SHAIN SHAPIRO - A MÚSICA CONTINUA A SER NEGLIGENCIADA NAS POLÍTICAS PÚBLICAS - ENTREVISTA
2025-11-21 07:02:04

CC A música tem um impacto muito maior do que o dinheiro Uma cidade que inclui a música nas suas políticas públicas torna-se mais próspera. A ideia está no livro “o lugar onde quero estar”, editado em Portugal pela Scarlet Bloom, onde Shain Shapiro explica a génese do seu trabalho na consultora Sound Diplomacy, com base no Reino Unido. Shapiro já trabalhou em cerca de 150 cidades do mundo , incluindo Londres, Melbourne, Nashville, Austin e Zurique , e lamenta que em muitos países, como Portugal, a música ainda não seja levada a sério. ê usada para atrair turistas, mas não de uma forma estratégica, diz. ? a maioria dos decisores cria políticas com base nos seus gostos pessoais.com esta postura, 0 poder transformador desta “ferramenta” na economia e na sociedade é desperdiçado e cria pessoas mais estúpidas e menos empáticas”. 0 consultor veio a Lisboa participar na conferência Digital Music Days, na Culturgest. MIGUEL BALTAZAR Oe Shain Shapiro constrói conjuntos de dados sobre os ecossistemas musicais das cidades, fazendo um mapeamento das infraestruturas, entidades e negócios locais. Essa informação sobre o território é depois utilizada pelos políticos autarcas OuI membros de governos para definir políticas públicas onde a música está interligada com outras áreas relevantes como a educação, a saúde oue o imobiliário. O fundador da consultora Sound Diplomacy, sedeada no Reino Unido, acredita que a música pode ajudar a melhorar as nossas cidades se for pensada de forma estratégica no planeamento urbano. Quando isso acontece, o impacto positivo é evidente nas sociedades e na economia, defende, porque o setor criativo, se for protegido e desenvolvido, pode ter um papel transformador nos espaços urbanos. Por isso, tem de ser levado a sério. Como é que a música entrou na sua vida? A música sempre fez parte da minha vida. Não tive uma infãncia muito harmoniosa e foi sempre a música que se me serviu como refúgio. Eu não aprendi a tocar instrumentos Não eramuito bom em nada. Naverdade, era um miúdo problemáticoe, quando tinha 12, 13, 14 anos, estava a ir pelo caminho errado. Foi a música que me guiou na direção certa. Sentia que não encaixava em lado nenhum? Não propriamente. Tenho muita sorte porque cresci numa família canadiana de classe média, nos subúrbios de Toronto. Tinha uma vida bastante normal. Mas havia muitas questões que estava a tentar evitar e recorri à música para me organizar. Lembro-me de ter uns 12 anos e de sair de casa a meio da noite, às escondidas, com o meu Walkman para dar um passeio e ouvir música. Isso acalmava-o? Sim. Também tenho memórias com o meu avô que tinha Alzheimer e que não sabia quem eu era. Nós conectávamo-nos através da música. Ouvíamos juntos jazz e música clássica. Tive momentos em que a música se tornou muito importante e isso ficou gravado em mim. e uma questão também emocional? Eu tenho uma ligação visceral com a música. A música é, literalmente, tudo para mim. Odeio o silêncio. Deixa-me louco. Talvez seja uma neurodiversidade. Não sei. Mas fico muito desconfortável internamente quando as coisas estão calmas. Não gosto disso. Por isso, preciso de ter música a tocar constantemente Sou obcecado por isso. E trabalhou sempre no setor da música. Qual foi o seu primeiro emprego? Trabalho na área da música desde a adolescência. Quando tinha 15 anos, tive dois empregos em simultâneo. Trabalhei numa loja de CDs em Toronto e num bar com música ao vivo, onde não era suposto trabalhar porque era menor de idade. Consegui esse emprego porque usei um bilhete de identidade falso. Era um local muito importante em Toronto para certos tipos de música que eu gostava. Foi uma forma de conseguir assistir aos concertos que não podia pagar ou que não conseguia convencer a minha família a levar-me. Trabalhava lá alguns dias por semana, na limpeza e como ajudante