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MP ACUSA FALSO ADVOGADO

Nascer do Sol

2025-10-03 21:06:55

São 141 os crimes que O MP diz terem sido praticados pelo falso advogado de Braga que se dizia também fidalgo. o reputado causídico sem licenciatura escondeu o património e tenta ganhar tempo. uís Manuel Rodrigues Rufo, falso fidalgo, reputado causídico sem licenciatura que, com documentos forjados, conseguiu enganar a Universidade Portucalense e a Ordem dos Advogados, está de volta. Emjunho, o Ministério Público acusou-o de 141 crimes de usurpação de funções, tendo ainda deduzido um pedido de indemnização de53 mil euros, valor correspondente aos rendimentos declarados ônos seus últimos cinco anos deatividade. Mas o burlão, com os bens salvaguardados, quer evitar o julgamento e pediu a abertura de instrução. Foiem 2022 que o Nascer doSOL o desmascarou. Eohomem, queexercera o miserdurante 29 anos sem levantar suspeitas, viuser-lheretirada: a cédula profissional e emaranhou-se com a Justiça. No entanto, o dote de oxigénio com que a natureza o parece ter brindado não se esgotou. Três mesesapósa publicação da notícia do Nas rdoSOL já adivinhando a perda do seu património a favor do Estado, adianta-se aos sacontecimentose e vende-oa umasociedade de que ele próprio é titular. O êxito de um burlão depende da sua capacidade para contar uma boa história, eporisso, para o defender, contrata, nem mais menos, do que o distinto advogado bracarense Artur Marques, que em 1990 fora seu patrono no estágio sem também ele dar pela falsificação. Nascido em 1955, na Areosa, distrito de Viana do Castelo, Luís Rufo exerceu advocacia durante quase três décadas, mas para obter a licenciaturaf forjou documentos da Faculdade de Direito de Coimbra. o seu nome tinha, porém, grande reputação em Braga, onde já foi advogado da arquidioceser e do então arcebispo D. Jorge Ortiga, além de provedor da Irmandade de Santa Cruz, uma IPSS composta por um lar e uma creche sob a alçada da mesma arquidiocese. Como clientes, Rufo angariara também vários empresários , entre os quais Artur Martins Azevedo, fundador em 1976 da Fricon, uma sociedade de Vila do Conde especializada na produção e comercialização de equipamentos de congelação e refrigeração, com uma fortuna avaliada em milhões.com subtilezas, conseguiu que o empresário depositasse mais confiança em si do que na sua prole, tendo-otornado testamenteiro da farta herança, deixando os filhos na sua dependência um ato que, com a acusação do MP, pode vir a ser impugnado. Para dar cor às suas origens, Luís Rufo apresentava-secomofidalgo, complementando afarsa com o uso abusivo de um brasão de armas. Investido desta soberania ehabituado a lidar com diferentes tipos de realidades, o homemnão passou despercebido aos atores políticos locais. Em 2017, fezparte da comissão de honra de Ricardo Rio, atual presidente da Câmara de Braga, mas, ônos seus volteios de trapézio em trapézio, nonovo round autárquico, em 2021, cai nas malhas socialistas, desta vez como mandatário na freguesia onde nasceu. Os pergaminhos com que se rodeiar não apagam, no entanto, as suas origens. Na verdade, Rufo é originário de casa de pouca fartura: o seu progenitor era um simples trabalhador da antiga Sacor (antiga sociedade produtora e distribuidora de combustíveis) ea mãe, como tantas outras mulheres deste país, cuidava da casa e dos cinco filhos que nasceram de afogadilho. Rufo cresce tentando vencer o que lhe fora negado pelo berço. Na adolescência, começa por fazer um curso de hotelaria etem oseu primeiro emprego na pousada da Caniçada, no Gerês, onde começou a angariar conhecimentos. Em 1985, com 30 anos feitos, Rufo, sobre o qual não se podia dizer que não fosse homem de labuta, já mudara de ramo profissional. Entrara na EDP como um mero funcionário e, num ápice, chega a chefe de departamento. á espera de encontrar uma vaga na coutada privilegiada dos profissionais de sucesso, é aquique, com o aval da empresa, pula para a universidade. E foi nesse ano que, sem o ensino secundário completo, se candidatou à Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra através dosentão designados exames ad hoc , que davam aos adultos acesso ao ensino superior. Aqui, segundo os registos a que o Nascer do SOL teve acesso há três anos e que agora são corroborados pela acusação do MP, apenas completou, com singelos 11 valores, a disciplina de História do Direito Português, que fez o milagre de multiplicar. O