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POPULISMO COMBATE-SE “COM ELEIÇÕES”, AFIRMA FUKUYAMA

Negócios

2025-11-06 07:33:03

O filósofo norte-americano foi o “keynote speaker” da conferência do Negócios “#O Poder de Fazer Acontecer”. Ao longo do dia, governantes, gestores, empresários e especialistas em diversas áreas refletiram sobre os desafios da democracia e a necessidade de reformas. PAULO RIBEIRO PINTO Com a ascensão do populismo, como se pode combatê-lo? A pergunta teve uma resposta por parte do politólogo norte-americano, Francis Fukuyama, que vê apenas nas eleições a capacidade de combater esta vaga mundial, sobretudo do populismo, apontando casos concretos como os próprios EUA, mas também a Hungria, a Índia ou a Turquia. “Como combater o populismo?”, questionou Fukuyama. “Com eleições”, respondeu, admitindo que “é um trabalho duro, lento, mas é assim que se evita o retrocesso – como na Polónia recentemente. Talvez nos EUA no próximo ciclo eleitoral – veremos”. Para o investigador da Universidade de Stanford, “keynote speaker” da conferência do Negócios #O Poder de Fazer Acontecer, “a eleição de Donald Trump representa uma ameaça muito mais séria à democracia liberal do que qualquer um dos seus antecessores, porque os Estados Unidos são a maior democracia, a mais poderosa, a mais influente – o país que usou o seu poder nos últimos 70 anos para construir uma ordem liberal internacional.” Mas numa nota de atualidade, referindo-se aos resultados das eleições locais e estaduais desta terça-feira nos EUA, Fukuyama, antecipa o que poderá ser uma mudança. “As eleições de ontem [terça-feira, dia 4 de outubro] são um sinal de esperança”, afirmou, referindo-se em concreto à eleição do mayor de Nova Iorque, o democrata Zohran Mamdani. Para Fukuyama, “a democracia nos EUA não está morta – ainda existem travões significativos ao poder presidencial. Os tribunais têm sido o principal. Muitos dos decretos executivos de Trump foram contestados e anulados por juízes federais inferiores”, lembrou. A crise da confiança Para Francis Fukuyama, muito do que temos na atual crise e ascensão do populismo nacionalista está relacionado com a falta de confiança – “a questão mais profunda” – em diversas camadas da sociedade. Para o filósofo norte-americano, o populismo é o primeiro fator. “Numa democracia, um líder populista afirma que as instituições são ilegítimas, que são manipuladas por elites, que a política deve ser sobre personalidade e não políticas – e conduz a uma erosão do Estado de direito”, lembrando o caso paradigmático do peronismo na Argentina e que teve ramificações noutros países da América Latina. Para Fukuyama, outra mudança “importante ocorreu na definição do conservadorismo”, dando o exemplo da era de [Ronald] Reagan, quando o “conservadorismo se baseava em políticas: baixos impostos, desregulação, privatização”. Hoje, afirma o politólogo, “o conservadorismo nos EUA baseia-se em teorias da conspiração. É populista porque supõe que a realidade é manipulada por elites malévolas.” O filósofo norte-americano aponta ainda um terceiro fator para a desconfiança: a “dificuldade das democracias em fazerem coisas”, no sentido de darem respostas às necessidades das populações. Fukuyama deu o exemplo da construção da hidroelétrica das Três Gargantas, na China, que demorou menos de dez anos a estar pronta, por contraponto à estação ferroviária de alta velocidade em Estugarda, cujo projeto data dos anos de 1980. “Em muitos países, a incapacidade de fornecer bens públicos alimenta a frustração”, salienta. Por outro lado, o ataque à ciência e a desconfiança face ao conhecimento científico, lembrando que a pandemia da covid-19 “minou a confiança pública”, devido à constante mudança dos conselhos médicos e a incerteza que se criou com o desconhecimento sobre o vírus. Outro fator de desconfiança está relacionado com a disseminação da internet e das redes sociais. “O populismo global coincide com a ascensão da internet e das redes sociais”, lembra Fukuyama. “Antes havia media tradicionais com normas jornalísticas. Hoje qualquer pessoa publica qualquer coisa – os algoritmos amplificam o sensacionalismo, a raiva e as teorias da conspiração porque é isso que atrai audiências. A informação degradou-se, a polarização aumentou”, conclui. Por fim, o filósofo norte-americano aponta a igualdade e a alienação dos jovens da política, sobretudo dos homens. Líderes têm de saber comunicar decisões Clara