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A EUROPA VERDE FAZ MARCHA-ATRÁS NOS CARROS ELÉCTRICOS

Público Online

2025-11-03 22:06:46

O recuo nos planos de electrificação das marcas pode ser o primeiro passo de um retrocesso significativo: o de uma Europa que, por medo de mudar, acaba por perder o direito de liderar. Foi a 28 de Março de 2023 que a União Europeia selou o que parecia ser o princípio de uma nova era: a proibição da venda de automóveis a combustão a partir de 2035, que trazia em si a promessa de liderança na transição para uma mobilidade limpa. Dois anos e meio depois, essa promessa perdeu força e convicção, corroída pela lentidão das vendas, pela pressão política dos partidos que negam a crise climática e pela incapacidade das instituições europeias de transformar ambição em realidade. A Porsche anunciou o regresso aos motores de combustão, a Mercedes pediu a Bruxelas que alivie as metas de emissões, a Ford travou os seus planos de electrificação e a Stellantis começa agora a reescrever o seu calendário. A mesma indústria que invocava “sustentabilidade” nos anúncios de televisão reivindica hoje o direito a poluir por mais alguns anos em nome da competitividade. É certo que a Comissão Europeia falhou na coerência do processo. Impôs metas sem garantir condições, multiplicou regulamentações sem planear incentivos e deixou que a desconfiança se instalasse: a rede de carregamento é insuficiente, a fiscalidade é caótica e o preço dos eléctricos continua fora do alcance da maioria das famílias. Enquanto isso, a China consolidou o seu domínio na produção de baterias e veículos eléctricos - um golpe que expôs a dependência tecnológica do continente e a fragilidade da sua indústria. Mas a culpa não é apenas das instituições. A indústria automóvel europeia, habituada à rentabilidade fácil do motor de combustão, desperdiçou tempo e investimento. Falou em sustentabilidade, mas agiu como se a velha gasolina fosse eterna. Quando a China avançou com planeamento e pragmatismo, a Europa ficou a discutir prazos. Hoje, o risco é duplo: perder a batalha climática e abdicar da autonomia tecnológica. O argumento do emprego - dois milhões de postos directos, 7% do PIB europeu - é legítimo, mas não pode servir de álibi para perpetuar o atraso. O que está em causa não é apenas a electrificação do automóvel, é o próprio modelo de desenvolvimento europeu: se queremos continuar a ser produtores de tecnologia ou se nos resignamos a ser clientes de quem a inventa. O carro eléctrico não é uma moda nem uma utopia verde, é o símbolo de uma mudança inevitável que, se adiada, se fará noutro continente. E a marcha-atrás que hoje se anuncia nos planos de electrificação das marcas pode ser o primeiro passo de um retrocesso significativo: o de uma Europa que, por medo de mudar, acaba por perder o direito de liderar. tp.ocilbup@zulogait Tiago Luz Pedro