O RARO ABARTH 850 RIVIERA ALLEMANO MICHELOTTI - DESFILE DE ESTILO
2025-11-19 22:08:47

Desde praticamente o início do automobilismo desportivo em Portugal que os nossos amadores sempre demonstraram uma qualidade inata na escolha de modelos carismáticos. O Abarth 850 Riviera, que correu entre nós pelas mãos de Carlos Campanella, é um desses exemplos que têm tanto de desconcertante como de assertivo. (TEXTO) PAULO PORTO (FOTOS) Já aqui abordamos ao longo desta II série da Motor Clássico vários exemplos de veículos que tiveram uma carreira comercial relativamente tímida, mas que não deixaram de ter um papel interessante na competição nacional, marcando a época em que participaram. Sem ser a título exaustivo, relembremos os artigos sobre o Moretti 750, o Swallow Doretti, O Berkeley ou o BMW 700, como alguns dos modelos que encaixam nessa exclusividade tão do agrado dos amadores portugueses. O modelo que abordamos no artigo desta edição é o raríssimo Abarth 850 Riviera, a versão aberta do mais popular Abarth 850 Scorpione, desenhado por Giovanni Michelotti, com a carroçaria produzida por Allemano. No após-guerra , e ao contrário da indústria automóvel francesa que passou a ser controlada por políticos, com os resultados que se conhecem os próprios construtores italianos estabeleceram um “acordo de cavalheiros” para defender os carroçadores italianos. O procedimento consensual entre todos era o de que as marcas tinham a obrigação moral de produzir plataformas rolantes, desenhadas a partir da parte inferior das estruturas monobloco um procedimento que se tornaria inevitável para maximizar o volume e rentabilizar os custos da indústria = devidamente reforçadas com elementos estruturais introduzidos a posteriori. Se sob o ponto de vista do volume de produção, a sua contribuição era pequena, cada chassis aportava, todavia, um valor acrescentado significativo e uma contribuição muito importante sob o ponto de vista da notoriedade, quer para a marca, quer para o estilista, quer para o carroçador. O PAPEL DA ABARTH Neste “melting pot” de estilos e de constrangimentos, o truque era perceber, em cada momento, as tendências do mercado. Como as plataformas rolantes do Fiat 600 e do 850 eram relativamente baratas, o número de empresas carroçadoras empenhadas nas propostas estilísticas foi muito elevado e muito abrangente, sendo possível afirmar que praticamente todos os segmentos foram abordados pela constelação de “designers” italianos, com grandes resultados para todos os intervenientes. No caso da Abarth, no entanto, os procedimentos eram consideravelmente diversos pois, para além da questão do estilo exterior e da ergonomia do habitáculo, havia também a proposta mecânica, que englobava alterações significativas no motor, na travagem e nas suspensões, modificando de forma considerável o comportamento dinâmico dos pacatos Fiat 600 ou 850. Em 1958, a Abarth lançaria um modelo que teve a sua importância na história da empresa, O 850 Scorpione, um Coupé desenhado por Michelotti, cuja carroçaria era executada na empresa Allemano. Uns meses depois, no prestigiado Salão de Genéve, a Abarth apresentaria a versão aberta do Scorpione, que receberia a designação comercial de Riviera. No entender de um dos mais importantes historiadores da marca, Luciano Greggio, com o lançamento do Riviera “Carlo Abarth tinha, finalmente, disponível um «roadster» muito atraente destinado a um leque de clientes que continuavam fiéis aos modelos exclusivos com motores abaixo de um litro de cilindrada.” Segundo o site “carrozzieri italiani”, apenas se terão feito três exemplares do Riviera para o mercado europeu. Allemano, por seu turno, terá produzido vários exemplares para o mercado argentino, em CKD, onde o modelo foi comercializado sob