Raposo alerta para a necessidade dos líderes saberem comunicar as decisões que tomam, defendendo a importância de independência dos decisores. Os bancos centrais são, diz, um garante de estabilidade. INÊS PINTO MIGUEL Vive-se uma “crise de confiança” no mundo. O diagnóstico é feito por Clara Raposo que vê no excesso de informação e desinformação a causa da frustração das populações. É um contexto de grande instabilidade que exige clareza na comunicação dos líderes, mas também independência por parte das instituições, entre elas os bancos centrais. “Há desconfiança sobre se o modelo institucional atual é capaz de entregar o que as pessoas esperam”, atira a vice-governadora do Banco de Portugal. “Há dúvidas sobre se quem está a decidir, está a decidir bem”, acrescenta, alertando que há, entre os líderes, a “intenção clara de tomar as melhores decisões, mas há a preocupação sobre a perceção da decisão que se está a tomar”. Na conferência “O Poder de Fazer Acontecer 3.0”, a responsável diz que “é preciso simplificar a comunicação” por parte de quem decide para serem compreendidas por todos. É a forma de, entende, travar a desinformação que prolifera, sendo a outra a garantia de independência de quem decide. Seja dos políticos, seja dos bancos centrais. Num momento em que há uma enorme pressão sobre Jerome Powell, o presidente da Fed dos EUA, com vários nomes a serem apontados para o suceder, muitos alinhados com Donald Trump, Clara Raposo diz que o “importante é que a independência dos bancos centrais seja mantida”, sendo que o risco de perda de independência da Fed sobe a fasquia da responsabilidade dos bancos centrais da Zona Euro. “Temos de ser um padrão de estabilidade. Temos de garantir que as nossas decisões são seguras para o mundo. E os bancos do Eurossistema têm sido capazes de o fazer”, diz a vice-governadora, apontando a moeda única como o “melhor exemplo de aprofundamento do projeto europeu”. Lamenta, contudo, que ainda se fale da Europa “de forma muito parcelar” e não “como uma grande potência”. A defesa do papel dos bancos centrais da Zona Euro, e do Banco Central Europeu, é feita não só por estarem a conseguir ser um garante de estabilidade perante a instabilidade, nomeadamente a provocada pelas tarifas de Trump, mas também pelo trabalho de supervisão do sistema financeiro. “Com toda a transformação do setor, também em termos de regulação e supervisão, o setor bancário tem-se mostrado extremamente resiliente, em Portugal e na Zona Euro”, disse Clara Raposo. “Conseguimos ter um sistema bastante resiliente, com almofada para choques”, mas “falta completar a União Bancária”. E “precisamos de ter mais instrumentos de financiamento” para as novas empresas que despontam. Incerteza e digitalização deixam economia e empresas em ebulição Uma economia que tem mexido no meio da incerteza global e segue à boleia da IA e das tecnologias. Os líderes falam numa necessária adaptação das empresas e de como é preciso aumentar a produtividade para potenciar a competitividade do país. INÊS PINTO MIGUEL Volta e meia, a conversa entre os seis participantes do painel “A Economia em Ebulição” ia parar ao tema da inteligência artificial (IA), ou não fosse esta uma das últimas grandes descobertas do século. A sua força para mover investimentos e conhecimento tem potencial para mexer com a economia, mesmo que Portugal seja um país que se revele mais atrasado. “Portugal sempre foi um país de tudo ou nada. Reagimos e atuamos em coletivo, mas adiamos muito até sermos confrontados com a realidade”, apontou José Teixeira, presidente do Conselho de Administração do dstgroup. “Nunca se viverá do lado da tendência se estivermos desligados do conhecimento”, adiantou o responsável do dstgroup, numa opinião partilhada por Luís Menezes, CEO do grupo Ageas Portugal, que admite que os últimos anos têm sido “sem paralelo”. “Estamos em ebulição e isto ainda não rebentou. Não é mau, o problema é que não está bom para todos”, reforçou. Não se mostrando grande apologista da revolução tecnológica que se está a viver, explicando que ainda existe muita especulação, Luís Menezes acrescenta que estamos “numa lógica de ‘winner takes all’”. “Estamos cansados de ouvir falar de IA. Tem havido muita promessa, mas tem havido enorme especulação em torno dos contratos que só arrancam daqui a mais de uma década”. O sentimento é também espelhado quando aborda a questão do rebentar da bolha. “O primeiro ciclo vai ter similitudes com