geral. Mais tarde, acabei por ajudar também na contratação das bandas que atuavam no bar. Pouco tempo depois, trabalhei a tempo inteiro como jornalista musical no jornal local. Esse foi o meu primeiro emprego a sério e durou bastante tempo. Tudo isto durante o ensino secundário. Quando percebeu que a música era algo sério, em que queria mesmo trabalhar? Acho que nunca pensei nisso. Venho de uma família judia canadiana bastante tradicional em que se é médico, advogado, contabilista... Mas a minha família foi muito aberta sobre as minhas escolhas profissionais. continua continuação ê doutorado em Política Cultural. 0 que tinha em mente fazer quando foi estudar em Londres? Fiz o meu mestrado em Análise Cultural na Universidade de Amesterdão e depois mudei-me para Londres, para trabalhar numa editora discográfica. Queria alargar um pouco os meus horizontes e não tinha formação em gestão. Surgiu então a oportunidade de fazer um doutoramento e tive a sorte de conseguirr uma bolsa. Foi desgastante porque trabalhei a tempo inteiro e fiz o doutoramento ao mesmo tempo. Em 2013, fundou a consultora Sound Diplomacy. O que faz esta empresa? Moro no Reino Unido há muito tempor e agorajá tenho a cidadania britânica. Mas passei pelo sistema de imigração, como qualquer outra pessoa. Quando era estudante de doutoramento, não tinha permissão para abrir uma empresa. Então trabalhei em part-time . Nessa editora discográfica onde trabalhava, havia uma banda canadiana que eul queria ajudar:. Então fui ter com o governo canadiano e pedi ajuda. Naquele momento eles estavam precisamente a começar a pensar em exportação de música. Muitos países têm escritórios de exportação de música financiados pelo governo. São estruturas que tratam as bandas como qualquer outro produto e que tentam promovere e exportar esse produto noutros mercados. Vi ali uma oportunidade e sugeri trabalhar para eles. Esse tornou-se o meu trabalho como consultor, durante quatro anos, enquanto fazia o doutoramento. Mas fiquei frustrado e entediado. Queria fazer coisas noutros países; queria expandir. Quando obtive o doutoramento, consegui um visto de residência e foi aí que me foi permitido abrir uma empresa no Reino Unido. Criei a Sound Diplomacy, quie começou por ser uma agência de exportação para contratação. Osnossos primeiros trabalhos foram no Canadá. Mas depois trabalhámos com muitas editoras discográficas ao redor do mundo para as ajudar a encontrar oportunidades para os seus artistas. Essa é a génese. Mais tarde, por pura coincidência e por paixão, a consultora evoluiu. O que aconteceu foi que sempre me interessei por política urbana e, em 2015/2016, a Sound Diplomacy mudou a sua trajetória e tornou-se uma empresa completamente diferente. Tornou-se uma consultora para agentes políticos. Sim. Ao trabalhar para artistas em nome de governos, conheci cidades e países. Todas as decisões numa cidade foram tomadas por alguém em algum momento. Porque é que um edificio ou uma estrada são assim e não de outra forma? Isso fascina-me. Quando viajava pela Europa a trabalhar na exportação de música, muitas coisas começaram a frustrar-me nas cidades. Que tipo de coisas? A música não estava a ser tratada como interesse económico sério. Era algo tomado como garantido. Era divertido, raentretenimento, mas não era uma coisa séria. Isso sempre me frustrou. Tive de lutar a vida inteira para provar que o que façoé tão sério quanto qualquer outra coisa. Mesmo quando era adolescente e trabalhava nobar, as pessoas diziam: quie divertido! Era só isso que as pessoas viam. E também me frustrava toda aquela narrativa de vitimização em torno dos artistas. Aquele conceito do artista com fome quie eu acho muito ofensivo. Fico chateado que as pessoas aceitem isso. Nas cidades, vi: a música ser aproveitada ou subestimada. E quando ao pesquisar um pouico, comecei a perceber quie muitos dos desafios que os artistas enfirentavam se deviam a políticas quie os