a marca Cisitalia, também em pequenos volumes. O 850 RIVIERA NO MERCADO PORTUGUES Inusitadamente, dos três Riviera produzidos, um acabou por vir para Portugal, para um entusiasta de automóveis que se apaixonou por um modelo que era extremamente caro, de seu nome Carlos Campanella. Mesmo ciente da sua raridade e do seu valor, Campanella não terá hesitado um segundo em pôr a sua joia a correr em provas de regularidade e até de velocidade pura, como foram os casos dos circuitos de A QUALIDADE DE PRODUÇÃO DE ALLEMANO Serafino Allemano formou a sua empresa de execução de carroçarias e de reparações mecânicas em 1928 em Turim, na Via Orto Botanico. A qualidade do seu trabalho rapidamente se impos no mercado e foi no domínio da produção de novas formas para os automóveis de produção corrente que o seu negócio acabaria por expandir. Depois da II Guerra Mundial, um inesperado convite de Enzo Ferrari para a produção de alguns modelos dar-Ihe-ia uma notoriedade tão inusitada como merecida. A nova marca italiana confiou-Ihe um chassis 166 s, que teve interpretações em carroçaria fechada e aberta, provenientes do traço de Giovanni Michelotti. A versão Coupé venceria as 1000 Miglia de 1948, com os pilotos Clemente Biondetti e Giuseppe Navone, marcando assim uma posição no universo dos carroçadores. A empresa colaboraria com as marcas Lancia e Fiat, mas também elaboraria alguns belos trabalhos para a Panhard. Outras marcas de grande prestígio como a Jaguar, a Aston Martin ou a Maserati também recorreram ao trabalho de Allemano para a execução de séries muito especiais de baixa tiragem. A empresaria encerraria a sua atividade na década de 60. Os RESULTADOS DO ABARTH 850 RIVIERA EM PORTUGAL Mesmo sendo uma viatura muito especial das três unidades produzidas do Abarth 850 Riviera, apenas uma delas veio para Portugal = é muito difícil rastrear o seu percurso na competição automóvel nacional, nos registos da imprensa portuguesa. Carlos Campanella iniciou-se em provas no ano de 1964, essencialmente ralis, havendo, no entanto, a curiosidade de ter participado , sem sucesso algum, ressalve-se-no II Circuito de Cascais. Os bons resultados na classificação à Classe, na generalidade dos casos, poderão refletir o baixo número de inscritos, mas convém não esquecer que um motor Abarth estava sempre bem “vitaminado" e se as provas complementares permitissem soltar os "cavalos", este peculiar modelo poderia fazer algumas surpresas. A maior, talvez, o quarto lugar final no exigente Rali Nocturno do Sporting apenas batido por Américo Nunes (Porsche), César Torres (Austin) e “Sacrila" (Alfa Romeo). Neste contexto de alguma dificuldade de investigação, aqui fica o palmarés do raro e interessante Abarth 850 Riviera, num trabalho que se assume ainda como em progresso. Registe-se também que a partir de 1966, Campanella inscreve-se com o pseudónimo de Mac Allen, por razões que não conseguimos apurar. Nesse ano, os ralis em que participou integravam o primeiro (e único) Campeonato Nacional de Regularidade que finalizou em 11.0 lugar entre os 35 classificados. Cascais e de Montes Claros. os resultados desportivos recolhidos para este trabalho mostram que o pequeno automóvel tinha os seus argumentos, essencialmente assentes na favorável relação peso/potência. Mas como as provas complementares dos Ralis nesta época não eram necessariamente demonstrações de aceleração, travagem e velocidade, o Abarth 850 Riviera embora tenha registado muitos lugares no pódio da classe = teve uma única vitória na respetiva categoria, no Rali de Torres Novas de 1964. Não deixa de ser, no entanto, um marco no automobilismo nacional, quer pela sua raridade, quer pela proposta estilística e mecânica que lhe está subjacente. 