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NERSANT.IMO NO CENTRO DO DEBATE NACIONAL SOBRE HABITAÇÃO: INOVAÇÃO, INVESTIMENTO E O METRO QUADRADO MAIS CARO DA EUROPA

Mais Ribatejo Online

2025-09-28 21:07:12

“O m2 mais caro da Europa. E agora?” foi o tema-provocação que deu mote ao NERSANT.IMO 2025, evento que reuniu decisores, especialistas e empresas em Alcanena, para discutir soluções para a crise da habitação em Portugal. Ao longo de um dia, abordaram-se respostas municipais, estratégias de investimento empresarial, industrialização da construção e novas políticas públicas que pretendem transformar o futuro do setor imobiliário. Organizado pela NERSANT , Associação Empresarial da Região de Santarém / Câmara do Comércio e Indústria em parceria com o Município de Alcanena, o encontro reuniu vinte expositores ligados à arquitetura, engenharia, construção e mediação imobiliária, e promoveu a conferência “O m² mais caro da Europa: e agora?”, com quatro painéis de debate com oradores de referência nacional que debateram a problemática da habitação e do setor imobiliário. Na sessão de abertura, o presidente da Direção da NERSANT, António Pedroso Leal, fez questão de recordar o percurso do evento, iniciado em 2024, em Torres Novas: “A primeira edição do NERSANT.IMO 2024, realizada em Torres Novas, revelou-se um enorme sucesso. Reuniu mais de 50 expositores e mais de 300 participantes, colocando a região no centro do debate nacional sobre este setor estratégico”, disse. “Infelizmente, o Município de Torres Novas deixou escapar para mãos alheias um dos melhores pavilhões de exposição da região. Hoje, graças ao sentido de responsabilidade e visão estratégica, coube ao Município de Alcanena agarrar esta oportunidade”, acrescentou António Pedroso Leal. “Quero, também por isso, saudar a Câmara Municipal de Alcanena e o seu presidente, pelo espírito de cooperação e pela capacidade de perceber que este evento não é apenas da NERSANT, pertence a toda a região, é de todos nós, e deve ser entendido como um impulso ao nosso crescimento coletivo,” disse o presidente da NERSANT. Alcanena: exemplo nacional em habitação acessível Rui Anastácio, presidente da Câmara de Alcanena, revelou que a construção de habitação acessível no concelho , 169 fogos , representa 12% do total em execução em Portugal ao abrigo do PRR. “Foi com surpresa que tomei consciência deste número. Estamos a criar condições para reter e atrair talento, para combater o inverno demográfico que vivemos nesta década”, afirmou. Para além da habitação, o autarca destacou a entrada em obra da primeira fase do novo Parque Empresarial de Alcanena, com 40 hectares, já praticamente assegurados por intenções de investimento. “Estamos já a planear a segunda fase. Queremos empresas de elevado valor acrescentado e estamos a preparar o ecossistema para acolhê-las, com escolas, creches, formação e habitação adaptada aos novos modelos colaborativos e sustentáveis”, sublinhou. Entre os projetos mencionados está um centro de investigação em parceria com a Universidade Nova de Lisboa, com investimento previsto de 4 milhões de euros. O impacto da nova Lei dos Solos na Habitação: mudanças nos territórios O debate sobre a nova Lei dos Solos proporcionou um conjunto de abordagens sob as perspetivas dos industriais da construção civil e obras públicas, de projetistas e construtores, de promotores e investidores imobiliários, e de especialistas em direito. O moderador do debate Rui Serrano, arquiteto e vice-presidente da NERSANT, começou por fazer um enquadramento da crise da habitação em Portugal. Um país com apenas 2% de habitação pública, muito aquém da média europeia de 8%. Sem o imprescindível efeito moderador dos preços da habitação, Portugal tem o metro quadrado mais caro da Europa. O que coloca sérias dificuldades de acesso à habitação para os que tem baixos rendimentos e mesmo à classe média. Segundo os dados do INE, há 26 mil agregados familiares sem uma casa digna. Um problema assumido como prioridade por todos os partidos políticos, fazendo parte dos programas eleitorais de toos os candidatos às eleições autárquicas de 12 de outubro. Pedro Coelho, diretor da AICCOPN , Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas, considera que a Lei dos solos é uma ferramenta importante, que