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IDEIAS - FAFE HOMENAGEOU O ROMANCISTA NORTENHO MÁRIO CLÁUDIO

Correio do Minho

2025-10-27 22:06:52

ONúcleo de Artes e Letras de Fafe levou a efeito na sexta-feira e no sábado, a primeira edição da iniciativa “ Salto , Encontros Literários de Fafe”, que se desenvolveram em torno dos temas “Memória, Viagem e Resistência”, com entrada livre para todos os momentos. A edição deste ano teve como ponto alto o tributo literário à magistral obra do consagrado escritor nortenho Mário Cláudio, no sábado à tarde, pelos académicos José Cândido Martins (Universidade Católica) e José Carlos Seabra Pereira (Universidade de Coimbra), antecedida pela abertura de uma exposição de rua com a fotobiografia de Mário Cláudio, com os principais momentos da sua vida e obra. O momento serviu também para a entrega de um troféu ao homenageado especialmente produzido para o efeito pelo artista Carlos Santana. O evento, que promete continuar nos próximos anos, teve ainda um espaço dedicado ao escritor e cineasta Vicente Alves do o, com a apresentação do seu mais recente livro “Que a vida nos oiça”, por Pompeu Miguel Martins, que serviu de motivo para uma alongada conversa do autor, um fantástico contador de histórias, no cinema e nos livros. Os encontros incluíram ainda uma atividade na Escola Secundária dedicada aos alunos, performances musicais e de bailado, exposições de rua e um espaço para a intervenção de autores locais, sobretudo com a leitura de poesia. Mário Cláudio é indubitavelmente um dos escritores vivos de maior projecção nacional e internacional, embora injustamente pouco valorizado, um homem do Norte, que faz gala da sua pertença a esta região e a faz cenário majestoso de parte dos seus romances e trabalhos literários. Pseudónimo literário de Rui Manuel Pinto Barbot Costa, nasceu no Porto, em 6 de novembro de 1941. Nesta cidade efetuou estu-dos secundários. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, veio a diplomar-se mais tarde com O Curso de Bibliotecário-Arquivista, da Faculdade de Letras da mesma Universidade. Como bolseiro do Instituto Nacional de Investigação Científica, frequentou a Universidade de Londres (University College), onde se pós-graduou como Master of Arts in Library and Information Studies. Foi condecorado com a Ordem de Santiago de Espada e recebeu a Medalha de Honra da Cidade do Porto. Recebeu a comenda de Chevalier des Arts et des Lettres, atribuída pelo Ministério da Cultura de França (2006). Foi investido Doutor Honoris Causa da Universidade do Porto, por proposta da FLUP, em 2019. A Sociedade Portuguesa de Autores apresentou-o recentemente como candidato ao Prémio Nobel da Literatura. e que bem lhe quadrava, sem dúvida! Autor de uma vastíssima obra literária, computada em mais de seis dezenas de títulos, dispersos pelas modalidades de romance, novela, poesia, crónica, teatro, ensaio, viagem e tradução, recebeu duas dezenas de prémios, de entidades como a Associação Portuguesa de Escritores, Antena 1, Radiodifusão Portuguesa, PEN-Clube Português (2 vezes), Seiva Trupe, Clube Literário do Porto / Alberto Pimentel, Prémio Vergílio Ferreira, Prémio Fernando Namora, Grande Prémio de Literatura DST Group, Prémio D. Dinis da Fundação Casa de Mateus e Prémio SPA, para referir al gumas das importantes distinções, que conferem a medida de um autor maior da literatura portuguesa contemporânea. Em 2004, relembre-se, foi galardoado com o Prémio Pessoa pelo conjunto da sua extensa obra. Mário Cláudio é autor de inúmeros artigos publicados na imprensa nacional e estrangeira, e tem proferido palestras e conferências sobre temas literários ou conotados com a literatura. As suas obras estão traduzidas em inglês, castelhano, francês, italiano, alemão, húngaro, checo e croata. Orbitando ainda na sua obra, de referin que, no âmbito da ficção, em que é mais conhecido, nos últimos 50 anos, desde 1974, quando publicou Um Verão Assim, editou um conjunto de três dezenas e meia de obras, entre as quais Improviso Para Duas Estrelas de Papel, A Quinta das Virtudes, Amadeo, Guilhermina, Rosa, Tocata para Dois Clarins, o Pórtico da Glória, Camilo Broca, Tiago Veiga, uma biografia, Retrato de Rapaz, O Fotógrafo e a Rapariga, Astronomia, OS Naufrágios de Camões, Tríptico da Salvação, Doze Retratos Portugueses, Teoria das Nuvens e Cruzeiros de Inverno, já em 2025. Na poesia, editou sete obras, agrupadas em Doze Mapas (poesia reunida, 1969-2019), enquanto na crónica editou cinco volumes e no ensaio uma boa meia dúzia de obras, parte delas dedicadas a António Nobre e a Camilo Castelo Branco, de quem passa por ser um dos maiores conhecedores da sua vida e percurso bibliográfico. Das inúmeras apreciações da sua vida e obra, deixamos desde logo a opinião de António Lobo Antunes, para quem Mário Cláudio é um dos raros artistas que profundamente admiro e cuja maestria invejo”. Já o crítico literário Carlo Vittorio Cattaneo, considera que a escrita de Mário Cláudio “continua coerente desde há muitos anos, a viver naquela zona (...) onde as fronteiras entre a prosa e a poesia (...) difíceis de estabelecer, tendem a anular-se”. Por seu turno, o poeta e ensaísta Fernando Pinto do Amaral adverte que “(...) a poesia de Mário Cláudio veio, na minha opinião, a fundir-se cada vez mais à sua prosa, tornando-se difícil de analisar uma sem a outra. é que na ficção deste autor encontra-se a mesma intrincada trama de referências culturais, quase o mesmo ritmo cadenciado a que surgem as memórias, enfim, uma ampliação do fôlego que anima os seus versos e os faz progredir, a cada instante “adivinhando a sílaba antes de todas as sílabas”. Considerado um escritor barroco, justificase, ao considerar que “a minha matéria de escritor é profundamente dolorosa. Sou um escritor de expressão muito difícil, muito procurada, por vezes muito rebuscada. Sou um escritor para quem a língua, de facto, é um instrumento de sacrifício, de martírio, mas também algumas vezes de gozo como sempre acontece. Eu aprendi a enfrentar o trabalho da escrita com serenidade, mas com uma consciência muito viva e crescente das dificuldades da escrita”. Num outro momento, adverte que “o objetivo de cada autor, através dos livros que vai escrevendo ou publicando, é descobrir o seu próprio rosto, descobrir-se a si próprio, descobrir-se cada vez menos diferente, cada vez mais igual a si mesmo. 99 Mário Cláudio vai depurando a sua oficina literária, e por isso não se coíbe de proclamar: ”cada vez me sinto menos escritor de livros, sequer de páginas ou frases; cada vez mais, com efeito, escritor de palavras. Em suma, e como é possível evidenciar, estamos em presença de um escritor do Norte, que importa valorizar, ganhar para a leitura e a compreensão, para o prazer do texto, nestes dias de indigência, de mediocridade, de ignorância, de preguiça e de inconsciência individual e colectiva. 000 Na poesia, editou sete obras, agrupadas em Doze Mapas, enquanto na crónica editou cinco volumes e no ensaio uma boa meia dúzia de obras, parte delas dedicadas a António Nobre e a Camilo Castelo Branco... Investigador ARTUR COIMBRA