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"OS RESÍDUOS SÃO COMO AS DESCULPAS, EVITAM-SE"

Expresso Online

2025-10-03 21:04:18

Caminho. Nos sectores da energia, construção, resíduos e embalagens, Portugal tem um compromisso transversal com a redução do impacto ambiental, mas ainda há muito por mudar. Reaproveitar e sensibilizar estão no topo das prioridades Reutilização é palavra de ordem na sustentabilidade e, dentro desse espírito, um icónico slogan publicitário salta à vista: ainda falta um bocadinho assim. "Não basta pensar, temos que executar", admite o secretário de Estado das Infraestruturas, Hugo Espírito Santo, que elenca problemas em áreas energéticas como os transportes - "altamente poluidores" - com a certeza que a "sustentabilidade e competitividade são complementares". Na visão do ex-ministro do Ambiente e da Ação Climática, Duarte Cordeiro, o "sector dos transportes está aquém do que desejávamos", mas é importante não "criar incentivos que criem adversários". Para a CEO da Moeve Portugal, Isabel Gorgoso, "Portugal e uma referência na Europa do Sul" no campo da mobilidade elétrica, mas há problemas em "regular à mesma velocidade a que surge a inovação". Dificuldades que não impedem Nelson Lage, presidente da ADENE - Agência Portuguesa da Energia, de considerar "que a transição está a ser justa porque envolve cada vez mais o cidadão". Na construção, João Santa-Rita, arquiteto do atelier Santa-Rita Arquitectos, destaca o papel da sensibilização ao lembrar que o "reaproveitamento dos recursos é essencial" e que não pode ser confundido com utilizar materiais menos nobres. Num sector em que, de acordo com uma diretiva europeia, os edifícios novos deverão ter emissões nulas a partir de 2030, "precisamos de ver os resíduos como um tesouro. Há muito valor aí associado", reforça Marco Frazão Pedroso, cofundador e sócio da AECycle. São necessários os "incentivos económicos certos", garante Otmar Hübscher, CEO da Secil, que é perentório a afirmar que "temos que descarbonizar" porque "não há alternativas mágicas", numa área em que "o cimento é responsável por 5 a 7% das emissões globais de CO2". Até "há vontade política", agora a "velocidade é outra questão". Aterros Portugal devia até 2025 reciclar 65% das embalagens descartadas no consumo doméstico, só que de acordo com a Agência Portuguesa do Ambiente (APA), em 2024 foram apenas recicladas 58,5% das 910 mil toneladas de embalagens colocadas no mercado. O presidente da Novo Verde e da ERP Portugal, Ricardo Neto, aponta para o exemplo da "meta das pilhas", em que dos 45% pretendidos, só se recicla 16%. Fernando Leite, administrador-delegado da Lipor fala de um modelo de gestão de resíduos "de 1995" que agora está "altamente desatualizado", quando ainda estamos "muito pouco sensibilizados para aquilo que é o valor" do que muitos olham como descartável. "Os responsáveis pelo desperdício alimentar somos todos nós", acredita o diretor-geral da APED - Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição, que realça o facto de "45% do desperdício alimentar" ser das famílias. "Não sei se há algum segredo", elabora Gonçalo Lobo Xavier, "mas os resíduos são como as desculpas, evitam-se". Falta informação, o que fica claro quando "as pessoas têm gavetas com cabos antigos que não sabem o que lhes hão de fazer", com a convicção que esta transformação "demora muito tempo". Paulo Simões, CFO da Worten, reconhece a importância deste contributo e destaca que "as empresas podem e devem ser um elemento ativo na promoção da sustentabilidade". A questão ganha renovada urgência quando os dados indicam que 13 dos 35 aterros em Portugal têm menos de 20% de capacidade disponível e nove estão em vias de encerrar nos próximos dois anos, com números da APA a colocarem a recolha de biorresíduos do ano transato em 12%. "É muito urgente tomar medidas", reage Manuel Delgado, especialista na área da reciclagem, apesar de "na área do papel" já estarmos "a fazer muita coisa boa num país em que pensamos que é quase tudo mau". Elucida o administrador-delegado da Seda Ibérica, Anselmo Vilardebó, que quando "se faz o ecodesign, temos que ter a certeza que colocamos no mercado embalagens que sejam recicláveis". Luísa Magalhães, diretora executiva da Smart Waste Portugal, realça que "em Portugal temos uma taxa de circularidade muito baixa", pelo que "até 2030 a meta é duplicar". E defende: "Temos que colocar ambição nas coisas, senão não evoluímos." O que disseram "É necessário encontrar soluções quando as metas são as mesmas mas os pontos de equilíbrio não são" Duarte CordeiroEx-ministro do Ambiente e da Ação Climática "Estamos a evoluir na metodologia para captar os resíduos, não estamos é a conseguir controlar a produção nacional de resíduos" Fernando LeiteAdministrador-delegado da Lipor "Tem que haver comunicação a uma só voz, com exemplos simples. É chave para esta transição" Luísa MagalhãesDiretora executiva da Smart Waste Portugal Retrato sustentável em números 74,3% da eletricidade consumida em Portugal entre agosto de 2024 e julho de 2025 teve origem em fontes renováveis, aponta a Direção-Geral de Energia e Geologia 37% dos decisores públicos excluem efetivamente projetos não sustentáveis de concursos, apesar de 51% quererem fazê-lo, segundo um barómetro da Saint-Gobain 5338 milhões de toneladas de resíduos urbanos foram produzidos em Portugal em 2023, diz o relatório anual mais recente da Agência Portuguesa do Ambiente EUR200 milhões (aproximadamente) é o que Portugal paga todos os anos à Comissão Europeia por causa de embalagens de plástico não recicladas, revela a Associação Zero Tiago Oliveira Jornalista [Additional Text]: "Os resíduos são como as desculpas, evitam-se" Tiago Oliveira