É ESTE O MUNDO QUE QUEREMOS?
2025-10-03 21:06:55

Exposições o tempo não para de contar. Para os que olham e veem, para os que passam ao lado da realidade, para os que abraçam a missão de sentir e revelar o pulsar do mundo. A desesperança, o medo, a dor, as perguntas que ficam sem resposta. Também há momentos de ternura, mas parece que a catarse se faz, cada vez mais, resistindo a murros no estômago. apina@medianove.comPensar uma exposição é definir um ponto de partida. é curar o que se faz entre dois pontos. A partida e a chegada. A partida nasceu do projeto “Social Friendship, Meeting in the Garden”, a participação oficial da Santa sé na 18.a Exposição Internacional de Arquitetura , Bienal de Veneza 2023, comissariada pelo Cardeal José Tolentino de Mendonça e que teve curadoria de Roberto Cremascoli. A chegada foi desafiar o público a pensar nos jardins como lugares de encontro, diálogo e diversidade. Metáfora que agora encontra continuidade em People in Motion, no Mosteiro de Leça do Balio, monumento nacional e marco histórico nos Caminhos de Santiago [ver caixa]. A exposição organiza-se em três atos. E cada um deles é um olhar distinto sobre o tempo que não para, sobre o mundo em movimento , das pessoas, das ideias. Escultura e instalação dialogam com a fotografia e o vídeo, enquanto a literatura acrescenta camadas de reflexão e narrativa. "Escutar, acolher e agir em conjunto” é um dos apelos de People in Motion. é também um convite à alteridade. Que poderá ser expandido dando mais voz e palco a produções artísticas de migrantes para promover a interculturalidade e restabelecer a dignidade que o processo de imigração, muitas vezes, fere. Partilhar o mesmo chão cultural abre caminho à construção de lugares de encontro. a tal alteridade que pode ser um antídoto para bolhas. Sísifos reais, mas invisíveis Os Encontros da Imagem olham para dentro, refletem sobre o caminho trilhado em 38 anos de vida, mas também olham para a invisibilidade que é imposta. O festival decorre até 2 de novembro em Braga, Guimarães, Porto, Barcelos, Vila Nova de Gaia e Vila Verde, e não se furta a subir a montanha dos temas dificeis. é o caso da exposição Reaching for Dusk, de Stefanos Paikos, com curadoria de Alexia Alexandropoulou, que nos mostra os fantasmas que deambulam por Mbeubeuss, o maior aterro sanitário a céu aberto da africa Ocidental, localizado nos arredores de Dakar, Senegal. Enquanto o discurso público geralmente se concentra em conflitos, pobreza ou alterações climáticas como causas do deslocamento, este projeto aponta a uma questão mais imediata e negligenciada na história da migração: como é que as pessoas financiam a sua viagem? Em Mbeubeuss, mais de 4000 pessoas vivem e trabalham em condições altamente nocivas, recolhendo cobre, alumínio, plástico e vidro para conseguirem ganhar o suficiente para sobreviver. Por vezes, o suficiente para seguir em frente. Muitos viajaram desde a africa Ocidental, atraídos pelos testemunhos de outros para este lugar onde o trabalho, embora perigoso, oferece esperança. De dar o salto. Este mesmo movimento, partir, é abordado noutra exposição, “A emigração portuguesa a salto”, de Gérald Bloncourt, com curadoria de Daniel Bastos. “Um dever de memória para com todos que demandam além-fronteiras o direito a uma vida melhor”. Queremos ver ou ignorar? Migração, pertença e empatia Em Leça do Balio, Matosinhos, o Mosteiro homónimo, datado do século XIV e requalificado por Siza Vieira, acolhe a exposição "People in Motion”, com curadoria de Roberto Cremascoli. Nela se reflete sobre migração, pertença e empatia, que reúne conhecidos nomes