EDITORIAL - EDITORIAL - CONTRADIÇÕES
2025-10-27 22:03:36

O tema é recorrente, repetitivo até, mas não há como não voltar a ele Aumenta ainda mais a pressão para que os decisores políticos europeus reconsiderem o calendário já definido para a indústria automóvel reduzir os níveis de emissões poluentes, um calendário que deverá levar à interdição a partir do ano 2035 da venda de carros novos movidos a combustíveis fósseis. Entre vozes do próprio setor automóvel que garantem não ser possível cumprir os objetivos, políticos que prometem levantar essa interdição e analistas de mercado que destacam a progressão excessivamente lenta da quota de mercado dos carros elétricos, de todos os lados surgem agora apelos dramáticos para que a Comissão Europeia faça marcha-atrás na sua iniciativa; para que abandone a aposta na mobilidade elétrica como único caminho para a descarbonização, adotando antes o princípio da neutralidade tecnológica; para que abra a porta no pós-2035 a soluções como os híbridos plug-in, os elétricos com motor térmico como extensor de autonomia ou os combustíveis sintéticos; e mesmo para que considere adiar a meta das zero emissões até 2050. Só que toda esta pressão está recheada de contradições, que regra geral ficam (estrategicamente) de fora dos argumentos de quem defende a recalendarização das metas europeias. Para começar, ela surge numa altura em que boa parte dos construtores automóveis deram já início ao maior investimento da sua história, ao planear a transformação acelerada dos motores a combustão para a eletrificação total, para isso adaptando inclusive as suas cadeias de fornecimento e linhas de produção, revelando-se pois ainda mais difícil de entender de que forma a eventual revisão do calendário para a transição energética em curso poderá ajudar a salvar essa indústria , uma estupefação bem resumida pela ministra sueca da energia e da indústria, ao reagir às pressões políticas vindas da Alemanha com esta frase em destaque: “Não se pode pedir ao setor privado que faça massivos investimentos de biliões de euros e de repente, quando já fizeram o seu trabalho de casa, voltar atrás e adiar o objetivo”. A essa contradição junta-se outra, ainda mais evidente: se uma das razões invocadas para uma transição mais lenta rumo à eletrificação é a ameaça dos carros de origem chinesa, cada vez em maior número e mais acessíveis, como acreditar que a melhor maneira da Europa contrariar essa concorrência será atrasar ainda mais a produção do mesmo tipo de veículos? , a resposta à questão foi dada nesta frase da autoria do responsável pelo desenvolvimento técnico de uma das principais marcas europeias: “É absolutamente necessário ter um veículo elétrico de entrada de gama. ( ) Se não o fizermos, serão os chineses a fazê-lo”. Sem esquecer a contradição que resulta de se pedir para mudar as regras exatamente quando os consumidores parecem maioritária e definitivamente já convencidos das vantagens da mobilidade elétrica: não só os dados estatísticos anunciam que as vendas de carros a bateria estão em crescimento, como os estudos de mercado mais recentes antecipam que essa tendência deverá manter-se , com um desses estudos a concluir mesmo que “60% dos europeus afirmam estar prontos para escolher um veículo elétrico na próxima compra”