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UM TUTOR DE IA POR ALUNO, UM PROFESSOR A MENOS POR ESCOLA

Observador Online

2025-11-19 22:08:48

Quem fala em nome de quem, quando se proclama que o futuro pertence a quem compreender o humano, e se promete, ao mesmo tempo, povoar as escolas de tutores artificiais? A frase “Será melhor estudar filosofia do que programação”, atribuída a Daniela Braga, líder da Defined.ai, pousa no debate público com a leveza estudada das máximas que querem ser sentenças de época. É redonda, sonora, cita bem em conferências e em artigos de opinião. Logo a seguir vem o suplemento moral: “O futuro pertencerá a quem compreender melhor a componente humana do que a tecnológica.” E, como se isto não bastasse, entra em cena o Ministro Adjunto e da Reforma do Estado, Gonçalo Matias, com a sua própria profecia: “dar a cada aluno um tutor de IA que ouve, orienta e inspira a sua aprendizagem”. Filosofia em vez de programação, “componente humana” em vez de técnica, um anjo algorítmico em cada aluno, o enredo está montado. À primeira vista, tudo parece harmonioso: a empresária de tecnologia convertida ao humanismo, o governante visionário que veste a máquina com virtudes pedagógicas e um público exausto que suspira de alívio ao ouvir “filosofia”; mas, se escutarmos melhor, percebemos que não estamos perante um discurso clarificador, e sim perante um truque conceptual que opõe artificialmente filosofia e programação, como se fosse preciso escolher entre compreender o humano ou dominar a máquina, oferecendo consolo a quem se sente ultrapassado pelo digital e prometendo profundidade sem exigir o trabalho duro de pensar ou de entender sistemas técnicos. Esta oposição simplista tem o seu espelho na retórica tecnocrática que reduz tudo à competência de “saber programar” e trata o que não cabe em métricas como ornamento supérfluo, evitando, em ambos os casos, enfrentar a complexidade da relação entre código, conceito e visão de sociedade. É neste cenário que a “componente humana” surge como entidade quase mística, apresentada como núcleo puro em contraste com a instabilidade das ferramentas, quando, na verdade, o humano contemporâneo é inseparável das infraestruturas que o moldam (plataformas, algoritmos, métricas, modelos) e a tecnologia não se limita a afetar o humano, participa ativamente na sua configuração. Falar, assim, de humano “de um lado” e de técnica “do outro” não é um esclarecimento, mas um exercício de nostalgia confortável, que convida a imaginar um sujeito intocado pela técnica enquanto, discretamente, se reorganiza o lugar da tecnologia na escola, na política e na própria definição de futuro. É então que o Ministro Adjunto e da Reforma do Estado entra, não como personagem secundária, mas como intérprete principal do mito. Anuncia, com convicção, a promessa de colocar ao lado de cada aluno um tutor de IA que “ouve, orienta e inspira”; depois do Ministério da Educação, Ciência e Inovação ter proibido “o uso de smartphones no 1.º e 2.º ciclos do ensino básico, assim como a recomendação de medidas restritivas no 3.º ciclo, que desincentivem o uso destes dispositivos nos espaços escolares”. A escolha dos verbos não é inocente. Ouvir, orientar e inspirar são ações que atribuímos a pessoas concretas, com responsabilidades, limites, falhas, história partilhada. São verbos que implicam relação e compromisso. Transferi-los, sem pestanejar, para um sistema estatístico é um passo conceptual e político de enorme alcance, disfarçado de modernização pedagógica. Um sistema de IA pode processar linguagem, ajustar-se ao ritmo de um aluno, oferecer explicações individualizadas, recordar com eficácia a matéria esquecida. Pode até simular hesitação, empatia, humor. Mas não “ouve” no sentido em que reconhece o outro como sujeito; trata sinais. Não “orienta” em direção a um bem que discute com o aluno; otimiza trajetórias num espaço de resultados definidos à partida. Não “inspira” como quem revela possibilidades inesperadas; combina, com grande competência, padrões previamente extraídos de milhões de exemplos. Chamar “tutor” a este tipo de sistema é um expediente retórico que apaga a fronteira entre relação pedagógica e prestação de serviço. Mais grave ainda: a figura do tutor de IA, oferecida como milagre de equidade (“um tutor para cada aluno!”), corre o risco de normalizar uma escola em que o professor é empurrado para segundo plano. Em vez de alguém que acompanha, discute, confronta, falha, recomeça, torna-se