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OS PRÉDIOS DO ZAMBUJAL SÃO AGORA QUADROS GIGANTES AO AR LIVRE

Público

2025-10-03 21:06:55

No Zambujal criou-se uma galeria de arte a céu aberto com obras artísticas ligadas aos 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. A missão é trazer visitantes ao bairro Teresa Serafim Assim que se entra no Zambujal, logo na primeira rua do bairro, dá-se de caras com um grande mural de uma mulher a pentear outra. A seu lado, há retratos emoldurados. Esta pintura num edifício da Rua das Mães de Água guarda uma história: a mulher que está a pentear chama-se Tita; e a mulher que está a ser penteada chama-se Patrícia. Tita nasceu na Cova da Moura e a sua mãe, Fátima, tinha de ir trabalhar e não tinha ninguém para a deixar. Ainda recém-nascida, ficava sozinha em casa com irmãos pouco mais velhos. Amélia, que vivia no Zambujal e era amiga de Fátima, disse que a situação não podia continuar, e trouxe Tita bem pequena para a sua casa, onde vivia com a sua filha Patrícia, de 16 anos. A adolescente chegou a trocar fraldas à bebé. Agora, Tita (que a família trata por Tixa), na casa dos 30 anos, e Patrícia, na dos 40 anos, estão representadas no mural. “É a história de duas irmãs de casa que cresceram juntas”, conta-nos Mário Linhares, que nos guia pelo bairro. As fotografias no mural são da família biológica e da adoptiva que Tita ganhou. A pintura feita por Jorge Charrua representa o primeiro Objectivo de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas Erradicar a Pobreza. Tudo surgiu porque a Santa Casa da Misericórdia da Amadora, que apoiou a obra, transmitiu que sempre que se mantém uma rede familiar se ajuda a erradicar a pobreza. Amélia, Fátima, Tita e Patrícia criaram essa rede. Esta é uma das 17 obras do Zambujal 360, um projecto que levou à criação de uma galeria de arte urbana a céu aberto com representação dos 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, sendo apoiada por 17 entidades financiadoras. Embora já seja possível visitar os murais, a inauguração acontecerá a 22 de Outubro, das 13h às 17h. Haverá um almoço, momentos musicais e de dança, e um passeio pelo bairro. Tudo começou em 2021. Em plena pandemia de covid-19, a associação Cazambujal (ou apenas Caza) começou a aperceber-se que tinha de fazer algo pelas lojas do bairro que estavam fechadas. “Havia a preocupação de promover o comércio e de trazer pessoas ao bairro para que não ficasse estrangulado”, recorda Mário Linhares, presidente da associação Ad Gentes, que é voluntário desde 2002 no Zambujal, quando os Missionários da Consolata chegaram ao bairro. Já Vítor Monteiro, presidente da direcção da Caza, acrescenta que se teve a ideia da criação de um sistema de vouchers em que se ia a uma loja, se emitia esse documento, e depois se usava noutro estabelecimento, concebendo assim uma rede interna comercial. Nesse seguimento, um outro passo foi tentar que as pessoas saíssem de casa, e criou-se a actividade Caza 100 Caminha, em que todas as sextas-feiras se fazem caminhadas. E assim, de ideias que foram surgindo, chegou-se à da galeria no exterior do bairro. No fundo, pensou-se: e se se criasse arte urbana pelo Zambujal e as pessoas viessem fazer uma caminhada por esse percurso? As pessoas que viessem frequentariam o comércio local. Mais: juntou-se ainda a ideia de ligar às obras os 17 Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que representam as necessidades das pessoas que se pretende resolver e acabar com todas as formas de pobreza. Decidiu-se que se iria representar nas paredes do bairro os ODS por dois grandes motivos: por as associações envolvidas no projecto, a Caza e a Ad Gentes, não terem fins lucrativos; e porque, da pesquisa que se fez, não havia nenhum lugar onde as pessoas se pudessem dirigir ao ar livre para aprender mais sobre estes ODS , ou, pelo menos, numa escala de bairro. Desta forma, nota Mário