DO PORSCHE PANAMERA AO INTERNAMENTO NA ALA PSIQUIÁTRICA: QUEM É JOANA RAMIREZ, A "ADVOGADA DO JET SET" ACUSADA DE BURLAR EM MILHÕES
2025-10-27 22:06:44

Chamam-lhe "advogada do jet set" mas não lhe é conhecido nenhum cliente da sociedade portuguesa. Acusada de burlar duas famílias, tem escapado ao julgamento, até ser internada numa ala psiquiátrica. É conhecida como a “advogada do jet set” e, mais de 20 anos depois do divórcio, continua a usar o apelido do ex-marido, contra a vontade da família. Na passada quarta-feira, foi internada compulsivamente na ala psiquiátrica de um hospital do Porto depois de uma avaliação clínico-psiquiátrica determinar que sofre de doença mental e que representa um perigo para si e para terceiros. A decisão foi desencadeada depois de um episódio insólito na última sessão de julgamento, a 21 de outubro, no qual é arguida. Joana Ramirez é acusada de crimes de burla, abuso de confiança, falsificação de documentos e difamação por, alegadamente, ter lesado alguns clientes em centenas de milhares de euros. Tudo isto ao mesmo tempo que pede ajudas ao Estado e conduz um Porsche Panamera nas ruas da Foz do Douro. Figura conhecida em eventos, festas e espaços exclusivos ligados à elite portuense, foi a sua ligação próxima ao meio social de luxo e celebridades do Porto que lhe deram visibilidade, e o nome pelo qual hoje é conhecida. A alcunha “advogada do jet set” ficou ainda mais marcada depois da sua participação enquanto comentadora em programas como o Mundo Cor-de-Rosa, no Porto Canal, em 2013, no qual falava sobre a vida dos famosos. Pouco conhecida do grande público, Joana Ramirez terá sido convidada a comentar no Porto Canal por ter sido casada com Vasco Ramirez, o filho do dono da empresa de conservas Ramirez. Foi a 8 de julho de 1998 que Joana e Vasco Ramirez casaram em regime de comunhão de bens. Uma vez que o pai de Vasco era contra o matrimónio, o casal trocou alianças em segredo, sem que a família soubesse. Acabariam por se divorciar por mútuo consentimento em 2004 sem “bens comuns a partilhar”. No entanto, em 2007, Joana avançava com um processo contra Vasco e o irmão, Manuel Ramirez, defendendo que, à data do casamento, o filho do dono da Ramirez tinha na sua titularidade 13% das ações da sociedade, o que fazia da própria dona de metade daquela participação. Acabaria por ganhar o processo em 2016 no Supremo Tribunal de Justiça, reclamando o direto a 6,5% das ações da empresa proprietária das Conservas Ramirez, o que equivale a 2,5 milhões de euros. Acusando Joana de “abuso de direito”, o recurso da família Ramirez foi negado, avançava na época o Jornal de Notícias. Quanto ao seu casamento com Vasco, a família Ramirez - que se referem a Joana como “a que se intitula de Ramirez”, de acordo com a Sábado - considera que a advogada foi uma má influência para o herdeiro, que também considera o casamento ser “um episódio passado”, tendo sido o próprio a requerer o divórcio por razões que recusou revelar. Já as pessoas próximas a Joana defendem que o fim do casamento só aconteceu porque Vasco “cedeu” à pressão da família. Conhecida por circular nas ruas da invicta de Porsche, avaliado em mais de 100 mil euros, Joana chegou também a ser apelidada de “advogada do Porsche”, o que contrasta com a alegação de que vivia em situação de pobreza. Em 2019, no âmbito de uma multa a que foi condenada a pagar por ter entregado um requerimento fora de prazo relativo ao processo contra Vasco e o irmão, Joana pediu um apoio judiciário à Segurança Social. De acordo com o Correio da Manhã, na época, Joana garantia que em 2016 não tinha declarado qualquer rendimento e que em 2017 e 2018 recebeu 3600 euros e 9800, respetivamente, por ano. A advogada defendia ainda que necessitava do apoio judiciário uma vez que era a mãe quem a ajudava mensalmente com 300 euros. Mas a vida de Joana na justiça vai além da família Ramirez. Em 2022, começou a ser julgada no Tribunal de S. João Novo, no Porto, pelos crimes de burla qualificada, abuso de confiança e falsificação de documentos a duas famílias pelos quais é acusada pelo Ministério Público. No primeiro caso, Joana Ramirez terá lesado em mais de três milhões de euros a família do diretor-executivo da Rockfeller Investments, António Pereira Coutinho. Segundo o Correio da Manhã, vendeu o património da família sem a autorização dos próprios. O segundo caso remonta a 2015 quando se aproximou de uma mulher que tinha acabado de perder o filho num acidente de mota. Para lhe conseguir roubar uma indemnização de mais de 87 mil euros, Joana fingiu ser amiga da vítima e ofereceu-se para ajudar a mãe. Tratou assim, de forma gratuita, de todas as burocracias com a seguradora, de forma a receber a indemnização. “Conheci a Joana Ramirez no velório do meu filho. Disse que me ajudava com tudo gratuitamente porque o meu filho era como um irmão para ela. Confiei nela como se fosse Deus, mas ela apenas viu em mim uma galinha dos ovos de ouro”, disse na altura Aurora Neves, mãe de Ricardo, que perdeu a vida no acidente. Segundo o Correio da Manhã, Joana tentou ainda roubar o dinheiro do plano poupança reforma que estava na conta de Ricardo. “No banco, disseram que a doutora Joana tinha estado lá e apresentado uma procuração para passar todo o dinheiro, cerca de mil euros, para a conta dela”, acrescentou. Foi Aurora Neves quem apresentou queixa na PSP e na Ordem dos Advogados. Apesar do seu título de “advogada do jet set”, não lhe são conhecidos clientes da sociedade portuguesa. Ao longo dos anos, Joana Ramirez tem conseguido fazer com que as sessões do julgamento sejam consecutivamente adiadas, com manobras como levantamento de dúvidas e consequente mudança de advogado (foram dezenas), incidentes de suspeição sobre magistrados e requerimentos quase diários, avança o Jornal de Notícias. Agora, no passado dia 21 de outubro, apareceu em tribunal com uma máscara de gás nas mãos, afirmando ter medo de ser gaseada durante a sessão e ameaçando fazer justiça pelas “próprias mãos” caso o tribunal não acolhesse uma queixa apresentada por si contra todos os intervenientes que a acusam de prática de burla. Em consequência, o tribunal pediu uma avaliação psiquiátrica que levou a que no dia seguinte fosse internada. [A 14 de janeiro de 1986 um acontecimento muda o rumo da campanha das presidenciais: a inesperada agressão a Soares na Marinha Grande. Nas urnas, o socialista e Zenha lutam por um lugar na segunda volta frente a Freitas. A “Eleição Mais Louca de Sempre” é o novo Podcast Plus do Observador sobre as Presidenciais de 1986. Uma série narrada pelo ator Gonçalo Waddington, com banda sonora original de Samuel Úria. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E pode ouvir o primeiro episódio aqui, o segundo aqui e o terceiro aqui.] Tem um minuto? O Observador está a realizar junto dos seus leitores um curto estudo de apenas quatro perguntas. Responda aqui. [Additional Text]: Joana Ramirez foi comentadora no Porto Canal Carolina Sobral