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EVITAR CONSTRUÇÃO MACIÇA NA ZONA DO AEROPORTO E NORTE DE LISBOA É O DESAFIO

Público

2025-10-01 06:00:06

Libertação de terrenos do Humberto Delgado vista como oportunidade que traz riscos. Câmara diz querer aproveitar revisão do Plano Director Municipal para tirar da decadência “coroa norte” da cidade Os alertas são claros. Toda a área da cidade de Lisboa a norte da Segunda Circular, incluindo os terrenos hoje ocupados pelo Aeroporto Humberto Delgado, representa o último grande desafio à consolidação e à regeneração urbana dentro das fronteiras concelhias da capital. Mas elas têm de ser feitas em parceria com os municípios em redor e, sobretudo, sem replicar modelos baseados em construção maciça. O risco de repetir esses erros, acentuando a insustentabilidade ambiental do território, é real. O aviso foi lançado por especialistas reunidos, na semana passada, para discutir “o futuro da coroa norte de Lisboa”, uma zona que congrega as freguesias de Carnide, Lumiar, Santa Clara e parte dos Olivais e onde vivem e trabalham mais de 80 mil pessoas. “Alguns espaços não são difíceis de requalificar. Temos ali uma matéria com a qual podemos fazer um trabalho muito bom, se nos empenharmos”, afirmou José Baganha, vice-presidente da Fundação Culturas Construtivas Tradicionais, num dos painéis do programa. Comum a todos os intervenientes na sessão, organizada pela Câmara de Lisboa e pela Fundação Sousa Henriques, foi o reconhecimento de que aquela é a área mais degradada, descaracterizada e esquecida da cidade. Mas também se frisou a ideia de que ela pode vir a assumir um novo protagonismo. Não apenas na cidade, mas em toda a área metropolitana e a nível nacional. No horizonte, surge a oportunidade de uma profunda reconversão urbanística com a prevista desafectação dos terrenos do aeroporto das suas actuais funções, em 2037, quando este fechar para dar lugar ao novo, em Alcochete. Perspectiva que se alia a velhos planos de expansão urbana nunca concretizados na fronteira setentrional da cidade. Mas se isso oferece uma ocasião de transformação profunda daquele território, pode também significar um risco. As tentações de massificação e especulação imobiliária espreitam. Por isso, foram vários os apelos para que o Estado assuma um controlo apertado da gestão daquela bolsa de terrenos, a fim de garantir que as promessas de transformação numa nova centralidade não se con-vertam numa oportunidade perdida. A tal ponto que houve quem sugerisse, como Fernando Santo, antigo bastonário dos Engenheiros, a necessidade de criação de uma sociedade gestora dos terrenos do aeroporto. Tal como se fez com a reconversão dos terrenos que viria a construir o recinto da Expo 98, com a criação da Parque Expo. “Esta é a última grande oportunidade desta dimensão para mudarmos a cidade. Mas precisamos de ver respondidas várias questões. Até porque podemos ter uma visão, mas, se não soubermos como a vamos concretizar, podemos ficar frustrados”, avisou o também ex-presidente da extinta Empresa Pública de Urbanização de Lisboa (EPUL). “É uma área com alguns problemas, mas também com um enorme potencial”, notou Paulo Diogo, director municipal de urbanismo de Lisboa, na abertura dos trabalhos do encontro encarado “como o pontapé de partida” da discussão em torno da revisão do actual Plano Director Municipal, em vigor desde 2012. Um processo de discussão a que a câmara chama Estratégia Lisboa 2040. “O grande desafio é ligar toda esta área ao resto de Lisboa. A transformação da coroa norte da cidade deve começar pela valorização do seu património, dos seus vales, das suas quintas”, sugeriu Paulo Pardelha, director do planeamento urbano da autarquia, que sublinhou o repto trazido com o encerramento do aeroporto. “Esta será uma nova centralidade. Não podemos construir ali mais do mesmo”, avisou. Muito por de nir E a melhor forma de evitar tais erros, sugeriram vários dos especialistas, deve passar por se pensar todo esse imenso território da coroa norte como uma área com usos mistos, onde não impere apenas um tipo de ocupação ou actividade. E, já agora, que se aproveite todo o património histórico, ambiental e de infra-estruturas existentes naquela zona da cidade, hoje pautada por uma grande heterogeneidade, desarranjo paisagístico e degradação. Isso mesmo foi sublinhado por Rui Florentino, arquitecto e docente da Universidade Portucalense, quando afirmou que toda aquela zona “não vai ser só de expansão urbanística, será sobretudo de reabilitação urbanística”. “Grande parte daquele território não precisará de mais habitação, mas sim de arquitectura paisagista e de desenho do espaço público”, disse, no âmbito do painel dedicado a discutir a envolvente do “eixo da Segunda Circular”. Uma ideia a ecoar o que antes já havia sido defendido por alguns dos que o antecederam. “Temos de valorizar a qualidade de vida e o que já existe”, apelou Isabel Loupa-Ramos, docente do departamento de engenharia civil, arquitectura e ambiente do Instituto Superior Técnico, lançando avisos contra a tentação de ver nos terrenos do actual aeroporto, bem como do restante território da coroa norte, uma espécie de manancial de terrenos para construção. “O aeroporto, como está, tem funções ecológicas importantes, como a circulação do ar na cidade. O Lumiar e os Olivais são já áreas muito densas. Será que queremos densificar mais ou aproveitar o que existe?”, interrogou a especialista, apelando a que nos novos planos de desenho urbano daquela zona seja também chamado a participar o município de Loures. “Quando se fala no limite norte de uma cidade, está-se a falar também do limite sul de outro território”, disse. Os mesmos apelos para a colaboração de Lisboa com os concelhos vizinhos fizeram tanto a sua colega Ana Sá, também professora na mesma instituição, como o arquitecto João Santa-Rita. O docente da Universidade Autónoma de Lisboa lembrou a “importância do território do aeroporto não apenas para Lisboa, mas também para toda a área metropolitana”. Do mesmo modo, João Santa-Rita repetiu as críticas à ideia de que a libertação dos terrenos do aeroporto deve ser aproveitada para se construir tudo de novo naquela zona. “Há um potencial enorme nas infra-estruturas e no edificado que já ali está. Tenho sempre dúvidas em relação a planos que partem da ideia da estaca zero ”, disse, reconhecendo o enorme potencial da zona. E sugeriu a necessidade de aprofundamento do debate. “Este território pode ainda ser muita coisa”, considerou. Essas possibilidades, notou SantaRita, abrem campo ao prolongamento para aquela zona da cidade do restante tecido urbano de Lisboa, “concretizando ligações que são naturais”. O que, nas palavras de Fernando Santo, deve traduzir-se numa “cidade multifuncional, onde haja também habitação acessível”. Uma ideia já antes enunciada por Paulo Pardelha. “O aeroporto, como está, tem funções ecológicas importantes, como a circulação do ar na cidade” Disponibilização de terrenos hoje ocupados pelo Aeroporto Humberto Delgado criará uma nova realidade urbanística Samuel Alemão