da literatura, arquitetura, fotografia e artes visuais, como Afonso Cruz, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares, Isabel Lucas, José Luís Peixoto, Inês dOrey, Nuno Cera, Paulo Catrica, Rita Burmester, Mónica de Miranda e Rita Nery. Uma iniciativa da Fundação Livraria Lello em parceria com o Dicastério para a Cultura e Educação e OS Museus do Vaticano. Mosteiro de Leça do Balio, Matosinhos | 48 a Dom. 10h-18h | fundacaolivrarialello.pt Olhar de frente o mundo IA artista brasileira Helena Ramos venceu a 17.a edição do Prémio novobanco Revelação, o mais importante Prémio de Fotografia Contemporânea em Portugal. O seu trabalho “destaca-se pelo caráter simultaneamente documental, afetivo e experimental no registo de ambientes ligados à vida noturna (festas, concertos), à arquitetura, à moda e à paisagem”. Formada em Arquitetura e Urbanismo, vive e trabalha em SaO Paulo, Brasil, e desenvolve pesquisas nas áreas de fotografia, moda, arquitetura e design. “Helena Ramos: A vida das Abelhas” até 5 de abril Museu de Serralves, Porto Tomar o pulso do mundo Alfredo Cunha despede-se do fotojornalismo em Braga, coincidindo com a edição dos Encontros da Imagem , Festival Internacional de Fotografia e Artes Visuais 2025. Após mais de 50 anos a fotografar o país e o mundo, o “Fotógrafo de Abril” encerra oficialmente a sua carreira de fotojornalista para se dedicar em pleno a projetos mais artísticos. A zet gallery, em Braga, acolhe a exposição de retrospetiva sobre as últimas cinco décadas da História Mundial.com curadoria de David Santos, a exposição intitulada "Photographo” reúne obras do Museu do Neo-Realismo, que passaram pelo Musée National dArchéologie, dHistoire et dArt, no Luxemburgo, e que agora podem ser vistas em Braga, até 26 de outubro. “Photographo” | zet gallery, Braga até 26 de outubro Inovar a partir do Zero no barrocal algarvio Sem um acervo tradicional, o recém-inaugurado Museu Zero, no barrocal algarvio, estrutura-se num modelo de produção contínua e colaborativa. Ocupa os antigos silos de cereais e armazéns anexos da Cooperativa Agrícola de Santa Catarina da Fonte do Bispo e é o primeiro dedicado em exclusivo à arte digital em Portugal. Aposta na produção site-specific e ambiciona colocar Portugal na rota da arte digital contemporânea, ligando arte, tecnologia, conhecimento e território. Cooperativa Agrícola de Santa Catarina da Fonte do Bispo; ver museuO.pt Público-alvo ou alvo público? “Não puxe o gatilho” é uma reflexão escultórica sobre fronteiras, migração e pertencimento. Eduardo Freitas, artista brasileiro multidisciplinar a viver em Portugal, atravessa fronteiras físicas e simbólicas, entre países e identidades, explorando a tensão entre visibilidade e invisibilidade, movimento e estagnação. A metáfora das pedras diz-nos que pequenos movimentos podem propagar-se. “Não puxe o gatilho” até 20 dezembro Cisterna do Colégio do Espírito Santo; Universidade de évora O mar tem muitas camadas Alexa Kumiko Hatanaka, Nadia Belerique, César Schofield Cardoso e João Pedro Vale. Quatro artistas, quatro olhares sobre o mar como matéria viva, sensível e política. Sem esquecer que é, também, um vasto arquivo de afetos, espaço de deslocação, lugar de extração e repositório de violências. Destacamos uma das muitas perguntas que aqui se colocam. “Que imaginários históricos permanecem por reconstituir ou reinventar , a partir do oceano? A edição de 2025 da Bienal de Artes Walk&Talk, nos Açores, volta a colocar o dedo em muitas feridas. “Gestos de Abundância”, Bienal de Artes Walk&Talk Centro Mun. de Cultura até 31 novembro SaO Miguel, Açores Ana Pina