esquema montado não carecia de grande engenho, mas necessitava demuita lata e confiança nas armadilhas do futuro. Utilizando um documento forjado com timbre da Faculdade Livre, quenunca frequentou, consegue num cartório a certificação de que concluíra todo o ano letivo. O aluno vivia em Braga e estudava no Porto, mas foi em Ponte da Barca, no cartório de Licínio Figueiredo, que completou a falsificação. Ou tinha lá um cúmplice ou tentou a sua sorte por terras onde era um estranho. : Para que lhe percam o rasto, no anos seguinte, matricula-se no 2.0 ano de Direito, desta vez na Faculdade Portucalense, que morde o isco dando-lhe a equivalência às cinco cadeiras que não possuía. ê coisa sabida que a ambição torna os homens loucos. Sempre que Rufo não consegue triunfar como estudante, agarra-se à criatividade. Nesse ano letivo, a cadeira de Direito Administrativo causa-lheimensa estranheza, e, para escapar dela, reincide. Nomesmo notário, com novo documento forjado, certificam-Ihe o expediente. Em 1990, Rufo consegue o canudo. A partir daí, aproveitando as prerrogativas de falso causídico, vai ganhando estatuto amparado pela arquidiocese de Braga. Sem que a sua conduta levantasse suspeitas, o falso advogado anda uma trintena de anos a brincar às escondidas. Emjunho de 2022, a desgraça bate-Ihe à porta: uma investigação do Nascerdo, SOLrevela: trapaça.com basena notícia, Paulo Pimenta, presidente do Conselho Regional do Porto da Ordem dos Advogados (OA), onde Rufo está inscrito, abre-lhe um processo disciplinar e pede, somomedidapre: ventiva, a suspensão do exercício da profissão de advogado. Rufo não arrisca e entrega-lhea a carteira. Mas, no mês seguinte, tem a Justiça no encalço: o MP de Braga, com base na denúncia da OA, abre uminquérito. A partir daí, o futuro é para o minhoto um enorme ponto de einterrogação E, projetando com a mente o filme quese segue, precaveu-se. Para quem veio do nada, e com um diploma forjado, Luís Rufo compusera bem a sua vida: tem terrenos, duas belas: mansões, três escritóriose, para não cair na rotina, faz-se passear uns dias num Porsche, outrosnum Mercedes. Mas, dois meses depois de ter sido aberta a investigação, coloca num cartório todo o. seu património. Caíam-Ihe OS títulos, masnão perdera a vocação. A 8 de setembro, faz negócio com ele próprio. Para evitar penhoras ou arrestos, vende por patacos a umasuasociedade-, aLuís Rufo Consultadoria, Lda. , 10imóveis, entre eles as duas mansões de luxo e os três escritórios no centro de Braga, que valem milhões. A criatividadenão o abandonara e constrói um plano, aparentemente altruísta: na escritura da transação, passa 90% do capital para uma sua irmã e fica com o restante. Ninguém divaga tanto como aquele que tem de fazer uma confissão. Encurralado na teia que criou, Rufo vive com a ansiedade de um fugitivo. Em 2022, quando a jornalista do Nascer do SOL O contactou para o confrontar com as falsificações, ainda estava convencido de que, acontecesse o que acontecesse, se sairia sempre bem: «Mas, sôtora, eutireio curso! No primeiro ano da licenciatura, andeiaténa Faculdade de Coimbra enaLivre ao mesmo tempo. Depois estive na Portucalense. Tenho toda a documentação. Fiz até o estágio com o Dr. Artur Marques. Posso mandar-lhe o diploma, ocertificado de habilitações, a minha cédula profissional, omeu título de estágio, tudo isso. Amanhã mesmo, sôtora!». A documentação, claro, nunca chegou. Mas isso não impediu que, passados três anos, em junho de 2025, fosse acusado pelo MP de mais de uma centena de crimes de usurpação defunções. E, feitas as contas aos seus últimos quatro anos de rendimentos, a Justiça pede-lhe ainda uma indemnização. Rufo, para escapar à sua ação, fez eclipsar todo o seu património, vivendo agora, aparentemente, na indigência. Se osinvestigadores dão pela marosca, ainda podem interpor uma impugnação pauliana (ação pela qual um credor contesta atos do devedor que prejudiquem a sua garantia patrimonial) e anular-lhe o negócio. Encurralado na teia que criou, Rufo já não é o mesmo homem. Viveagora coma ansiedade de um fugitivo. Contactado, de novo, pelo Nascer do SOL, trata as parcas palavras como ouriços. O silêncio é a sua melhor alternativa: «Qualquer coisa que queira, pergunte ao meu advogado». t o falso fidalgo Luís Rufo exerceu advocacia durante 29 anos sem ter licenciatura JOSê SêRGIO + Uma das mansões de luxo do falso advogado que vendeu a uma sociedade detida por si próprio Felícia Cabrita