OS RESULTADOS É QUE MANDAM E AS NOTÍCIAS SÃO FAVORÁVEIS
2025-11-03 22:06:47

Os resultados trimestrais robustos que estão a ser apresentados pelas cotadas norte-americanas e europeias são o principal suporte da tendência de alta das bolsas. Esta semana há mais números importantes para analisar. Numa semana que se confirmou frenética, com importantes reuniões de bancos centrais e um encontro histórico entre os líderes das duas maiores economias do mundo, foram os resultados trimestrais que mais influenciaram a evolução dos mercados acionistas. Uma confirmação de que os fundamentais acabam sempre por vir ao de cima e são o fator mais determinante para definir o rumo das cotações das empresas e dos índices. As épocas de apresentações de resultados servem para separar o trigo do joio e mostrar como as empresas estão a reagir à evolução da atividade económica, decisões de política monetária, desenvolvimentos políticos e geopolíticos. Evidenciam também se as expetativas do mercado estão ajustadas, ou demasiado otimistas/pessimistas. Apesar de estar ainda sensivelmente a meio, esta “earning season” já permite retirar diversas conclusões. Nomeadamente que o impacto das tarifas nos resultados das empresas não está a ser tão pronunciado como se temia (pelo menos para já); as contas das empresas resistem ao elevado nível dos juros nos EUA e sinais de abrandamento no mercado de trabalho; as tecnológicas já estão a monetizar os elevados investimentos na Inteligência Artificial; o consumo das famílias continua robusto e o investimento das empresas resiliente. Esta narrativa favorável refletiu-se de forma pronunciada na evolução das ações globais em outubro, um mês historicamente negativo para as bolsas, mas que foi marcado por ganhos expressivos. O índice MSCI para medir a evolução das ações globais está a subir há sete meses, negoceia em máximos históricos e acumula um ganho anual superior a 20%. O norte-americano S&P500 já sobe perto de 40% desde os mínimos de abril e valoriza há seis meses seguidos (melhor ciclo desde 2021). São sobretudo as tecnológicas que alimentam este “rally”, levando o Nasdaq a avançar quase 5% em outubro e 23% em 2025. Este índice sobe há sete meses seguidos, o que já não acontecia há oito anos. Embora com menor fulgor, as ações europeias também registaram um outubro favorável. O Stoxx600 avançou 2,5% no mês passado e ganha mais de 13% no acumulado do ano. Os índices das bolsas da Alemanha e Itália sobem mais de 20% em 2025, enquanto em Madrid, Lisboa e Atenas as valorizações anuais são superiores a 30%. Este desempenho só é possível porque, trimestre após trimestre, as empresas estão a apresentar resultados que desafiam a narrativa de que as ações já estão caras e que este Bull Market está em fim de ciclo. Os números do terceiro trimestre estão a ser fortes e representam o principal argumento para o desempenho animador das ações globais em outubro. Lucros crescem a dois dígitos nos EUA Já com mais de metade dos resultados das cotadas do S&P500 publicados, 83,2% dos números saíram acima do esperado, o que representa a margem mais forte em quatro anos. Segundo o consenso elaborado pela LSEG, as expetativas apontam para que os lucros aumentem 13,8% no terceiro trimestre, bem acima das estimativas dos analistas no arranque da “earning season” (+8,8% no início de outubro). Parece já seguro garantir que este será o quarto trimestre consecutivo de aumentos de dois dígitos nos lucros das maiores cotadas norte-americanas. Para o conjunto de 2025, as previsões apontam para um incremento de 11,6% nos lucros, acelerando para 14,1% em 2026. Estas taxas de crescimento comprovam a evolução saudável da atividade das companhias norte-americanas, reforçando a confiança dos investidores nas ações apesar dos múltiplos fazerem lembrar a bolha das “dotcom”. O S&P500 transaciona a 23,1 vezes os lucros estimados para os próximos 12 meses, bem acima da média histórica em redor de 18 vezes. Cinco das Sete Magníficas que apresentaram resultados na semana passada esmagaram as previsões, o que enfraqueceu a narrativa de bolha na Inteligência Artificial. A Amazon e a Alphabet destacaram-se com valorizações expressivas, mostrando que ainda há margem para surpreender um mercado já dominado pela euforia com a Inteligência Artificial. A “earning season” nos EUA prossegue a todo o vapor esta semana em Wall Street, com 130 companhias do S&P500 a publicarem resultados. Destaque para as tecnológicas Palantir (já hoje), AMD (amanhã) e Qualcomm e Arm (quarta-feira), mas também cotadas de outros setores, como a Pfizer e a McDonalds. A Nvidia só apresenta resultados a 19 de novembro, naquele que será o teste mais relevante ao momento imparável das Sete Magníficas. Afinal, lucros também crescem na Europa Nos resultados europeus a evolução é bem menos fulgurante, mas também é favorável. 56% dos resultados (das cerca de 100 companhias do Stoxx600 que publicaram contas) conseguiram superar as previsões, ligeiramente acima da média histórica (54%), de acordo com os dados da LSEG. As estimativas apontam para um aumento de 0,4% nos lucros do terceiro trimestre, quando no início de outubro as previsões dos analistas apontavam para uma queda próxima de 1%. Embora ainda com taxas de crescimento magras, será o sexto trimestre de variações positivas nos lucros das empresas do Stoxx600. 