permite que solos rústicos sejam urbanizáveis, contribuindo para reduzir os preços dos terrenos, mas é pouco ambiciosa. Salienta que atualmente existem cerca de 20 mil alojamentos de habitação pública em Portugal, que representam 2% do parque habitacional nacional, um número muito abaixo da media europeia que se situa em 8%. Torna-se assim, necessário construir cerca de 45 mil fogos por ano, o dobro do que se constrói atualmente, para fazer face ás necessidades. Habitação pública muito abaixo da média europeia Para Pedro Coelho, a solução terá de passar pela redução da carga fiscal sobre a habitação, sendo que atualmente cerca de 40% do valor de uma casa são impostos. Nesse sentido, defende a redução do IVA na construção, e a aplicação de um Simplex Urbanístico, com a simplificação de procedimentos, o reforço de mecanismos como deferimento tácito nos processos de licenciamento, e a redução da burocracia. Defende ainda a reconversão de prédios devolutos, e a aposta na construção 4.0 com o reforço da inovação e da capacitação dos agentes do setor, assim como um apoio às PME do setor, considerando que os atuais 6% de lucro não permitem fazer muita inovação. É preciso reduzir burocracia e impostos Miguel Saraiva, vice-presidente da APPC , Associação Portuguesa de Projetistas e Construtores, considera que a Lei dos Solos dá resposta aos problemas, mas o seu sucesso dependerá da capacidade de agilizar processos burocráticos. Atualmente o Simplex já não está a conseguir o seu objetivo, sendo necessário mudar e aumentar a capacidade de agilização de processos burocráticos. De igual modo, defende a reorganização da administração pública e a elaboração de um Código da Construção, que reúna toda a legislação, de uma forma mais transparente e eficaz. Miguel Saraiva entende que estamos perante um problema geracional, em que “o Estado se desresponsabilizou e o mercado desregulou-se. É importante regular o mercado em termos de preços, pois estamos a atingir um momento de stress do preço da construção e também no preço de venda, o que coloca um enorme risco de o mercado poder desaparecer”. Lei dos Solos poderá contribuir para reduzir preço da habitação Duarte Mairos, diretor da APPII , Associação Portuguesa de Promotores e investidores Imobiliários, afirma que “a Lei dos Solos foi uma lufada de ar fresco”, poderá contribuir para baixar o preço dos terrenos que atualmente é um problema, mas é preciso atuar ao nível da morosidade dos processos. Referiu a titulo de comparação que em Madrid o licenciamento de uma casa demora 6 meses, enquanto em Lisboa leva 2 a 6 anos. É preciso um Simplex Urbanístico Andreia Mousinho, advogada e coordenadora do departamento de urbanismo da PLMJ Advogados, destacou os principais pontos da nova Lei dos Solos que pretende simplificar os procedimentos de reclassificação de solos rústicos para urbanos, e o encurtamento de prazos. No entanto, os solos rústicos a reclassificar terão de ter contiguidade com solo urbano, de forma a permitir desenvolver as áreas urbanas existentes, e pelo menos 70% da área deverá ser para habitação. O prazo para a concretização das obras de urbanização é de 4 anos, fundos os quais se não se concretizarem a reclassificação caduca e o terreno reverte para rústico. De salientar que está consagrado o direito de preferência das autarquias na primeira transação. Esta especialista em direito considera que é necessário fazer acompanhar esta nova lei dos Solos de um Simplex Urbanístico que ataque os problemas a jusante, sendo também necessárias grandes afinações na lei.   Construção industrializada , o futuro Um segundo painel de debate centrou-se no tema da “Construção industrializada: oportunidades no âmbito do PRR”. Isabel Santos, da GreenLab, defende que é necessário repensar a forma como criamos valor no imobiliário. Considera que existe atualmente uma maior atratividade da habitação modular, já com procura elevada e que irá aumentar nos próximos tempos. A construção industrializada permite ter mais habitação em menos tempo, com menos custos e maior eficiência. A construção industrializada permite reduzir em 30 a 50% o tempo de execução da construção face à construção tradicional. Os edifícios modulares oferecem mais 15% de eficiência energética em relação aos tradicionais, e apresentam também uma