as dot.com pela onda especulativa, mas o que me preocupa mais é o tema da desigualdade que as tecnologias estão a trazer”, explica. Já Vítor Pereira, membro da Comissão Executiva do Bankinter Portugal, é mais positivo, tanto a nível de conhecimento como de tecnologia. Assumindo que trabalha com cinco gerações diferentes, o que “em si mesmo é um desafio”, o trabalho também é feito em cima de “novas variáveis”. “Falamos muito em ebulição, mas tudo isto representa oportunidades”, vinca. “O novo normal é esta incerteza constante que vai aumentar exponencialmente. O ritmo de mudança mudou e vai continuar a mudar”, alerta Miguel Cardoso Pinto, partner e líder da EY Parthenon, apontando que as empresas têm quase a obrigatoriedade de se adaptarem para conseguirem sobreviver. “Ajudamos as organizações a criarem um ponto de vista próprio sobre o futuro. Não temos uma bola de cristal”, diz. Para o líder da EY Parthenon, a “transformação digital com IA vai acontecer, mas o grande desafio é que os executivos estão a tentar digitalizar os modelos de negócios atuais, e a nossa provocação é reinventá-lo”. A visão positiva, e de transformação, é partilhada pela CEO da Siemens, Sofia Tenreiro. “O maior bloqueio atual são as mentalidades. Temos um país de PME. Precisamos de apostar na capacitação das lideranças para não bloquearem a reinvenção necessária”. Apologista da IA, Sofia Tenreiro não nega que houve, inicialmente, uma promessa, mas alerta para a necessidade das empresas estarem a fazer o seu caminho. “A IA precisa de uma primeira fase muito grande de ‘foundation’ que hoje não existe. É preciso repensar toda a estratégia de dados, o que não foi uma aposta inicial das empresas. Não há dados para conseguirmos ter um modelo robusto e trabalhar em cima deles”, alerta. Outra necessidade para onde os líderes e as empresas têm de olhar é para as pessoas, quem constitui uma empresa. “Há quem seja apaixonado por IA e quem esteja super apavorado porque acham que a IA vai roubar o emprego. E é verdade, a IA vai roubar a maior parte dos nossos empregos, mas também vai criar muitos outros. Só temos de perceber se somos tarefeiros ou se estamos a acrescentar valor”, sustentou. Um dos passos está na capacitação para a literacia das equipas, tornando-as mais produtivas, eficientes e inteligentes com a ajuda da tecnologia. Há espaço para competitividade? A resposta agrupa mais consenso: só se aumenta a competitividade com um aumento de produtividade. O presidente do dstgroup lembra que o relatório Draghi tem na inovação um dos seus grandes pilares, e imediatamente por baixo está a produtividade. “O problema da Europa é de produtividade, o problema de Portugal é de produtividade acrescida”. No entanto, há uma componente que tem vindo a ser esquecida: a dimensão social. “Nunca se fala ou ensina que temos de ter comportamentos de entreajuda nas empresas, confiança nas empresas, comportamentos de conversação e negociação das empresas, não individualistas ou que geram mediocracia individual em que cada um faz a sua corrida. Isso prejudica a competitividade das empresas”, advertiu. O passo para competir passa então pela parceria com a academia e centros tecnológicos, não deixando as empresas sozinhas. “Há um grande viés quando se fala em formação, porque a formação tem de ser paga pelo Estado, e as empresas estão a cumprir com uma generosidade não prevista. Mas isso é um erro, porque quem mais ganha com a formação dos trabalhadores são as empresas, que aumentam a competitividade e valor do produto”. É precisamente a desigualdade na distribuição de competitividade que preocupa o CEO do grupo Ageas. “O retorno de capital está a ir para 0,5% da população portuguesa. Houve um aumento rapidíssimo do salário mínimo e os preços aumentaram. Temos uma massa que não entende para onde foi o crescimento. Vemos o PIB a crescer, temos unicórnios a sair de Portugal, mas a melhoria não é palpável”. Na visão de Luís Menezes, o salário mínimo não consegue ser, por si só, um gerador de crescimento económico. “O maior gerador de crescimento foi o aumento de imigração. Claro que temos de regular, mas foi o crescimento da imigração que nos trouxe até aqui”, onde os trabalhadores que chegam de fora aceitam trabalhos que conseguem mexer com a economia, além de darem ganhos à Segurança Social. E as empresas têm de olhar mais para os trabalhadores, que são quem lhes dão os verdadeiros ganhos. “As empresas não podem olhar apenas para a