CARROS ELÉTRICOS SÃO O NOVO DIESEL DA CLASSE MÉDIA
2025-10-21 21:06:51

Não quero transformar a mobilidade elétrica numa luta de classes. Até porque é uma guerra que alguns não podem comprar e outros não querem Não quero transformar a mobilidade elétrica numa luta de classes. Até porque é uma guerra que alguns não podem comprar e outros simplesmente não querem. Durante anos, o Diesel foi o motor da classe média. Na verdade, ainda são. Mais de 4,5 milhões de automóveis ligeiros em circulação em Portugal são Diesel, ou seja, 60% do parque automóvel nacional. Mas vamos falar de futuro: os elétricos podem ser os herdeiros desse estatuto. Não como símbolo de status - sim ter um Diesel já o foi -, mas como instrumento de cálculo e de poupança. É precisamente isso que define a classe média: é o segmento da sociedade que compra aspiradores que duram 10 anos, telefones que aguentam mais do que três atualizações, e carros que têm de servir para tudo - levar os miúdos à escola, fazer 60 km por dia e, ainda assim, dar conta de uma ida ao Algarve em agosto. © Event Photos Não me interpretem mal. As classes mais baixas compram o que conseguem. As mais altas compram o que querem. A classe média, essa, compram o que faz mais sentido enquanto ainda tem poder de comprar. Enquanto ainda tem E é aí que os elétricos entram. Não pela emoção, mas pela razão. O custo por quilómetro, os benefícios fiscais, o acesso às zonas de emissões reduzidas e a “energia” que custa quatro vezes menos do que o combustível para a mesma distância. A matemática é sedutora, o combate às emissões nem por isso. Tal como aconteceu com o Diesel, o discurso ambiental é apenas o verniz que cobre a verdadeira motivação: poupar, poupar, poupar. Mas ao contrário do Diesel, os elétricos enfrentam um enorme desafio. Carregar um elétrico, da forma que compensa (em casa), não é para todos. As classes mais baixas continuam presas ao depósito de combustível e à ausência de garagem. Os elétricos exigem uma infraestrutura doméstica que nem todos têm. Até para poupar é preciso ter dinheiro E porque não as classes mais altas? Também compram elétricos, naturalmente. Mas quando o dinheiro não é problema, preferem trocar a eficiência por conveniência. Aqui, nada bate o velho motor de combustão. Elétrico sim, mas normalmente para segundo ou terceiro carro. Por tudo isto reafirmo: o carro elétrico tenderá a ser o novo Diesel da classe média. Será a escolha provável de quem ainda tenho dinheiro para fazer contas, de quem ainda tem garagem onde estacionar, de quem ainda vislumbra poder comprar. Com o mercado de usados a fervilhar com os primeiros modelos com autonomia decente abaixo dos 20 mil euros, estou convicto que a adopção dos elétricos vai conhecer um novo ímpeto. Não com os que se entusiasmam com a tecnologia (ou com os benefícios fiscais, no caso das empresas), mas com os que ainda chegam ao final do mês com algum entusiasmo. Guilherme Costa