INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL PARA A GESTÃO DA ÁGUA: FERRAMENTA PARA A SUSTENTABILIDADE OU NOVO DESAFIO AMBIENTAL?
2025-10-31 22:03:09

Estas variáveis intensificam a competição por reservas limitadas de água doce, ao mesmo tempo que os ecossistemas necessitam de caudais adequados para sustentar a biodiversidade e a resiliência climática, tornando as decisões de alocação de diferentes usos da água ainda mais complexas. Para garantir a segurança hídrica a longo prazo, é essencial não só gerir de forma mais eficiente os diferentes usos da água, mas também diversificar a oferta através de fontes alternativas como a reutilização de águas residuais ou a captação de águas pluviais. Esta mudança de paradigma tem por base uma abordagem fit-for-purpose, em que a qualidade da água assume um papel central para assegurar a utilização ótima dos recursos e minimizar potenciais impactos ambientais. Para enfrentar estes desafios, as tecnologias emergentes da atual Quarta Revolução Industrial - Indústria 4.0 - oferecem ferramentas relevantes para monitorizar, prever e otimizar a gestão da água em diferentes setores. Entre estas, a Inteligência Artificial (IA), em combinação com a Internet das Coisas (IoT), pode ser aplicada para reforçar os sistemas de gestão da água com o objetivo de alcançar uma utilização mais sustentável, assegurando simultaneamente múltiplas necessidades. Aplicações recentes incluem o tratamento e a reutilização de águas residuais, a gestão de águas pluviais, o controlo da rega e a monitorização da qualidade da água (Krishnan et al., 2022). Casos de sucesso podem ser encontrados na Índia, onde a instalação de sistemas de rega inteligentes com recurso IA reduziu o consumo de água em 30 %, aumentando em paralelo a produtividade agrícola (Hernandez et al., 2024). A IoT contribui diretamente para estes benefícios, através da instalação de sensores de baixo custo que recolhem dados em tempo real, que poderão também ser aplicados para apoiar soluções de cidades in-teligentes. Quando integrados com IA, estes dados permitem a estimativa em tempo real da profundidade de inundações (Chang et al., 2023), a deteção de fugas, a otimização da distribuição e a manutenção preditiva de ativos (Mondal, 2024), entre outros. Como exemplo, a Intelligent Water Grid instalada em Singapura utiliza IA para analisar dados de qualidade da água recolhidos por sensores IoT, detetando contaminantes em tempo real e garantindo a segurança do abastecimento. Em meio urbano, a água é também um elemento fundamental para garantir a sobrevivência e manutenção de infraestruturas verdes. Estas soluções não só melhoram a gestão das águas pluviais, como também geram benefícios adicionais, incluindo a mitigação do efeito de ilha de calor urbano, a melhoria da qualidade do ar e o apoio à gestão do carbono (Shaamala et al., 2024). A IA apresenta, assim, um potencial multiplicador de benefícios, otimizando estratégias integradas de gestão da água urbana e garantindo que múltiplos objetivos são atingidos em simultâneo. Apesar dos benefícios apresentados, a IA acarreta igualmente um custo ambiental, particularmente associado às infraestruturas que a suportam. Os centros de dados representam atualmente entre 1 e 2 % do consumo elétrico global, valor que se prevê aumentar à medida que os modelos de IA se tornam mais complexos e generalizados (Cowls et al., 2023; Sachs, 2024; Herrera et al., 2025). Para além da energia, a pegada hídrica da infraestrutura de IA tem vindo a suscitar crescente preocupação. A água é utilizada como principal processo de arrefecimento dos Data Center e indiretamente através dos processos de geração de energia, dependendo do mix energético que os alimenta (Herrera et al., 2025). Muitos destes centros localizam-se em regiões já sob a escassez hídrica, incluindo partes da América Latina, o sudoeste dos Estados Unidos, a Índia e a Austrália (Li et al., 2025; Herrera et al., 2025) o que constitui uma preocupação a não desprezar. Se a utilização de IA manter o atual ritmo de expansão, estima-se que a procura global de água possa aumentar de 4,2 mil milhões de litros por dia em 2030 para 28,1 mil milhões de litros por dia em 2050 (Herrera et al., 2025). Em contraste, um cenário de transformação sustentável, em que a infraestrutura de IA estabilizasse nos níveis atuais, poderia conduzir a uma redução líquida do consumo de água até meados do século. O acompanhamento contínuo da pegada hídrica da IA é, por isso, essencial para garantir que as suas próprias necessidades deste recurso não se sobreponham aos ganhos de eficiência obtidos pela sua aplicação. Encontrar este equilíbrio será determinante para que a IA se afirme como verdadeira parceira no avanço da sustentabilidade hídrica ou, em alternativa, como concorrente intensiva pelo mesmo recurso que se propõe ajudar a preservar. A crescente pressão sobre os recursos hídricos a nível global, impulsionada pelas alterações climáticas, pelo crescimento populacional e pela expansão industrial, colocou a gestão da água no centro das preocupações ambientais. A IA ” APRESENTA, ASSIM, UM POTENCIAL MULTIPLICADOR DE BENEFÍCIOS, OTIMIZANDO ESTRATÉGIAS INTEGRADAS DE GESTÃO DA ÁGUA URBANA E GARANTINDO QUE MÚLTIPLOS OBJETIVOS SÃO ATINGIDOS EM SIMULTÂNEO. Ana Galvão