rentabilidade a entregar ao acionista. Temos de entregar a rentabilidade aos colaboradores e devolver mais à sociedade”, alerta. A opinião é partilhada por André Themudo, diretor da Blackrock Portugal, que afirma que os trabalhadores são hoje menos fiéis às firmas. “Deve existir um propósito. As pessoas deixaram de ter um sentimento pessoas, há menos propósito e não há orgulho em trabalhar para as empresas e são-lhes menos fiéis”. Trump cria referencial “perigoso” para democracias liberais Especialistas ouvidos na conferência do Negócios alertam para a ameaça de Trump aos valores democráticos e temem crescimento de movimentos iliberais em todo o mundo. Estamos num processo de retrocesso das democracias liberais? E como podemos combatê-lo? Três especialistas ouvidos na conferência de aniversário do Negócios consideram que o recuo democrático nos EUA abre um precedente “perigoso” e que é preciso tomar medidas, incluindo ter os partidos a preocuparem-se com questões que são bandeira de campos opostos. Num painel sobre democracia, ameaças e limites na conferência #O Poder de Fazer Acontecer 3.0, estiveram à conversa o embaixador Francisco Seixas da Costa, Ana Santos Pinto, professora da Universidade Nova de Lisboa, e o almirante Silva Ribeiro. Seixas da Costa defendeu que o recuo democrático na principal democracia do mundo “cria um referencial à escala global bastante perigoso”. Segundo o embaixador, há hoje “desconfiança num sistema que os próprios EUA ajudaram o mundo a construir após a II Guerra Mundial” e, em particular, sobre “a credibilidade do multilateralismo, no qual os pequenos e médios países se habituaram a segurar como afirmação global”. Ana Santos Pinto concorda e diz que a Administração Trump “legitima” a outros países a serem também iliberais. Segundo a investigadora, a democracia é “o poder dos cidadãos” e “implica a sua participação e controlo”, mas é aí que “está a haver uma erosão”. O problema é também visível na UE, destacou o almirante Silva Ribeiro. “Há democracias iliberais na UE. São eleitas, mas como subvertem estes pilares, corroem o funcionamento das instituições”, alertou. Seixas da Costa entende que as democracias liberais devem fazer um “contraponto” às democracias iliberais, “mantendo abertas as portas ao diálogo”. “As diplomacias funcionam dentro de cada modelo. O grande desafio da diplomacia é ser uma plataforma de contacto entre realidades diferentes, mesmo quando antagónicas”, defendeu. Ana Santos Pinto considera que, para restabelecer a confiança no sistema democrático, é preciso uma alteração significativa nas agendas de cada partido. “A esquerda tem de se preocupar mais com a segurança e a direita tem de se preocupar mais com a desigualdade”, sugeriu, apelando a uma “linguagem menos hermética” para que a mensagem chegue melhor a todos os cidadãos. PRÉMIO CARREIRA ANTÓNIO MOTA ALBERTO CASTRO Professor universitário Hermann Simon cunhou o termo “hidden champions”, que poderíamos traduzir por “campeões discretos”, para designar um conjunto de empresas (alemãs, no caso) com um desempenho acima da média, mas que se mantinham anónimas do grande público. Tal situação reflete, muitas vezes, a postura dos próprios empresários e gestores, centrados na sua função e avessos a protagonismos, mais ou menos, espúrios: mesmo quando as empresas se tornaram conhecidas, sabe-se pouco de quem está por detrás desse sucesso. Esses seriam, afinal, os verdadeiros “campeões discretos”. O vencedor deste ano cabe nessa categoria, não porque fugisse das aparições públicas, mas porque nunca as procurou. Licenciado em engenharia, cedo começou a trabalhar com o pai, na empresa que este havia criado cerca de três décadas antes e que, em boa verdade, constituiu, desde sempre, o seu habitat natural, moldando-lhe a forma de ser e de entender a empresa. Durante vinte anos foi fazendo o seu caminho das pedras, num processo de grande proximidade e cumplicidade com o pai, por quem nutre uma enorme admiração. Sobe, formalmente, à liderança executiva da empresa em 1995, função para que estava mais do que preparado. Os anos subsequentes foram de grande expansão, tanto nacional como internacional, colocando novos desafios em termos de organização e gestão. Ciente disso, em paralelo com o crescimento da empresa, foi conduzindo um processo de progressiva profissionalização da gestão. Sempre sob a sua supervisão vigilante, iniciou-se um processo sistemático para ambientar, testar e afirmar a nova