afetavam, mas com as quais eles não tinham nada a ver. Eram políticas que tinham sido criadas há décadas em torno do uso da terra, do álcool... Foi assim que começou a pôr a música no mundo da política e da economia? A Sound Diplomacy é como um serviço de tradução. ê assim que a vejo. Háa linguagem do desenvolvimento económico, a linguagem do turismo, a linguagem dadiplomacia global, a linguagem dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). São linguagens que determinam prioridades e a forma como gastamos dinheiro. Envolvem escolhas. Eu criei um modelo para mapear literalmente, mas também no sentido político como a música se encaixa nessas linguagens. A música é como um canário numa mina de carvão. é uma maneira muito boa de entender porque é que os lugares são da maneira que são e como torná-los melhores. Quando se trata de política de uso da terra, habitação ou gentrificação, muitas veZes são os artistas não apenas músicos quie estão a ir para um lugar que é menos desejável na cidade e que o tornam melhor. Depois os promotores imobiliários chegam e tornam aquela zona mais cara e os preços das casas sobem. Entender este processo ajuda-nos a encontrar formas de mudar as políticas para proteger e apoiar os músicos. Por exemplo, os lugares estão avender-se turisticamente por serem culturais e vibrantes. A música é constantemente usada como forma de atrairturistas. M as não de uma formaestratégica. Não é apenas sobre o tipo de música, mas como a música, enquanto bem turístico, se encaixa com tudo o resto. Na Sound Diplomacy, criámos um conjunto de dados para mediro valor económico da música nas cidades. ê algo mensurável? Tudo é mensurável. Quando questionei o que fazer para resolver o problema de a música não ser levada a sério e como apodemos integrarnas comunidades, precisei de criar um conjunto de dados queexplicassem como a música funciona. ê preciso saber porque é que a músicar é importante, onde está, quanto vale, como se encaixa nas comunidades. E já construímos esse conjunto de dados em 150 cidades. Quem são os vossos clientes? Cidades, governos, organizações de desenvolvimento económico, câmaras de comércio, conselhos de turismo, promotores imobiliários, fundos de pensões, bancos, seguradoras... Está a trabalhar em Portugal? Neste momento, não. Mas já trabalhámos. Correu bem? Não propriamente. O mercado português ainda tem muito trabalho a fazer para ver o desenvolvimento económico dessa forma. e um problema de mentalidade? Tudo é um problema de mentalidade. Quando digo a palavra “música”, significa algo para si que é diferente para mim. e muito emotivo. E, infelizmente, a maioria das pessoas com poder de decisão cria políticas em torno da música com base nos seus gostos pessoais. Há géneros musicais onde são investidos milhões de euros e outros quie, na prática, são “criminalizados”. Para construir um conjunto de dados em torno da música, é preciso englobar não apenas a indústria, mas todo ecossistema coros, professores, estações de rádio, fabricantes de instrumentos, música em lares de idosos, tudo... A música tem um impacto muito maior do que o dinheiro. A música tem impacto no tecido social de uma comunidade. E isso é mensurável. Podem ser tomadas decisões estratégicas sobre onde as coisas devem estar, quanto devem custar, como priorizar festivais, como criar incentivos fiscais... Portugal não tem realmente essa maturidade, e não digo isso de uma forma negativa. O que quero dizer é que essa perspetiva ainda não chegou aqui da mesma forma que já chegou a outros países. Há muito mais a ser feito. Acho que Portugal está numa encruzilhada na forma como lida com a integração, com a inteligência artificial, como atrai empregos... e uma questão de orçamento? Não é preciso muito dinheiro para investir na economia criativa. Basta pegar em 1% da quantidade de dinheiro com que Portugal subsidia as empresas de combustíveis fósseis. Isso financiaria praticamente a