DESTAQUE - NO SETOR DA DEFESA NÃO PODEMOS CONSTRUIR TUDO MAS PODEMOS DESENVOLVER NICHOS DIFERENCIADOS" - ENTREVISTA A NUNO ROGEIRO
2025-11-10 22:12:58

Especialista em assuntos militares e geopolítica O setor da defesa deve captar as gerações mais jovens e integrar projetos internacionais de relevância, defende Nuno Rogeiro, especialista em assuntos militares e política internacional que há mais de 20 anos é presença assídua na SIC. Nos programas Jogos de Poder, Leste/Oeste e Guerra Fria, com José Milhazes, analisa o contexto geopolítico global que, nos últimos anos, se tem tonado mais complexo. Ao olhar para o setor da defesa em Portugal, destaca a “consciência tecnológica”, que diz estar “bem viva” nas forças armadas, e adianta que a ideia de “nicho” de inovação faz sentido. “Não conseguiremos fazer tudo, ao mesmo tempo, em toda a parte”. Omundo vive uma fase de mudança geopolítica profunda. Que implicações tem essa transformação na Europa e, em particular, em países como Portugal? Estamos preparados para essa mudança em termos de capacidades, talento e cadeias de fornecimento? As mudanças bruscas apanham geralmente os países e as regiões de surpresa, em todo ou em parte, sobretudo se falarmos de uma transformação de sociedades e economias de paz em sociedades e economias de guerra. Historicamente, e caricaturando, ninguém está preparado para sair da praia e empunhar armas, sobretudo se as nações deixaram há muito de pensar em termos de milícia permanente, ou de ameaças constantes. Por outro lado, Portugal ainda vive um certo preconceito contra as indústrias e tecnologias da área da defesa, entendendo-se muitas vezes que estas roubam espaço, oportunidades e esperanças aos empresários, especialistas, formadores e formandos, investigadores e bolseiros, e benficiários de fundos públicos e privados, de domínios não ligados aos conflitos e às tensões. Há ainda a salientar que, por razões conhecidas, Portugal desmantelou a sua indústria de defesa, perdendo com isso conhecimento, infraestruturas, empregos e oportunidades. Mas está amplamente demonstrado que temos muitas entidades científicas e tecnológicas que, com investimento suficiente, podem in-troduzir produtos, mais-valias, patentes e inovações no domínio da defesa, com aplicação dual, ou vocacionadas para o universo militar. Este, porém, está intimamente ligado a áreas relevantes para as crises atuais, da defesa aérea à protecão civil, da segurança das comunicações ao desenvolvimento de novos sensores, da operação de veículos não tripulados à medicina de emergência, da protecção do espaço marítimo ao combate à criminalidade organizada, à sabotagem, aos desastres não-naturais e à falsificação de conteúdos e inviabilização de infraestruturas. A guerra na Ucrânia e as tensões no Médio Oriente recolocaram a defesa no topo da agenda europeia. Como é que a indústria ligada à defesa tem vindo a responder a essa realidade em termos de investimento e capacidade produtiva? Há respostas conhecidas, sobretudo no domínio dos veículos aéreos sem ocupantes, da construção aeronáutica em geral, do desenvolvimento de projetos na área N/RBQV [Nuclear, Radiológica, Biológica e Química], da proteção individual do combatente, e tem-se entrado num caminho interessante de projetos comuns com entidades estrangeiras. Mas há muito a fazer para captar as gerações pré e pós-universitárias. É necessário oferecer melhores remunerações e condições, recriar infraestruturas e, sobretudo, decidir, de uma vez por todas, que tipo de contribuição estratégica pode ser carreada por Portugal, dentro da UE e da NATO. Não podemos construir tudo ao mesmo tempo, mas podemos desenvolver nichos e projetos, como forma de diferenciação. Portugal tem capacidade para ganhar relevância neste setor, dominado por grandes potências e players internacionais? Que plataformas ou sistemas que se tornarão mais relevantes no futuro? São necessários projetos comuns com entidades internacionais e estrangeiras de relevância. Atrair seletivamente as grandes empresas da defesa, depois de demonstrar as vantagens de trabalhar em Portugal, é uma prioridade. Quanto aos domínios, sem dúvida que os novos drones multiuso e as formas de defesa aeronaval serão os grandes pontos do futuro imediato. Que exemplos de sucesso destacaria de cooperação na área da defesa ou de participa-ção portuguesa em projetos internacionais? Há nomes que se tornaram conhecidos, como é o caso da Tekever, da Embraer e OGMA, ou dos estaleiros de Viana do Castelo. Mas a grande questão é a de saber se queremos ter em Portugal um nicho especializado para determinados produtos e inovações ou se ambicionamos desenvolver todo o tipo de componentes e estruturas finais. Isto é, se queremos ser um peixe grande num aquário pequeno, ou um peixe pequeno num aquário grande. De salientar ainda que o sucesso relativo se liga ao entendimento, pelos três ramos das forças armadas, do valor da inovação tecnológica. São promovidos regularmente certames, exposições, competições, laboratórios e cursos de superação e divulgação que juntam as forças armadas às empresas e universidades e é demonstrado no terreno, em missões nacionais, bilaterais ou multilaterais, a excelência de certos produtos. A “consciência tecnológica” está bem viva nas forças armadas, e é essencial neste quadro. Quais considera serem os principais entraves ao crescimento desta indústria em Portugal , financiamento, inovação, escala ou inserção em redes internacionais? Qual destes é o mais crítico? Os quatro elementos são críticos, e não podem ser resolvidos nem rapidamente, nem de foma completa. O mais fácil, para já, é a inserção em redes internacionais, e reforçar o financiamento de projetos em função da nova estratégia europeia de rearmamento, face às ameaças evidentes. A indústria da defesa é cada vez mais uma indústria de duplo uso, com aplicações civis e militares. Tecnologias emergentes como inteligência artificial, drones, cibersegurança ou tecnologias espaciais estão a transformar a defesa. Como é que Portugal se tem posicionado nestas áreas? Talvez seja na área de inovação no duplo uso que Portugal possa aproveitar melhor o talento, disponibilidade e entusiasmo de novas gerações de estudantes, investigadores, professores, produtores e usuários. Por outro lado, interessa ser claro nas várias áreas de “duplo uso”. Para já, precisamos de tecnologias e produtos essencialmente militares, que possam ser usados no domínio civil, e não de produtos essencialmente civis, que possam ser usados militarmente. Na primeira área não estamos suficientemente apetrechados, enquanto na segunda , por ter sido a norma desde 1976 , houve grandes avanços e criação de estruturas consolidades e, dir-se-ia, permanentes. Portugal deve tornar-se num hub de inovação em nichos especializados em vez de tentar abarcar toda a cadeia de valor? O país deve apostar na especialização ou tentar ganhar escala em várias frentes? Acho que a ideia de “nicho” ou “ninho” de inovação faz sentido. Não conseguiremos nunca fazer tudo, ao mesmo tempo, em toda a parte. Pg Nuno Rogeiro