geração, com o mérito e as competências demonstradas, e não os laços de sangue, a serem critérios decisivos. Uma empresa familiar, dizia, não se pode dar ao luxo de não ter os melhores à sua frente. Sabia-o por experiência própria! Um sumário destes, qualquer CHATGPT poderia produzir. Falta adicionar o lado humano, central na forma como o nosso laureado se envolveu, e conduziu a bom porto, a sua nau. Alguns episódios falam por si. Convidado a partilhar com alunos de gestão o seu percurso de vida, apresentou-se na sessão acompanhado por alguns dos familiares e colaboradores mais próximos, não se tendo esquecido de salientar o legado do seu pai. Um estilo, uma forma de estar e de gerir. Pretendia que ficasse claro que era apenas mais um, sendo que, para quem sabia ler nas entrelinhas, ele era o “um” que mais acrescentava. Não artigo indefinido, mas artigo bem definido. Os seus discursos nas festas de Natal eram momentos únicos em que partilhava, com milhares de colaboradores e com total abertura, como se estivesse em família, as suas frustrações, os seus propósitos, os desafios comuns e os feitos alcançados. Ano após ano, emocionava-se ao evocar o pai e os trabalhadores que haviam partido em acidentes que lhe doíam na alma. E entusiasmava-se ao entregar os prémios aos trabalhadores mais antigos, cujas alcunhas conhecia e que abraçava como se fossem irmãos. Nada daquilo era encenado. Tudo era de uma simplicidade e humanismo que empolgavam. Alguém que associava a tudo isso um sentido de humor apurado, mesmo em situações difíceis. Numa ocasião em que lamentava o ano difícil e a falta de encomendas, comentou, inesperadamente: bem, há um lado positivo, ao menos não há pagamentos em atraso… Se um líder é aquele que tem seguidores, aquela era a prova provada que ali estava um líder nato, admirado pelo seu estilo singelo, por ser um deles, em quem se podia confiar. Para ele a matriz familiar da empresa derivava não apenas da estrutura acionista, mas sobretudo dos milhares de famílias a quem assegurava o sustento. Um entendimento de responsabilidade social herdado dos pais, cujo corolário foi a criação de uma fundação como forma de organizar e expandir uma atividade filantrópica única no universo português. A forma como soube passar o testemunho permitiu manter, quiçá reforçar, a matriz familiar do Grupo, associada a uma gestão profissional, garante de bom desempenho económico, sem alienar uma vertente socialmente comprometida. Adivinharam: estamos a falar de António Mota! Os membros do júri O júri do Prémio Carreira do Negócios foi constituído por Luís Menezes ( Ageas), Armindo Monteiro ( CIP), Francisco Teixeira ( WPP), Luís Santana (Medialivre), Alberto Castro (professor universitário) e Helena Garrido ( jornalista). PODCAST PARTIDA DE XADREZ Ministro que já foi cliente-mistério anuncia que carteira digital será paga No podcast Partida de Xadrez do Negócios, o ministro Adjunto e da Reforma do Estado diz que no fim da linha a sua missão se resume a proporcionar um “serviço público de qualidade virado para as pessoas”. Jornal de Negócios6 Nov 2025David Cabral Santos O Governo vai lançar a carteira digital das empresas e Portugal será o primeiro país da União Europeia a disponibilizar este serviço, que pela sua qualidade será pago, anunciou Gonçalo Matias, ministro Adjunto e da Reforma do Estado. Esta promessa foi verbalizada no podcast Partida de Xadrez, que esta quarta-feira foi gravado em direto no âmbito da conferência do Negócios #O Poder de Fazer Acontecer, com a equipa residente do programa, os gestores António Ramalho e Gonçalo Moura Martins e a jornalista Maria João Babo. No decurso da conversa, Gonçalo Matias revelou que já fez visitas como “cliente-mistério” a várias Lojas do Cidadão para avaliar o funcionamento dos serviços públicos. Em alguns casos “chega às 8 da manhã e não há senhas”. O ministro garante que a sua missão assenta numa premissa, a de “uma ambição profunda como nunca houve Portugal” e tem um objetivo simples, o de pôr os cidadãos e as empresas “no centro” dos serviços públicos. Vamos realizar “a mais profunda reforma do Estado que se fez em Portugal”, assegura. Esta ambição encontra paralelismo na “motosserra” de Javier Milei ou na missão que foi atribuída ao Doge (Departamento de Eficiência Governamental) de Elon Musk, questionou, em jeito de provocação, Maria João Babo. “Não tenho as empresas dele, mas espero que a minha longevidade [enquanto ministro] seja superior