Linhares, o Zambujal tornou-se “o primeiro bairro social do mundo embaixador dos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável” e o projecto tem o apoio oficial das Nações Unidas. Com um caminho definido, decidiu-se ir com calma e envolver a comunidade no processo. Para cada pintura foi escolhido um artista e um ODS diferentes. Além disso, conseguiram-se apoios de 17 entidades associadas a cada um dos objectivos. Ao todo, o orçamento do projecto foi de cerca de 180 mil euros, executado entre 2021 e 2025. Entre os artistas, além de Jorge Charrua, estão Lígia Fernandes, Pedro Ribeiro Ferreira, Regg Salgado, Mariana Duarte Santos, Pedro das Neves, Daniela Guerreiro, Carla Santiago, Luísa Mota, Marta Teives, Bernardo P. Carvalho, Martinho Costa, Malibu Ninjas, Gildoca, Jacqueline de Montaigne, Projecto Ruído e Ricardo Romero. Vários deles fizeram uma residência no bairro: foi o caso de Lígia Fernandes. As hortas no bairro Num prédio da Rua Cerrado do Zambujeiro, está uma pintura com duas crianças a regar uma horta. Ligeiramente atrás delas vê-se uma mulher. Mário Linhares explica-nos que o mural representa o ODS 2 Erradicar a Fome e que a sua autora, Lígia Fernandes, esteve 15 dias no bairro para descobrir o seu caminho. Vejamos como foi: quando percebeu que muitas crianças não tinham um almoço ou jantar em família, a artista organizou uma refeição. À mesa, ouviu que as crianças estavam a gostar do arroz de frango servido, mas a sua comida favorita era pizza. Então organizou-se um segundo repasto. E foi nessa refeição que tudo aconteceu. Domingas, uma das moradoras do bairro, começou a perguntar se as crianças sabiam de onde vinham os ingredientes e contou que tinha uma horta no Zambujal. Duas das crianças, Giovani e Camila, ficaram interessados em conhecer a horta e foi a partir de uma fotografia dessa visita que Lígia Fernandes desenvolveu a obra. “A dona Domingas esteve a ensinar as crianças a cuidar da horta e teve que dar como que um passo atrás para lhes dizer que era o momento deles para actuar [na horta]”, revela Mário Linhares. É isso que se observa na pintura. A grande missão do projecto é incentivar as pessoas a virem ao Zambujal. “O objectivo é trazer o mundo ao bairro e abrir o bairro ao mundo”, assinala Mário Linhares, que é investigador em Desenho na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa. Para Vítor Monteiro, que vive há 48 anos no local, este é “um meio para se chegar a um fim”, pois com o Zambujal 360 deu-se formação a três jovens residentes que irão fazer visitas guiadas pela galeria. E ainda destaca: “Cria esta consciência nos moradores, para que digam: Temos pessoas a visitar-nos, vamos tratar do bairro e não só da minha casa. ” Há quase um ano, este bairro entre o IC19 e a CRIL ficou marcado pela morte do seu morador Odair Moniz, no bairro vizinho da Cova da Moura. Depois, houve desacatos, que admiraram os próprios habitantes do Zambujal. Vítor Monteiro não quer que esse episódio defina o sítio onde mora, e afirma: “Este é um bairro seguríssimo em que a maioria das pessoas é honesta e trabalhadora. Não baixamos os braços e queremos mostrar o que realmente somos.” O presidente da Caza destaca que este é um local “bastante rico a nível cultural”. O mesmo sublinha Mário Linhares ao indicar que o Zambujal 360 já estava a ser desenvolvido antes dos tumultos do ano passado. Esse trabalho acaba por estar reflectido numa das empenas de um prédio do Zambujal e que representa o ODS 4 , Educação de Qualidade. Na pintura a grandes dimensões, está uma rapariga com tranças a apanhar o cabelo. Numa das tranças que ganha ainda um tamanho maior, há missangas com caras de mulheres. De que forma esta obra de Tiago Salgado (que assina como Regg Salgado) está relacionado com os ODS? Mário Linhares conta que o artista queria evitar as imagens tradicionais ligadas à educação. Por isso, começou por visitar a associação Cesis, que dá