gestor de fluxos de informação, supervisor de dashboards, mediador entre o aluno e a interface. Regista, valida, certifica. A parte verdadeiramente humanamente insubstituível, o confronto de temperamentos, a imprevisibilidade do diálogo, a exposição mútua ao erro, é relegada para ornamentação residual. A IA “ouve, orienta e inspira”; o professor corrige testes. Se aceitarmos a provocação inicial e levarmos a filosofia a sério, talvez devêssemos começar por aqui: quem fala em nome de quem, quando se proclama que o futuro pertence a quem compreender o humano e se promete, ao mesmo tempo, povoar as escolas de tutores artificiais? A empresária que recomenda a filosofia não está a abandonar a tecnologia; está a reforçar a sua autoridade, apresentando-se como alguém que domina o código e, do alto dessa segurança, concede ao espírito o seu lugar honroso. O ministro que anuncia tutores de IA não está apenas a “aproveitar oportunidades”; está a redesenhar, sem o dizer claramente, a arquitetura simbólica da educação: menos relação entre pessoas, mais interação com sistemas; menos espaço para o incómodo do encontro, mais conforto na personalização silenciosa de conteúdos. Entretanto, enquanto se declama em favor da “componente humana”, a governação das escolas tende a alinhar-se com uma lógica de gestão tecnocrática: monitorização contínua, indicadores, rankings, automatização de processos. O tutor de IA promete responder às dificuldades específicas de cada aluno, mas raramente se pergunta como é que essa hiperindividualização pode corroer a experiência de comunidade, de conflito, de negociação que faz parte do aprender com outros. Um aluno habituado a um tutor que se ajusta permanentemente às suas necessidades corre o risco de estranhar, mais tarde, a rudeza saudável do mundo em que o interlocutor não está programado para ser infinitamente paciente nem cuidadosamente calibrado. Levar a sério a famosa “componente humana” implicaria admitir que há coisas na educação que não se deixam traduzir em fluxos de dados: o embaraço de errar em público, a memória de um professor injusto que, anos mais tarde, nos obriga a pensar a justiça, a conversa lateral inesperada que acende um interesse, a divergência aberta entre alunos, a recusa de uma resposta simplista por parte de quem ensina. Implicaria reconhecer que a relação pedagógica não é um serviço de esclarecimento, mas um espaço de risco recíproco. Um tutor de IA pode ser uma ferramenta valiosa; não pode ser convertido, sem perda profunda, no eixo simbólico do ato de aprender. É precisamente aqui que a oposição entre filosofia e programação revela todo o seu equívoco. A programação, se for exercida com consciência do seu impacto, é um território onde as questões filosóficas são inevitáveis: quem é representado? Quem é invisibilizado? Que tipos de erro são aceitáveis? O que é considerado sucesso? Que conceção de inteligência se inscreve nos modelos que usamos? Por seu lado, a filosofia que ignore a materialidade dos sistemas técnicos limita-se a discursar sobre um mundo que, entretanto, já foi reorganizado sem o seu contributo. Um futuro minimamente digno não “pertencerá” a quem escolher entre pensar e programar, mas a quem recusar esse falso dilema. Num cenário mais verdadeiro, o ministro não prometia tutores de IA que “ouvem, orientam e inspiram”, nem a empresária contraporia filosofia a programação. Ambos reconheceriam que a questão decisiva é outra: como integrar sistemas inteligentes nas instituições sem esvaziar o sentido das relações humanas que essas instituições existem para proteger? Como garantir que a tecnologia não chega primeiro e a reflexão depois, em modo de justificação póstuma? Como formar pessoas que saibam interrogar o que lhes é oferecido, em vez de se limitarem a consumir personalização eficiente? Talvez o texto possa terminar com uma correção discreta à frase de partida: não será melhor estudar filosofia do que programação, nem melhor programar do que filosofar. Será melhor desconfiar de quem transforma uma tensão complexa numa escolha de marketing. E será melhor, sobretudo, não delegar em nenhum tutor, humano ou artificial, a responsabilidade que é nossa: a de compreender que cada promessa de futuro traz consigo uma certa ideia de humano, e que aceitar a promessa sem interrogar essa ideia é o primeiro passo para perder, sem dar por isso, aquilo que dizemos querer salvar. Fernando Moreira Professor Catedrático, Universidade Portucalense Fernando Moreira