significativa redução de 47% de emissões de gases com efeito estufa, e uma redução de 90% de desperdícios de materiais de construção, tornando-se assim uma forma de enfrentar as alterações climáticas. A GreenLab tem um projeto de living lab em processo de licenciamento em Santo Estevão, concelho de Benavente, que se apresenta como um modelo de sustentabilidade e valorização de ativos. “Não sei se temos o m2 mais caro da Europa, mas sei que temos certamente o m2 bastante mais caro do que aquilo que podemos pagar, face ao que ganhamos”, declarou Luís Ricardo Faustino, administrador do grupo Novagente. Esta empresa está a construir atualmente 11 edifícios com 167 apartamentos no concelho de Alcanena, destinados a habitação acessível, através da construção modular, com prefabricação em fábrica. “A construção modular é o futuro, face à falta de mão de obra”, afirma Luís Faustino, referindo que atualmente mais de metade dos trabalhadores da empresa são estrangeiros. Construção modular reduz tempo de construção em 50% Construção modular é aposta ganha para a DST. Habitações ficam mais baratas, mais rápidas e de qualidade, garante André Gaspar, do DST Group, que entende que a construção modular é uma grande oportunidade e um desafio para o setor. O DST Group é um grupo familiar já na segunda geração, atualmente constituído por um universo de 60 empresas. O grupo liderou o consórcio de 48 empresas e instituições nacionais que formaram a agenda mobilizadora o R2U Modular Systems, financiada pelo PRR, que representa uma mudança de paradigma no setor da construção, com o desenvolvimento de produtos, processos e serviços que têm como objetivo revolucionar a construção modular, com um sistema eco-fiendly. Com uma interligação entre arquitetura, design, engenharia e posterior industrialização, algumas das inovações já deram origem a patentes. O Grupo adquiriu uma escola profissional, onde forma os técnicos das várias especialidades, e desenvolveu toda uma série de sistemas modulares desde a construção de edifícios, às casas de banho, cozinhas, quartos, para habitação, residências de estudantes, hotéis, residências séniores, até unidades de saúde. Com estes sistemas o tempo de construção é reduzido de 16 para 9 meses, sendo 95% do trabalho realizado na fábrica. Longe da imagem das casas fabricadas dos anos 80, a construção modular está hoje a ganhar terreno, em Portugal, e garante maior controlo de custo, de tempo e de qualidade. O grupo tem um showroom que pode ser visitado em Braga, um living lab onde podem ser visitados um edifício de habitação com 8 andares, uma residência de estudantes, uma residêncvia sénior assistida e um hotel, com protótipos à escala real de quartos, casas de banho, cozinhas, residências. Futuro do Imobiliário: Estratégias de Investimento e de Financiamento A reflexão sobre o futuro do imobiliário, com foco em estratégias de investimento e financiamento, esteve em destaque no terceiro painel, que trouxe ao palco a CBRE Portugal, da JLL Portugal. Seguiu-se intervenção do especialista Álvaro Santos, fundador e sócio-gerente da Agenda Urbana , Estudos e Consultoria, Lda.. A conferência encerrou com um painel dedicado aos desafios da habitação e às respostas municipais, com a participação do Presidente da Câmara Municipal de Alcanena, Rui Anastácio, do Secretário Executivo da CIM Médio Tejo, Miguel Pombeiro, do Vereador da Câmara Municipal do Porto, Pedro Baganha, e do Diretor da Direção de Inventariação e Promoção do Património para Habitação do IHRU , Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana, Paulo Reis. A par da conferência, a área de exposição foi um espaço de dinamização e networking, onde os vinte expositores presentes puderam apresentar soluções, estabelecer contactos e criar novas oportunidades de negócio. Às 17:30, o NERSANT.IMO 2025, promoveu ainda a realização do workshop sobre a digitalização no setor da Arquitetura, Engenharia e Construção, em parceria com a Zumer e a LIMSEN. De referir que o NERSANT.IMO 2025 realizou-se na Startup Alcanena em parceria com o Município, com o patrocínio do Crédito Agrícola Porto de Mós. Apoiaram ainda a iniciativa as empresas PixRay e Next Step Publicidade. No evento, ficou ainda a promessa do regresso do evento em 2026, noutra localização do Médio Tejo. João Baptista