política de economia criativa e os investimentosno país. e uma questão de mentalidade. Voltando ao que disse antes, a música não é levada a asério. Não é vista como um negócio, é diversão. Porque nos devemos preocupar com isso? Não percebem. Defende que planear o ecossistema da música traz prosperidade a uma cidade. Como funciona? Sim, uacredito nisso. Trata-se de tomar decisões com base em evidências. Se estamos a dizer que vamos investir nesta parte da cidade e não naquela, ou que vamos desenvolver isto e não aquilo... a música in-continuação fluencia tudo. E nem sempre de forma positiva. Por exemplo, aspessoas sóquerem morar em bairros vibrantes até teremum filho e não conseguirem dormir por causa do barulho. ê possível criar umsistema de políticas e de implementação quie minimize as hipóteses de isso acontecer, enquanto se promovem políticas favoráveis aos negócios. Se quisermos criar comunidades vibrantes, se quisermos atrair talentos, se quisermos melhorar a nossa saúde... a música faz parte disso. Nãoi é a única solução. Mas é parte da solução. Em vez disso, tem sido marginalizadao e vista apenas como entretenimento. Então, como é que a música traz prosperidade para uma cidade? Enquanto área política estratégica central, tal como são os transportes públicos, a saúde ou a educação. E pode ser a reconomiar criativa mais ampla, não apenas a música. Esse planeamento é necessário, em vez de apenas fazer um monte de festivais ou construir uma grande sala de concertos. Isso não são decisões estratégicas. A música é muito negligenciada nas políticas públicas. Como é que isso pode mudar? os músicos devem organizar-se e fazer lóbi? Nãos só os músicos. Implicaumamudança estrutural. Na indústria da música, não há relação entre oferta e procura. A maioria dos músicos não terá sucesso financeiro. Mas acredito que todosdevem ter acesso e capacidade de ter música nas suas vidas. Então, tudo começa na educação. Começa por garantir que a música faz parte do currículo básico. Não apenas tocar um instrumento, mas apreciar a música. A Lmúsica oferece todo o tipo de possibilidades. Desde logo, cria pessoas mais empáticas. ê preciso ser empático para entender a música, porque estamos a ser forçados a ouvir alguém a fazer algo que não entendemos. Da mesma forma que um músico é forçado a envolver-se com alguém em tempo real de uma forma unificada. Isso cria compreensão e empatia. E a educação também constrói auidiências, da mesma forma que constrói músicos. Umar cidade quie não dá prioridade à sua educação cultural está a criar pessoas mais estúpidas e menos empáticas, que facilmente serão conduzidas para a “economia de divisão” em vez de serem conduzidas para a “economia de unificação”. Neste momento, há muito dinheiro a ser ganho na aeconomia da divisão. Em segundo lugar, é preciso qule uma cidade entenda os ativos físicos existentes. Entender os seuls locais de espetáculos, saber onde tudo estáe ter uma compreensão de como tudo se encaixa. Quantos estúdios, quantas salas de concertos, a quiem se destinam? Porque é que isso é importante? Muitas vezes, é assim que se descobre que as diferentes comunidades, de forma intencional ounão, não têm acesso a recursos semelhantes. Também pode ser identificada uma parte da cidade onde há pessoas, mas não há acesso a0 espaço cultural. Ou podemos sobrepor dados de criminalidade, de pobreza e de saúde em cima dos dados de música. Isso pode ajudar a entender se seria útil criar um programa numa área onde as crianças têm problemas de absentismo escolar ou comportamentais. Oualguma iniciativa específican na área damúsica aplicada aos cuidados de saúde na área da saúde mental, quie possa ser implementada numa sala ou num consultório médico, e que permita reduzir a quantidade de nedicamentos prescritos. Tudo isso requer dados e temos de entender onde tudo está. São mapas em cima de mapas. Sobrepondo dados de música Oui de economia criativa, podemos descobrir maneiras