80 empresas do índice reportam resultados esta semana, com destaque para BP e Ferrari (amanhã), Novo Nordisk e BMW (quarta-feira) e Rheinmetall, AstraZeneca e Commerzbank (quinta-feira). Uma análise da BlackRock mostra que a reação das cotações das ações das empresas europeias aos resultados trimestrais está a ser mais forte em dois anos. As companhias vistas como mais afetadas pelas tarifas de Trump estão a registar as valorizações mais expressivas, mostrando que o impacto da política comercial dos EUA está a ser mais brando do que o antecipado. Um índice do Goldman Sachs que agrupa estas companhias mais expostas a tarifas valorizou 6% em outubro, mais do dobro do ganho do Stoxx600. Resultados sustentam máximos do PSI A bolsa portuguesa tem brilhado em 2025, com o PSI a atingir máximos de 15 anos, sustentado sobretudo pelas companhias que apresentam os resultados mais animadores. O índice português valorizou 5,9% em outubro, alargando uma espetacular série de 10 meses sempre com saldos positivos. Com cerca de metade dos resultados das empresas do PSI já publicados, o balanço é claramente favorável. Só a Navigator destoa, com a conjuntura adversa no setor a continuar a penalizar a fabricante de papel, que desceu 1% na sessão após apresentar contas. A Semapa foi arrastada e fechou hoje a cair mais de 1%, em reação aos números publicados na sexta-feira. As ações do BCP também desceram na sessão posterior ao anúncio de resultados (-3,2%), mas o banco registou um saldo positivo em outubro e marca um ganho muito expressivo em 2025 (65%). As quatro outras cotadas que já apresentam contas conseguiram uma reação muito favorável do mercado. Destacou-se a Jerónimo Martins, com a segunda maior valorização diária de sempre (11,4%) na sessão posterior ao anúncio de subida de 10% nos lucros dos primeiros nove meses do ano. CTT (5,7%), Galp Energia (3,5%) e Nos (2%) também reagiram em forte alta às contas publicadas nos últimos dias. Corticeira Amorim (hoje), EDP Renováveis (quarta-feira) e EDP (quinta-feira) dão seguimento esta semana à época de apresentação de resultados lusa. Para dar seguimento ao rally das ações globais, é essencial que os resultados das empresas continuem com tendência positiva. Os desenvolvimentos sobre tarifas, política monetária, geopolítica e indicadores económicos vão continuar a dominar o noticiário do dia a dia, mas no fim da linha vão ser sempre os resultados a determinar se as ações continuam atrativas, ou se o Bear Market está à porta. Gráfico com Valor Europa “apanha” EUA em 2026 As empresas europeias estão a apresentar resultados acima das estimativas por margem considerável, mas salta à vista a evolução bem mais fraca quando se compara com as companhias norte-americanas. Segundo o consenso reunido pela LSEG, os analistas apontam para uma descida de 2,4% nos lucros das empresas do Stoxx600 em 2025 e um aumento de 11,6% para as cotadas do S&P500. Em 2026 o cenário é bem diferente, com as previsões da Bloomberg Intellignce a indicarem para aumentos de dois dígitos nos dois índices: 12,2% no S&P500 e 11,6% no Stoxx600. Para 2027 as estimativas também apontam para aumentos superiores a dois dígitos nas duas regiões. Esta perspetiva é favorável às ações europeias que negoceiam com avaliações bem mais contidas. O Stoxx600 transaciona a 14,9 vezes os lucros estimados para os próximo 12 meses, apenas ligeiramente acima da média a 10 anos (14,2 vezes). No S&P500 o múltiplo é bem mais elevado (23,1 vezes), sugerindo que a margem para valorizações adicionais é mais escassa. DE SEGUNDA A SEXTA 05 PMI na Europa O PMI compósito da Zona Euro terá acelerado em outubro para 52,2 (51,2 em setembro), refletindo a evolução robusta em países como a Alemanha, Espanha e Itália, embora a França tenha persistido em terreno negativo. 05 Emprego nos EUA Com a paralisação do governo norte-americano a manter em suspenso a divulgação de indicadores económicos publicados pelas agência estatais, ganham importância os dados calculados pelo setor privado. A ADP revela esta quarta-feira os números do emprego referentes a outubro, estimando que tenham sido criados apenas 24 mil novos postos de trabalho. 06 BoE mantém juros O Banco de Inglaterra (BoE) vai manter a taxa de juro em 4%, estável pela segunda reunião, com a autoridade monetária a adotar uma postura mais cautelosa perante a inflação que persiste no nível mais elevado entre as economias avançadas (3,8% em setembro). Jornalista desde 1999, iniciei a carreira no Negócios, onde durante mais de 20 anos exerci várias funções, sempre com atenção especial aos mercados financeiros. Assino a Newsletter Morning Call, que é distribuída diariamente junto dos assinantes do Negócios. A Newsletter Valor Acrescentado tem como propósito preparar o leitor para a semana nos mercados, com o foco nas tendências dominantes e análise aos eventos que têm o maior potencial para mexer com os preços dos ativos cotados. Deixe-nos o seu feedback e sugestões no email: valoracrescentado@negocios.pt Nuno Carregueiro - Jornalista nc@negocios.pt 19:00 Seguir Seguir autor: Nuno Carregueiro Irá começar a seguir os autores e receber alertas no seu email. Gerir o que já está a seguir Receba um alerta no seu email de registo, a cada novo artigo publicado. Fique atento ao seu email de registo. Deixou de seguir Nuno Carregueiro