QUANDO A VIDA DE TE DÁ LIMÕES, PINTA-OS DE OUTRA COR
2025-10-27 22:06:52

Às vezes, as melhores oportunidades surgem quando não temos medo de arriscar e fugir à norma. A expressão “quando a vida te dá limões, faz uma limonada” tornou-se um cliché popular, repetido sempre que alguém quer transmitir uma lição de otimismo ou resiliência. Mas será que devemos segui-la sempre à risca? Se a vida nos der limões, por que não fazer antes uma tarte de limão, um limoncello - ou até simplesmente ignorá-los e preparar um sumo de laranja? Desde pequeno, nunca fui de seguir a norma. Enquanto os outros desenhavam dentro das linhas, eu preferia as paredes do quarto, para desespero dos meus pais, que tentavam em vão colocar folhas à minha frente. Ainda assim, a rebeldia da infância nem sempre sobreviveu à vida adulta. Com o tempo, aprendi a conter o impulso de arriscar, e por medo de errar, acabei muitas vezes por seguir o caminho esperado - aquele que parecia mais seguro, mas que, talvez, me tenha afastado de finais mais felizes ou mais autênticos. Mas, em 2019, isso mudou. Na altura, trabalhava há cinco anos numa empresa de moldes , algo que não me satisfazia inteiramente, pois faltava-me a parte criativa, mas tinha de pagar as contas que permitiam continuar a desenhar e a sonhar em ser artista a tempo inteiro. Num intervalo da manhã, apareceu-me uma publicidade de um concurso para artistas plásticos portugueses enviarem o portfólio. Não sabia muito bem do que se tratava, mas decidi arriscar. Passado algum tempo, recebi a confirmação de que tinha sido aceite: ia participar no Fill The Culture, concurso ligado à BMW. Fui selecionado para representar a capital do distrito de Leiria, a par de outros artistas das 17 capitais dos distritos em Portugal. De repente, vi-me entre alguns dos melhores graffiters do país, com a diferença de que nunca tinha utilizado latas de spray no meu trabalho. E era justamente isso que o concurso exigia: escolher 50 latas de spray e criar uma obra que assinalasse a inauguração do novo BMW Série 1, com todos os artistas a começar e a terminar ao mesmo tempo. Como não percebia nada de spray, tive de arranjar uma alternativa. Podia ter aprendido a técnica , talvez o caminho mais fácil ,, mas decidi arriscar, ao mesmo tempo que jogava pelo seguro. Propus trabalhar o contentor de metal que ia expor o BMW, com uma rebarbadora, uma das ferramentas que mais utilizo no meu trabalho. Ainda assim, mantive as latas, aplicando-as em pequenos detalhes. No final, eu, que fui além do briefing e fiz algo totalmente diferente dos outros participantes, acabei por ganhar o concurso. Talvez pela capacidade de inovar dentro de um formato que parecia já definido. Essa vitória abriu-me muitas portas. Por isso, nem sempre o caminho mais fácil é aquele que nos é proposto. Às vezes, as melhores oportunidades surgem quando não temos medo de arriscar e fugir à norma. É aí que nos destacamos, que mostramos o nosso valor. Não quando fazemos uma limonada com limões, mas quando olhamos para os limões, os tiramos do seu contexto, e conseguimos perceber todo o potencial que têm. Porque, às vezes, para fazer o limão brilhar, temos de lhe juntar outros ingredientes, como açúcar, água e até laranja. E nem sempre resulta numa limonada. Tem um minuto? O Observador está a realizar junto dos seus leitores um curto estudo de apenas quatro perguntas. Responda aqui. Rui Basílio Artista plástico Rui Basílio