de economizar dinheiro, de integrarmelhor aculturanas comunidades, e criarpolíticas tributárias e de negócios corretas. Se quiser começaruma bandae for a um bancopedirum empréstimo, não vai conseguir porque uma ibanda não é vista como umnegócio. Mas a economia criativa funciona como um negócio. As pessoas ganham dinheiro. Se não compreendermos isso, como podemos criar os incentivos, o marketing, acomunicação para dizer: “venham trabalhar para Lisboa”? Sinto que Portugal está apenas a atrair um monte de nómadas digitais quie são como pequenas ilhas entre si, em vez de âncoras. Quando fala com políticos, tem de usar a linguagem do dinheiro. Que argumentos usa para os convencer? Falo de empregos. A música significa empregos, PIB bruto ou valor acrescentado bruto para as empresas, impacto indireto.. Podemos medir o impacto nos hotéis, nos restaurantes, em empregos turísticos mais amplos, no setor de saúde, no setor da tecnologia. é isso que fazemos na Sound Diplomacy. A música é também uma ferramenta poderosa para resolver problemas nas cidades? Acho que sim. Temos um problema real na sociedade que éo facto de as pessoas não se ouvirem umas às outras. Assume-se que são de uma determinada forma por causa da sua aparência, de onde são ou da língua que falam. Há toda uma indústria que tenta capturar nossa atenção. Os nossos telemóveis são apenas ferramentas de distração. E quanto menos conversarmos uns com os outros e nos entendermos, mais votaremos em pessoas que prometem o mundo, mas não entregam nada. Existem alguns elementos que nos juntam amúsica, a comida e, provavelmente, o desporto. Quanto mais prestarmos atenção ao que nos une e tomarmos decisões intencionais em torno disso, mais poderemos combater as pessoas que estão a lucrar com a divisão. E há muito dinheiro a ser ganho dividindo as pessoas. Essa é uma das questões contra as quais luto todos os dias. Infelizmente, hoje a esperança não é lucrativa. E isso éum grandeproblema. Temos de investir em coisas quie nos unam, porque os chatbots não vão resolver todos os nossos problemas. Continuamos a enfrentar uma epidemia de solidão. As economias da Europa Ocidental estão a encolher e a tornar-se menos importantes. Acabei de passar algum tempo no Médio Oriente e em Africa. Eles não querem saber de nós. Estamos em declínio. Pensamos que somos importantes porque somos brancos. E nãosomos, Pode dar-me alguns exemplos de problemas que ajudou a resolver em cidades onde trabalhou? Houve uma cidade no Alabama, nos Estados Unidos, onde ajudámos a abrir um grande local de espetáculos quie tem sido muito bem-sucedido. Mas umae das coisas de que mais me orgulho foi que a cidade criou uma biblioteca de instrumentos musicais numbairro de pessoas desfavorecidas, quie estáintegrada nosistema de bibliotecas públicas. ê um bairrO pobre, no norte de Huntsville. Vimos o juso dos instrumentos aumentar, o quie levou o conselho escolar a investir mais em aulas de música na escola primária. Ainda não testámos esses dados, mas acreditamos quie estará a ter impacto na taxa de criminalidade daquela área. Isso ajudou a criar novas parcerias ehá novos negócios a abrir nessa parte da cidade e um novo espaço cultural. Está tudo interligado. A biblioteca de instrumentos musicais não é a única solução, obviamente. Mas é a pouco e pouco que se vai construindo este ecossistema. Mas uma estratégia que funciona em Londres pode não funcionar em Nova Deli. Claro. O que funciona em Londres não funcionará em Lisboa e o quie funciona em Lisboa não vai funcionar no Porto, nem em Braga. O que pode existir em todos os lugares é o conjunto de dados básicos para entender como a música funciona, OuI como funciona a economia criativa em geral, como tudo se encaixa e quanto vale. Lisboa tem feito muito em torno da música, historicamente. Eu sei disso. E é uma cidade incrível. Mas esse conjunto de dados principais não existe. Não creio quie alguma cidade de Portugal tenha uma