museu já estará aberto ao público, em produção, montagem e criação. Os visitantes poderão acompanhar os bastidores, conhecer artistas, dialogar com processos artísticos e descobrir como se constrói uma exposição . Já estamos a trabalhar para 2026, 2027, 2028 , antecipou João Vargues, recordando que, nos últimos anos, enquanto a obra estava em curso, o museu realizou ações de mediação cultural que envolveram dezenas de milhares de alunos do Algarve. Além de uma exposição de arte digital sobre Manuel Gomes da Costa e de uma instalação da Fundação Bienal de Arte de Cerveira sobre a história da arte digital, estão também patentes os trabalhos realizados no âmbito do projeto transfronteiriço Magalhães e outros relativos ao projeto “Ágora Interuniversitária”, que dinamiza a ligação à comunidade académica. O Museu Zer0, criado pelo Instituto Lusíada de Cultura, estará aberto de quarta-feira a domingo, das 10h00 às 18h00, com entrada gratuita. Fotos: Edgar Pires | Sul Informação Gostou do que leu? Ajude-nos a continuar! 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