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OPINIÃO - PERDER A VIDA

Templário (O)

2025-11-14 22:09:17

Em 28 de outubro de 2025, foi apresentado no Beato, em Lisboa, o novo BMW iX3, carro elétrico com mais de 800 kms de autonomia. No evento, realçou-se que o carro tem ADN português, porque tem incorporado muita tecnologia “made in Portugal”, criada pela Critical TechWorks, que desenvolve cerca de 150 produtos de soware automóvel. “Só em Portugal esta empresa já emprega cerca de 3000 profissionais e muitas das soluções digitais a bordo do iX3 foram concebidas em Braga, Porto ou Lisboa (in Expresso-Economia, em 31/10/2025). A Critical TechWorks foi criada em 2018, é uma “joint venture” entre o Grupo BMW e a portuguesa Critical Soware, com a missão de criar um entroncamento para desenvolvimento de soware para o Grupo BMW, o que já foi por nós escrito e analisado. Em declarações ao Negócios, em 16/10/2025, o CEO da Critical TechWorks, e da Critical Soware, Rui Cordeiro, afirma que, desde 2018, a parceria BMW , Critical Soware “cresceu sustentadamente e tornámo-nos um dos principais polos tecnológicos do grupo a nível mundial”, contando, hoje, com mais de três mil pessoas distribuídas pelos escritórios do Porto, Lisboa e Braga. Para 2025, preveem contratar mais cem pessoas e, em 2026, cerca de trezentos e trinta novos colaboradores. Rui Cordeiro afirma perentoriamente: “Somos um exemplo de como o talento português está a contribuir para o futuro da mobilidade e para a transformação digital do Grupo BMW”. A Critical TechWorks foi constituída em 2018. Um ano depois, em 2019, a Critical Soware, criadora daquela, instalou-se em Tomar, no Instituto Politécnico. Em meados de 2024, passados cerca de cinco anos, a Critical Soware encerrou as suas instalações em Tomar, alegando que neste concelho não havia possibilidades de desenvolvimento, assunto por mim várias vezes analisado. Há dezenas de anos, quando em Tomar se declarou à cidade e ao mundo a rejeição da indústria, porque Tomar não ia ser o Barreiro, e se assinou um tratado com Abrantes e Torres Novas, sobre a especialização de cada concelho, onde se atribuiu a indústria a Abrantes e a Torres Novas, e a Tomar o turismo, a cultura, os serviços e o dormitório, decretando-se que á cidade do Nabão só interessava empresas até dez trabalhadores, contestei a política tomarense dizendo que seria o suicídio coletivo, porque Tomar iria perder a vida. O tempo confirmou as minhas análises e avisos. O CEO da Critical TechWorks, criada pela Critical Soware, Rui Cordeiro, que se afirma como Chefe de Propostas para mudar o caminho como o mundo se move, realça a estrutura organizacional da Critical TechWorks, muito simples, horizontal, com pouca hierarquia tradicional, onde todos são ouvidos, e têm liberdade para avançarem com soluções, “o que gera um ambiente de confiança e colaboração”. Realça ele que “as equipas, geralmente compostas por seis a sete pessoas, organizam-se em unidades e clusters que funcionam de forma autónoma, consoante o tipo de produto”. Concluindo que ”esta forma de organizar o trabalho e a cultura de autonomia e responsabilidade garantem-nos vantagens competitivas efetivas”. O que tem permitido dar evidências ao modelo de entroncamento que criaram em Portugal, sendo este “uma referência internacional que justifica o investimento”. É uma cultura de Qualidade Total, que não se integrava nem integra em Tomar, onde a ruralidade e o autoritarismo ainda dominam. O modo de vida tomarense é dominado por relações incongruentes, sem harmonia e sem conveniência na consecução de objetivos, entre patrão e trabalhador, com o primeiro em posição superior a “mandar”, e o trabalhador em patamar inferior a obedecer, mesmo a ordens irracionais e destrutivas de valor. Nas novas políticas de gestão, as relações são congruentes, de igualdade entre empregador, seja este individual ou coletivo, com duas ou mais quotas de capital ou sejam empresas com milhares ou milhões de acionistas, e o trabalhador. Nesta nova cultura de Qualidade Total procuram-se talentos que ajudem à consecução de visões, de missões, de estratégias, de objetivos, na sustentabilidade dos projetos e das empresas. Como este modelo era e é impossível de implementar em Tomar, a Critical Soware partiu, dificilmente empresas modernas, de novas tecnologias ou outras com uma nova cultura e organização virão para Tomar, onde a rejeição é grande e o contexto agrava os custos de atividade em termos financeiros, ambientais e de tempo. Tomar perdeu a vida, a recuperação desta vai ser muito difcil. SÉRGIO MARTINS