à que Elon Musk teve no Doge”, retorquiu Gonçalo Matias. Gonçalo Moura Martins confrontou o ministro Ajunto com as assimetrias que existem nos serviços públicos. Gonçalo Matias reconhece que existem “silos fechados” o que faz com departamentos não comuniquem entre eles. “Temos de destruir os silos e garantir que os sistemas falam entre si, com interoperabilidade”, avança o governante. “A reforma do Estado é uma inevitabilidade”, constatou António Ramalho. “Sim”, enfatiza o ministro. “Desconfiamos todos uns dos outros e por isso foi-se criando um sistema infernal e labiríntico” que é preciso desmontar. E como vai conseguir ter êxito onde outros falharam? Pela força política atribuída a este ministério e também pelos instrumentos tecnológicos colocados à disposição. “Esta área tem uma centralidade neste Governo” que é inédita quando comparada com os que lhe antecederam. E para materializar esta reforma, Gonçalo Matias avançou com exemplos como o de alterar o código dos contratos públicos, mudar os licenciamentos e mexer na Justiça. “Envergonha-nos a todos ter uma justiça administrativa que demora cinco a dez anos a tomar uma decisão”, sublinhou o ministro Adjunto e da Reforma do Estado. No fim da linha, esta reforma tem um propósito simples, o de proporcionar um “serviço público de qualidade virado para as pessoas”. Braço de ferro entre superpotências obriga a investimento na defesa O aumento da despesa em PIB, um território mais vasto e o mundo em autodestruição. Este painel abordou os investimentos que têm de ser feitos e como Portugal precisa de colocar o pé no acelerador para vingar na defesa. INÊS PINTO MIGUEL O mundo está instável, com as guerras a proliferarem e um setor da defesa a precisar de um “boost”. Esta foi a conclusão do painel “Tecnologia, Espaço e Defesa - Uma Nova Era” da conferência do Negócios, onde os participantes alertaram que a competição entre superpotências está a forçar os investimentos. “O período de instabilidade e de guerra está para continuar. Vai estar aceso enquanto decorre a transição de poder entre os EUA, que está em declínio, e a China, que está a ‘reganhar’ a posição que considera ser sua”, diz Madalena Meyer Resende, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Os conflitos armados na Ucrânia e Médio Oriente são exemplo disso. “Temos um novo mundo em que a guerra é a forma de competição das grandes potências. Enquanto não houver uma balança de poder entre as principais superpotências, não há diplomacia que impeça a guerra”, sendo esta uma forma de “estabelecer poder”, diz. Questionado sobre o papel da diplomacia, Nuno Coutinho, Head of OGMA Institutional Affairs, recorda a Segunda Guerra Mundial, em que também existiu cedência de espaços geográficos. “Se houve diplomacia, ela falhou”. Contudo, o responsável diz que há uma oportunidade para a Europa. “Pode organizar-se e criar a sua independência dos EUA, nunca largando o eixo transatlântico. A Europa tem de ter esse músculo, seja pela defesa ou pelo que for criado. A Europa não é os EUA, que tem problemas entre estados”. O único risco passa pelo facto da Europa poder não ter outra oportunidade para se reorganizar. Já Pedro Sinogas, fundador da POST77, aponta para a necessidade de dar um salto tecnológico. “Temos de parar de nos iludir. A tecnologia faz a diferença”, atira, lembrando que a Europa tem de abandonar a postura “pacífica” e apostar em inovação. Para o empresário, o atraso coloca a Europa atrás dos outros. “Não vamos ter IA ou tecnologia que nos ponha a par com os EUA ou a China. Temos o talento, capacidade, investigação para estarmos a par ou à frente. Temos de ter coragem”, diz. Portugal ainda pode apanhar o comboio? “O rearmamento na Europa tem de ser pensado a nível continental, mas temos más notícias para Portugal e para os países do sul”, adianta Madalena Meyer Resende, explicando que os países do norte e do leste estão a posicionar-se à frente da batalha, dando o exemplo da Alemanha e da Polónia. Nuno Coutinho diz que o dinheiro a entrar em Portugal passa dos 10 mil milhões de euros, mas que isso não significa que o país tenha a força necessária para fazer os investimentos. “Somos bons a planear e depois não executamos, e entramos num ciclo vicioso”, diz. Agora, Portugal pode entrar nos eixos, dado que o investimento “vai estar concentrado na modernização e aquisição de equipamentos”. É então que a conversa entra a substituição dos F-16, cujo processo ainda não arrancou. A