COM FALTA DE TRABALHADORES IMIGRANTES, EMPRESAS DE LIMPEZA JÁ REJEITAM CLIENTES
2025-10-31 22:03:36

Setor de limpeza é uma das portas de entrada para profissionais estrangeiros, sobretudo mulheres, no mercado de trabalho de Portugal. Aperto das regras da imigração explica escassez de mão de obra. Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil. Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS. Empresas que fazem limpeza em residências e prédios comerciais já estão sentindo os efeitos do pacote anti-imigração que entrou em vigor em Portugal em 23 de outubro último. Portas de entrada no mercado de trabalho, sobretudo de mulheres imigrantes, firmas do setor têm sido obrigadas a rejeitar novos contratos com clientes por falta de pessoal. "Estou em Portugal há 18 anos, dos quais 14 nesse mercado de limpeza, e nunca vi uma escassez de trabalhadores como agora. E essa realidade começou a se consolidar nos últimos meses, quando Portugal passou a restringir a imigração", diz Cristina Hordonho, 53 anos, gestora da Clean Company, com sede em Loures. Segundo ela, a reclamação no setor é geral. "Tenho conversado com várias empresas sobre o que estamos enfrentando, e a reclamação é sempre a mesma: falta de pessoal", frisa. Cristina, que nasceu em São José dos Campos, cidade do interior de São Paulo onde está a sede a gigante Embraer, afirma que há uma combinação de dois movimentos no mercado que restringem a oferta de trabalhadores. "Além de não estar entrando pessoas dispostas a trabalhar com limpeza em Portugal, vários dos profissionais que estão no país têm optado por migrar para outros países, como Espanha, Luxemburgo e Bélgica, onde os salários são maiores", assinala. Quer receber notícias do PÚBLICO Brasil pelo WhatsApp? Clique aqui. Cristina conta que o impacto das novas regras de imigração não se restringe aos profissionais da limpeza. "Estamos com dificuldade até para contratar motoristas para conduzir nosso pessoal para as casas que serão limpas e para levar o material que será usado no trabalho. Estamos com alguns carros parados", frisa. Ela ressalta que, hoje, são 16 pessoas trabalhando com limpeza na Clean Company, divididas em quatro equipes. Todas são imigrantes, a maioria, brasileiras. Foto Dona de uma empresa de limpeza com sede no Seixal, Kezia Miriam acredita que o impacto do pacote anti-imigração no mercado de trabalho de Portugal só está no começo Arquivo pessoal "É muito triste ver o que está acontecendo. Atendemos, atualmente, quase 200 casas por mês, e temos sido procurados diariamente por interessados nos nossos serviços. Mas estamos sendo obrigados a recusar novos contratos por não termos como ampliar as equipes", reforça. Em média, destaca ela, cada equipe fica duas horas na casa de um cliente, o que custa 52 euros. "Como são duas pessoas trabalhando, isso equivale a quatro horas. Também fornecemos todo o material usado na limpeza", detalha. "Há pessoas, porém, que fazem contratos mensais", emenda. Custo de vida e AIMA Dona da Clean Solutions, com sede na região do Seixal, Kezia Miriam, 29, também enfrenta dificuldades para contratar trabalhadores e, assim, poder ampliar a carteira de clientes. "Estamos com muita dificuldade para contratar, pois precisamos de pessoas de confiança", diz. "Diante dessa escassez de mão de obras, não estamos podendo aceitar mais nenhum cliente, o que limita o crescimento do nosso negócio", acrescenta. Ela conta que, além dos sete profissionais fixos, precisa recorrer a um cadastro para cobrir folgas e férias. "A situação complicou bastante." Kezia ressalta que, com a opção do Governo de Portugal de impor regras mais rígidas para a imigração, as pessoas que estavam propensas a se mudarem para o país estão vivendo um "choque de realidade". Ou seja, Portugal já está deixando de ser, na visão de muitas pessoas, um bom destino para quem quer construir uma vida nova. "Ao longo dos anos, percebemos que o setor de limpeza é a primeira passagem de mulheres imigrantes pelo mercado de trabalho em Portugal. No caso dos homens, é a construção civil", sublinha. Há seis anos vivendo em Portugal, a empresária afirma que a conjuntura atual está desfavorável à imigração para o país, e não apenas por causa do pacote anti-imigração. "O custo de vida subiu muito e há todo o atraso da AIMA (Agência para a Integração, Migrações e Asilo) para conceder a autorização de residência. Isso é muito desgastante para os imigrantes", comenta. Tudo isso, no entender dela, acaba se refletindo na oferta de mão de obra num país em que boa parte da população tem mais de 65 anos. Um dos instrumentos usados pelos brasileiros para entrar legalmente em Portugal era o visto de procura de trabalho, cuja emissão está suspensa. Pela nova Lei de Estrangeiros, esses vistos estarão restritos, agora, a profissionais considerados "altamente qualificados", que serão definidos em portaria governamental. "Creio que o impacto de todas as mudanças promovidas pelo Governo português na política imigratória será sentido, em sua potencialidade, mais à frente", sentencia Kezia. Promo App PÚBLICO BrasilUma app para os brasileiros que buscam informação. Fique Ligado! tp.lisarbocilbup@senunetneciv Vicente Nunes