análise económica robusta da música em todos os géneros. No Reino Unido, três quartos das cidadesjé fazem isso. Há cerca de 100 cidades aAméricao que o fizeram e a maioriadasi cidades da. Austrália também os têm. Nem todos foram feitos pela Sound Diplomacy,mas já trabalhámos em cerca de 45 países. Mas nem todos esses projetos correram bem. Claro. Houve uma cidade na Florida, onde fizemos um grande projeto e, quando todo o conselho municipal daquela cidade mudou, foi como se não existíssemos. Passámos oito meses a trabalhar nesse projeto. Nem todos os lugares funcionam. Mas tivemos mais sucessos do quie fracassos. Quando começámos, algumas cidades como Nashville, Nova Orleães e Austin, nos Estados Unidos, já estavam a desenvolver projetos. Eunão inventei nada. A maneira como euorganizei é que foi um pouico diferente. E foi portentativa e erro. Agora nunca assumimos nada num lugar, nunca. Cada cidade é mais complicadar e mais bonita, mais dificil e mais humana e mais louca do que pensamos. Todas as cidades. Mesmo uma com cinco mil pessoas. Aprendemos que alguns dos eITOS que cometemos foi por acharmos que deveríamos ir por um determinado caminho. Tinha preconceitos? Quando comecei, acho que tinha. Agora, não. Vim agora de uma viagem à Arábia Saudita e Dubai. A música nesses lugares é completamente diferente da música daqui. Mas há algumas semelhanças fundamentais. Há pessoas que amam música e hápessoas que ouvem música. Existem locais de concerto, festivais, estúdios de gravação, leis, costumes, Aprendemos e construímos um conjunto de dados que é honesto e que está relacionado com o lugar. De acordo com sua análise, que cidades oferecem hoje melhor qualidade de vida? Aí, acho que é mais do quie música. Há três ou quatro fatores essenciais para melhorar a qualidade de vida: habitação, saúde, educação e acesso à cultura. Isso inclui comida. Acredito quie a maioria das cidades escandinavas está a ir muito bem. Em geral, uma cidade que prioriza a educação e a saúde também prioriza a cultura. Está relacionado? Sim. E há muitas cidades na Américae na Europa que fazem isso de maneiras diferentes. Paramim, é fazer isso de forma objetiva, através de dados, em vez de apenas dizer: queremos ser uma capital da cultura e vamos colocar todos os “ovos" num ano e gastar todo o nosso dinheiro para organizar vários eventos. Quais são os governos mais sensíveis a integrar a música nas políticas públicas? os de esquerda ou de direita? Ambos. Independentemente do que acreditamos, a maioria das pessoas gosta de música. Ser liberal ou conservador, isso realmente não importa. Trabalhámos e tivemos sucesso em ambos os lados políticos. Que conselho daria neste momento às autoridades em Portugal? Levem a música a sério. Não importa o que cada um gosta, pessoalmente. Portugal pode ser um líder global na economia criativa, se pensar na música como infraestrutura e reconhecer que a infraestrutura é para todos. ê também uma boa ferramenta contra as desigualdades sociais? Sim, se for usado corretamente. Se for apenas a Taylor Swift a vir à cidade... há muitas pessoas que não podem dar-se ao luxo de ir a esse concerto. Novamente, se for intencional, se for baseado em dados, se entendermos onde tudo está, como se encaixa, então pode funcionar. Uma cidade é um organismo vivo. A Lisboa de amanhã será diferente da Lisboa de hoje. Há pessoas a ir embora e novas pessoas a chegar. w Portugal está apenas a atrair um monte de nómadas digitais que são como pequenas ilhas entre si, em vez de âncoras. 77 4 Não é preciso muito dinheiro para investir na economia criativa. Basta pegar em 1% do dinheiro com que Portugal subsidia as empresas de combustíveis fósseis. Há géneros musicais onde são investidos milhões de euros e outros que, na prática, são “criminalizados”. 41 A música é constantemente usada como forma de atrair turistas. Mas não de uma forma estratégica. Infelizmente, hoje a esperança não é lucrativa. 77 FILIPA LINO