substituição tem de trazer “retorno económico” para o país. “O ministro [da Defesa] disse que quando o processo for lançado, o mercado é o mundo livre. Isso quer dizer que vão acontecer mudanças do outro lado do Atlântico, e que as opções europeias serão consideradas”, lembrando que os franceses da Airbus e os suecos da Saab estão a aliciar o Governo para serem escolhidos em detrimento dos americanos Lockheed Martin. Também as fragatas da Marinha serão modernizadas, o que para Pedro Sinogas é um bom sinal, porque Portugal tem de ser olhado como um todo, especialmente devido à área marítima. O fundador da POST77 diz que “com recursos humanos, IA e meios não tripulados, conseguimos alargar a capacidade de combate. Ou podemos dar um saco de ouro aos americanos”, ironiza. Com “mundo do avesso”, jovens querem inovar e contribuir para a democracia Tensões geopolíticas e protecionismo não diminuem ambição dos jovens de contribuir para um mundo mais tolerante e democrático, defendem especialistas ouvidas na conferência do Negócios. Como é que os jovens encaram o mundo atual, marcado por tensões geopolíticas e um maior protecionismo? Quatro representantes de diferentes áreas setoriais – empreendedorismo, finanças, educação e ação humanitária – ouvidas na conferência do Negócios consideram, apesar de o mundo “estar do avesso”, os jovens devem afirmar a sua vontade de inovar e de contribuir para um mundo mais tolerante e democrático. No painel sobre os desafios das novas gerações, estiveram Mariana Gorjão Henriques, diretora da Fintech House, Amélia Santos, cofundadora da Innuos, Cármen Fonseca, professora de relações internacionais, e Joana Feliciano, responsável de comunicação e relações externas de Portugal com ACNUR (a agência da ONU para refugiados). Mariana Gorjão Henriques destacou que, “mesmo neste mundo do avesso, há empresas a serem criadas e há muita vontade dos jovens em inovar, principalmente no setor financeiro”, que é encarado como “mais distante dos jovens”. Desde o arranque do ano, “um terço” das startups foram criadas por jovens e o investimento nas fintechs da Europa tem aumentado, apesar dos recuos na globalização, disse. Amélia Santos considera que a inteligência artificial vem trazer “desafios” aos jovens, já que pode assumir parte das funções que são hoje atribuídas aos juniores quando terminam a faculdade. Porém, entende que pode ser também uma “oportunidade”, ao permitir aos jovens qualificarem-se noutras áreas. No mundo académico, Cármen Fonseca destaca que “os jovens estão mais envolvidos nos temas políticos”, mas que isso “não significa que votem mais”. A professora defende que os jovens “confiarem menos nos políticos e nas instituições”, por não verem uma resposta direta às suas necessidades. Numa nota menos positiva, Joana Feliciano destacou que, em termos humanitários, 2025 está a ser “extremamente difícil”, devido ao aumento da deslocação forçada – por eventos climáticos e guerras – e aos cortes de financiamento. “Quando fazemos cortes, estamos a escolher entre quem vive e quem morre”, lamentou. E o que é fundamental para apoiar os jovens neste contexto? Amália Santos considera essencial “integrar”. “Apoiar o empreendedorismo”, diz Mariana Gorjão Henriques. Para Joana Feliciano, é preciso “democratizar a solidariedade” e, para Cármen Fonseca, é necessário “democratizar a educação” para que os jovens possam ter “capacidade de atuação democrática e tolerante”. Europa é vista como “oportunidade” e “desespero” do outro lado do Atlântico Portugueses a viver no Brasil e nos EUA reconhecem vantagens na Europa em termos comerciais e estabilidade. Mas sublinham que a excessiva regulação é um desafio e a UE como referência “desapareceu”. Em diferentes continentes debateram-se os desafios e oportunidades. O posicionamento da UE no mundo e a forma como é vista do outro lado do Atlântico foi um dos temas que esteve em debate num painel que juntou Miguel Setas, CEO da Motiva, e Pedro Domingos, professor de Engenharia Informática na Universidade de Washington. Ambos consideram que o continente europeu apresenta “oportunidades” de negócios, mas a excessiva regulação pode ser um “desespero”. Na conferência “#O Poder de Fazer Acontecer 3.0” do Negócios, Miguel Setas, que está há mais de uma década no Brasil, começou por dizer que, no atual momento de “desordem mundial” em que “as placas tectónicas estão em mudança”, o Brasil beneficia de uma “relação privilegiada com a Europa”. É