0 Abarth 850 Riviera em ação no Rali Abril em Portugal em 1964 Carlos Campanella, num dos postos de controlo do Rali Noturno do Sporting em 1964 Na atmosfera inconfundivel da Figueira da Foz, 0 Abarth 850 Riviera executa uma prova complementar na edição do Rali do Fim do Ano de 1964 AS PECULIARIDADES DO RALI DE S. MARTINHO 0 Rali de s. Martinho foi uma das nossas provas de regularidade que ganhou significativa importância logo a partir dos anos 50, para o que ajudava a proximidade do local das provas complementares da cidade de Lisboa onde residia uma importante parte dos amadores automobilistas desta época. Uma característica interessante da estrutura organizativa deste Rali e que constituía também um sinal inequívoco desses tempos-consistia na receção aos concorrentes que se deslocavam dos seus locais de partida até ao ponto de concentração, em Salvaterra de Magos, onde os aguardavam doses generosas de castanha assada e uns copos de "água-pé". Nestas duas fotos, podemos observar 0 desempenho de Carlos Campanella no seu Abarth Riviera, no Rali de s. Martinho de 1964 Em 1966, Carlos Campanella voltou a participar no Rali de s. Martinho Sob o testemunho pétreo do Mosteiro dos Jerónimos, Campanella executa uma das provas complementares do Critério do 100 à Hora em 1966 0 Abarth 850 Riviera, aqui no Rali de s. Pedro de Moel de 1966, na prova de Regularidade, exibe uma tosca estrutura metálica dianteira para suporte de faróis suplementares 0 Ferrari 166 s, desenhado por Michelotti e executado nas oficinas de Allemano terá sido o modelo que permitiu ao carroçador impor-se no difícil mundo das interpretações estilísticas de automóveis, graças à sua vitória na edição de 1948 das Mille Miglia, nesse caso utilizando a versão fechada. Depois de em 1964 se ter inscrito no Il Circuito de Cascais, na classe de Grande Turismo , onde só fez os treinos , Campanella surgiria de novo numa prova de velocidade em 1966, no circuito de Montes Claros, sob o pseudónimo de Mac Allen AGRADECIMENTO A PAULO PORTO Para a realização deste artigo contámos com a iniciativa e com a documentação do nosso estimado amigo e leitor Paulo Porto, feliz proprietário deste veículo, que o está a restaurar de forma a recuperar o seu elevado brilho de nascença. Um veículo destes merece atenção e cuidados redobrados pelo que, uma vez terminada a sua “ressurreição", voltaremos ao tema do Abarth 850 Riviera Allemano, desenhado por Giovanni Michelotti. Os IRMÃOS SCORPIONE E RIVIERA Esta geração de modelos representou uma alternativa civil à mais conhecida gama dos pequenos “racers” de Carlo Abarth, que tanto êxito obtiveram nas pistas. Obviamente a marca italiana alterou os motores de origem Fiat utilizados nos modelos destinados à venda a retalho, que teriam de ter sempre a sua impressão digital, o que fazia deles propostas obviamente mais caras do que os concorrentes que tinham no estilo o único “handicap” comercial. A elegância das formas fez destes dois modelos verdadeiras referências da produção Abarth desta época. o motor de base era o do Fiat 600, mas neste caso com a cilindrada incrementada de 633 para 833 cm8 = diâmetro subia de 60 para 62 mm e o curso incrementava de 65 para 69 mm, o que obrigava à produção de uma nova cambota. A compressão também crescia de 7.5 para 9.0 e, em geral, todos os componentes móveis eram aligeirados. A potência subia dos 21 cv do pacato 600 para mais de 50 cv, consoante as exigências dos clientes. Qualquer um dos modelos Abarth 850 exibe um equilíbrio de linhas inegável 0 que fazia deles modelos cobiçados, embora com um preço muito alto 0 Abarth 850 Scorpione antecedeu 0 Riviera no mercado e a sua forma de Coupé tornou-o mais apelativo comercialmente, por ter uma proposta de valor mais acessível JOSÉ BARROS RODRIGUES; ÂNGELO PINTO DA FONSECA