O QUE FRANCISCO PINTO BALSEMÃO NOS DEIXOU
2025-10-24 21:07:41

Em momentos importantes na política e no jornalismo, Balsemão não teve dúvidas sobre o lado certo, mesmo que fosse o mais difícil. Mais do que o legado do Expresso e da SIC, a figura maior dos media em Portugal deixa o exemplo de combate pela moderação política e a liberdade. Numa passagem de “Memórias”, Francisco Pinto Balsemão conta como o seu Porsche 356 foi destruído por uma bomba no turbulento ano de 1975. Quem terá sido? Nunca soube, mas no livro aventa que tanto pode ter sido a extrema-esquerda, como a extrema-direita. A primeira não lhe perdoava o seu papel no PSD e a resistência quase singular do Expresso numa altura de controlo editorial dos jornais pelo PCP. E a segunda, próxima do seu meio social, não lhe perdoava o papel no Diário Popular e na Ala Liberal ainda na ditadura, altura em que batalhou politicamente pela expansão das liberdades cívicas , em particular pelo direito a informar. Este episódio ajuda a enquadrar o essencial da ação cívica e política de Pinto Balsemão. Por entre as falhas e as contradições de um longo percurso pessoal e profissional, Balsemão foi alguém que em momentos importantes da vida política e jornalística não teve dúvidas sobre qual era o lado certo, mesmo que fosse o mais difícil. Não espanta que se tenha tornado amigo de Mário Soares, que conheceu depois de uma tentativa da PIDE, gorada, de virar um contra o outro , Soares, com um feito similar, também não vacilou em momentos importantes. Balsemão será mais recordado pelo seu papel nos media, mas a sua passagem pela política deixou marcas importantes. Para ele, como para Soares, as duas prioridades foram claras: completar a transição para a democracia e lutar pela adesão de Portugal à CEE. Como primeiro-ministro numa conjuntura económica e política de pesadelo, Balsemão deu um contributo decisivo nas duas vertentes. A revisão constitucional de 1982, que tirou os militares do papel de tribunal constitucional e reduziu os poderes de Belém (para assegurar maior estabilidade), foi o principal. Conseguiu-o com um aliado ao seu lado , Soares travou uma guerra dentro do PS para aprovar a revisão , e contra a oposição de mais de meio mundo. Na política há o esquecido contributo para a legislação sobre o quarto poder, desde logo a tentativa de passar uma lei de imprensa pioneira no Estado Novo, motivada pela experiência concreta que tivera com a censura no Diário Popular. Nessa tentativa em 1970, chumbada, estavam todos os elementos legais para uma imprensa moderna, da proteção do sigilo profissional à identificação dos proprietários. Em 1975, na transição para a democracia, Balsemão participou na feitura da lei de imprensa que consagrou várias destas alterações. O esforço da esquerda dura para controlar a imprensa a seguir ao 25 de Abril matou em parte a eficácia dessa nova lei e, também aí, Balsemão escolheu o mais difícil: o Expresso, jornal privado, resistiu à ofensiva política sobre a imprensa predominantemente estatizada. Os ardinas ameaçaram deixar de vender o jornal, a gráfica ficou com o dinheiro das vendas passadas e deixou de imprimir o Expresso, Balsemão foi chamado a comités intimidatórios. Não cedeu, nem a redação , não seria a última vez. Trinta e cinco anos mais tarde, perante outro movimento de consolidação de interesses políticos (do PS de José Sócrates) e económicos nos media, a resistência de Balsemão voltou a ser benéfica. Motivado pelo seu desejo de continuar a controlar a Impresa, venceu a batalha contra a Ongoing de Nuno Vasconcellos e de Rafael Mora, apoiada, entre outros, pelos Espírito Santo (mais tarde, o Expresso foi muito importante na exposição dos problemas no BES/GES). Houve ainda o contributo para a abertura da televisão aos privados, partindo o monopólio da RTP estatal e muito governamentalizada pelo cavaquismo , e a iniciativa (Balsemão era o que hoje se chama um “empreendedor”) de fazer a SIC, que mudaria a forma de fazer televisão em Portugal. No meio de tudo isto causará menos surpresa que Balsemão se tenha deixado grelhar, sem interferir, pelo Expresso enquanto foi primeiro-ministro , e que escreva que teve sempre mais problemas na política por causa do jornal do que no jornal por causa da política. Uma mente saudavelmente crítica imagina que Balsemão não terá sido sempre virginal , alguém é? ,, mas conclui que a sua conduta padrão dista muito da prática habitual no meio. Nos últimos anos, Balsemão e a Impresa foram mais criticados como atores do “regime”. Não vou debater esse alegado estatuto. Noto, apenas, o contributo público dado pelos órgãos fundados por ele e sublinho que a pluralidade dos media (o jornal mais assim, o jornal mais assado) é o mais importante. Se refiro este ponto é porque Balsemão terminou a sua vida com ecos de críticas passadas, desta feita da nova direita radical em ascensão, ilustrativas da política no presente e das pressões que os media enfrentam. Essas críticas ferozes confirmam que, ainda mais do que o legado do Expresso e da SIC , cujo futuro é incerto , o que Francisco Pinto Balsemão deixa como figura maior dos media em Portugal é o exemplo de combate a favor da moderação política e da liberdade. Nos tempos que correm não é coisa pouca. P.S.: Balsemão cometeu na Impresa os erros de gestão típicos de um fundador de uma empresa familiar. Ao coincidir com um momento delicado para o legado empresarial, que mais cedo ou mais tarde ditará o fim do controlo dos Balsemão, a sua morte representa o duplo fim de uma era na Impresa. Haverá oportunidades futuras para escrever aqui sobre esse tema. Bruno Faria Lopes - Jornalista da revista Sábado brunolopes@sabado.cofina.pt 09:15 Seguir Seguir autor: Bruno Faria Lopes Irá começar a seguir os autores e receber alertas no seu email. Gerir o que já está a seguir Receba um alerta no seu email de registo, a cada novo artigo publicado. Fique atento ao seu email de registo. Deixou de seguir Bruno Faria Lopes