apoio escolar no bairro, e quando uma rapariga, de seu nome Luna, estava a preparar-se para uma aula de ioga e a arranjar o cabelo, fez-se luz para Tiago Salgado, e ele percebeu que era esse o momento que queria retratar. “O cabelo tornou-se uma metáfora da educação ao longo da vida, porque a educação não ocupa lugar e estamos continuamente a aprender”, nota o investigador. Os rostos das missangas são os de pessoas que ajudam as crianças no bairro a continuar os seus estudos. Ainda com a tela em branco no início desta semana, Frederico Draw (nome artístico) descreve este projecto como tendo uma “forte ligação com a comunidade”. “Há um envolvimento muito grande tanto com as associações como com as pessoas que aqui vivem”, caracteriza. No seu mural, juntamente com Rodrigo Alma, que forma com ele o Projecto Ruído, vão pintar o ODS 16 Paz, Justiça e instituições Eficazes. A inspiração partiu de imagens da deusa que personifica a justiça, mas concluiu-se que se ia desenhar uma rapariga comum com os símbolos da justiça, “uma reinterpretação contemporânea” do tema. Um jogo de xadrez Embora a inauguração oficial seja a 22 de Outubro, já é possível fazer visitas guiadas, basta enviar uma mensagem através do email geral@adgentes.org.pt ou da página de Instagram do Zambujal 360. O preço para estudantes é de 7,5 euros e para adultos de dez euros. O valor reverte para o pagamento aos jovens que guiarão os percursos. A partir deste projecto, há agora outras iniciativas a nascer no bairro. Mário Linhares conta que várias das entidades que patrocinaram as 17 obras que vão desde a Santa Casa da Misericórdia da Amadora, a Câmara Municipal da Amadora, passando pelo Hospital da Luz, o Auchan, até a EDP, a Fundação Altice, as Águas de Portugal ou a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento querem continuar a apoiar projectos no bairro, como uma biblioteca, uma olaria ou um estúdio de música. Por agora, a missão das associações que dinamizam o Zambujal 360 é divulgar o projecto. “Queremos que as escolas da Grande Lisboa conheçam este sítio e possam organizar visitas com os seus alunos”, recomenda Mário Linhares. Além de conhecer os ODS, vêm ouvir as histórias do Zambujal, como a de Soraia e Pedro das Neves. No mural que representa o ODS 5 Igualdade de Género uma mulher joga xadrez com um homem. Está concentrada, reflecte, mas parece saber o que está a fazer. Atrás de si, há livros com os nomes de Sophia de Mello Breyner Andresen, Paula Rego ou Ruth Bader Ginsburg. A ideia para esta pintura de Mariana Duarte Santos surgiu a partir de jogadores de xadrez reais, nomeadamente do campeão russo Garry Kasparov, que considerou que existia “o xadrez de mulheres e depois o xadrez a sério”, relata Mário Linhares. Até que é vencido por uma mulher num torneio. Quando os moradores do Zambujal ouviram a ideia e história que a artista queria desenhar, gostaram, mas também acharam que deveria retratar alguém do bairro. Assim foi. A grande escolhida acaba por ser Soraia das Neves, por ter uma história pessoal de emancipação dentro da sua família cigana. Desde que estava na barriga da mãe, tinha sido prometida para casar com um primo. Mas, com muita luta, e isolada no seio familiar, recusou. Logo lhe arranjaram outro rapaz, que voltou a recusar. Até que se apaixonou por um morador do bairro, Pedro, que era filho de mãe portuguesa e de pai cabo-verdiano. Desta vez, foi a sua família a recusar e o casal chegou a fugir e a estar fora do bairro durante uns meses. Mas tudo acabou bem: “Conseguiram levar a história avante e hoje têm quatro filhos, vivem no bairro e as famílias aceitam o casamento. É uma pintura muito forte por isso”, conta Mário Linhares, dizendo que até se poderá vir a fazer torneios e aulas de xadrez no espaço em frente à obra. Este mural acaba por representar tudo o que se quer mostrar nesta galeria de arte: um bairro aberto ao mundo com as histórias de quem lá vive.