o segundo principal mercado, em termos de balança comercial, ficando atrás só da China. Segundo Miguel Setas, a UE recebe 15% das exportações brasileiras e pesa 20% nas importações do Brasil. Exporta sobretudo soja, ferro, petróleo, café, carne e importa maquinaria, automóveis, medicamentos e químicos. E acordo comercial com o Mercosul “tem avançado”, numa altura de “pressão” mundial devido às tarifas de Trump. “Nesta pressão com os EUA, a Europa e a China como alternativa muito credível”, referiu, salientando que os EUA são o terceiro maior mercado para o Brasil, atrás da China e da Europa. Por essa razão, o impacto das tarifas norte-americanas – que rondam os 50% – “não é tão grande como a primeira parangona das notícias nos leva a crer”. Numa outra geografia, Pedro Domingos, que vive nos EUA, destacou que o movimento das “placas tectónicas” a que se assiste atualmente não é causado pela Administração Trump. “Trump é uma reação a fenómenos mais profundos”, afirmou, acrescentando que são esses fenómenos que explicam a “desordem mundial” atual. “Os americanos não se preocupam com a Europa. Há 50 anos achavam que a UE era importante, mas isso desapareceu. Hoje preocupam-se com questões internas, com a China e a ascensão da IA”, disse. Pedro Domingos recomenda à Europa que “acorde urgentemente” porque há uma regulação “extremamente excessiva” e “há 20 anos liderava a inovação e agora está atrás no que toca à IA”. Para evitar que se torne um “anão” – ainda que “gigante” em termos económicos –, defendeu que a UE deve seguir as recomendações do relatório Draghi e deve permitir “mais imigração”, mas que seja “uma imigração inteligente”. Ministro insiste num mercado laboral rígido e aponta reformas estruturais Joaquim Miranda Sarmento reconhece que o país ainda tem um “longo caminho” para aumentar a produtividade, referindo “mercado laboral rígido” e acredita que o euro pode ser atrativo para os investidores como alternativa ao dólar para financiamento da economia europeia PAULO RIBEIRO PINTO Numa altura em que se debatem alterações significativas à legislação laboral, o ministro das Finanças insiste que o mercado de trabalho em Portugal ainda é muito rígido e com necessidade de reformas estruturais. “Ainda temos um mercado laboral muito rígido e dual e ainda temos uma baixa qualidade da despesa pública”, afirmou Joaquim Miranda Sarmento no encerramento da conferência do Negócios #O Poder de Fazer Acontecer 3.0, apontando a necessidade de “prosseguir com formas estruturais.” Considerando que Portugal está atualmente mais preparado para enfrentar choques externos, o ministro sublinhou que a economia nacional ainda tem “um longo caminho” a percorrer para aumentar a produtividade e competitividade sobretudo face aos países da coesão. Para Miranda Sarmento é com estes países que devemos comparar “porque são os nossos concorrentes diretos em atração de investimento e em exportações” e que “estão no nosso nível de desenvolvimento”, mas que podem ultrapassar Portugal. Para o ministro das Finanças, há “estrangulamentos” nacionais que podem ser fator de perda de competitividade face a estes parceiros, como a “justiça administrativa e fiscal, um sistema fiscal complexo, o sistema fiscal com elevados custos de cumprimento e tempos de contencioso tributário demasiado longos.” Mas também os “baixos níveis de investigação e inovação” e pequena dimensão das empresas portuguesas. O euro como alternativa A nível europeu, e dados os baixos níveis de captação de capital externo – ao contrário dos EUA – o ministro das Finanças acredita que a moeda única pode vir a tornar-se um ativo alternativo para os investidores internacionais, promovendo a capacidade de financiamento da economia europeia. “Hoje, se excluirmos o ouro, cuja a oferta é relativamente elástica, 75% da reserva de valor mundial está em dólares”, começou por indicar Miranda Sarmento. “Um investidor que queira diversificar, que não queira ter 75% do seu investimento em dólares, precisa de um mercado que seja suficientemente grande em termos de dívida e que, simultaneamente tenha o rule of Law (Estado de Direito)”, afirmou. Duas condições que apenas os países da moeda única têm em simultâneo. “Portanto, nós temos uma oportunidade absolutamente extraordinária, não de substituir o dólar naturalmente, mas de reforçar o papel do euro com impactos muito significativos na capacidade de financiamento dos Estados da e das empresas e das famílias”, concluiu.