PRESSÃO DOS EUA SOBRE A UCRÂNIA ATINGE PARCEIROS DA NATO E DOMINA O G20
2025-11-22 14:12:04

Donald Trump exige que a Ucrânia aceite cessar-fogo com a Rússia até quinta-feira. Aliados europeus tentam “tornar o plano dos EUA algo mais exequível”. A cimeira do G20, que arrancou este sábado na África do Sul, foi transformada numa arena diplomática com um tema em foco: a ameaça dos EUA à Ucrânia, agora também através da NATO, para que Volodymyr Zelensky aceite o acordo de cessar-fogo com a Rússia. Os líderes europeus estão, desde ontem, em contactos para “tornar o plano dos EUA algo mais exequível”. Elementos da Administração norte-americana pediram aos aliados da NATO para que pressionem o Presidente ucraniano a aceitar um acordo de paz com a Rússia nos próximos dias, com a ameaça de que, se Kiev não assinar o documento de 28 pontos proposto por Donald Trump, pode enfrentar um acordo muito mais desfavorável no futuro. Numa reunião em Kiev, ainda na sexta-feira, o secretário do Exército dos EUA, Daniel Driscoll, informou os embaixadores dos países da NATO, segundo o jornal The Guardian, após conversas com Zelensky, que “nenhum acordo é perfeito, mas deve ser feito mais cedo do que tarde”. “Não estamos a negociar detalhes”, disse Driscoll, segundo um alto funcionário europeu ao Financial Times. Um outro responsável europeu descreveu o tom da reunião como “enjoativo”. Fonte do Guardian foi no mesmo sentido e disse que o ambiente na sala era sombrio, com vários embaixadores europeus a questionarem o conteúdo do acordo e a forma como os EUA tinham conduzido as negociações com a Rússia sem manter os aliados informados. “Foi um pesadelo. Usaram novamente o argumento do não tens cartas para jogar ”, disse a mesma fonte, referindo-se à alegação de Trump de que Zelensky não tinha cartas para jogar, durante uma conturbada reunião na Casa Branca em Fevereiro. “As Forças Armadas dos EUA amam a Ucrânia e apoiam-na, mas é a avaliação honesta do exército norte-americano que a Ucrânia se encontra numa posição muito difícil e que agora é o melhor momento para a paz”, terá dito Driscoll, segundo o FT. Corrida contra o tempo Na sexta-feira à tarde, António Costa e Von der Leyen, presidente do Conselho Europeu e presidente da Comissão Europeia, respectivamente, falaram por telefone com o Presidente Zelensky. Mais tarde, encontraram-se com a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni. Já hoje de manhã, tiveram uma reunião com o Presidente francês Emmanuel Macron. Os encontros foram confirmados ao PÚBLICO por fonte europeia, que garante que “decorrem esforços diplomáticos muito intensos em torno do plano de paz para a Ucrânia, nos bastidores da reunião do G20”. O jornal The Guardian indica, por seu lado, que Macron, o chanceler alemão, Friedrich Merz, e o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, estiveram em contacto com Zelensky, e sublinharam que qualquer plano de paz precisava do “apoio conjunto e do consenso dos parceiros europeus e dos aliados da NATO”. Os encontros vão prolongar-se na cimeira do G20, onde estão vários aliados europeus, e também o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, mas onde não estão Trump ou Putin. As conversações vão estender-se depois na Cimeira da União Africana e União Europeia, que arranca na segunda-feira, em Angola. “Estamos a trabalhar para tornar o plano dos EUA mais passível de aplicação, com base no diálogo já mantido”, garantiu fonte da diplomacia europeia à AFP. O plano de 28 pontos de Washington, que foi conhecido no final da semana passada, exige que a Ucrânia ceda território, aceite limitações às suas Forças Armadas e renuncie à ambição de aderir à NATO. Inclui também propostas às quais Moscovo poderá opor-se e prevê a retirada das suas forças de algumas das zonas que capturaram. Na sexta-feira, o Presidente Volodymyr Zelensky dirigiu-se ao país. Num vídeo, em que aparece todo vestido de negro num cenário sombrio em frente ao palácio presidencial, em Kiev, disse que “este era um dos momentos mais difíceis da história da Ucrânia”. A Ucrânia enfrentava uma escolha, explicou: “perder a nossa dignidade ou perder um aliado crucial”. E, mesmo que entre os aliados europeus persista a expectativa de que Donald Trump volte a recuar numa das muitas posições vacilantes que tem assumido sobre o conflito - ora aproximando-se dos interesses de Moscovo, ora inclinando-se para Kiev e para os parceiros europeus -, as últimas horas foram marcadas por uma nova vaga de pressão. Em declarações à Rádio Fox, o Presidente dos EUA disse que a próxima quinta-feira seria um “momento adequado” para Zelensky assinar o acordo. Referiu ainda que a Ucrânia não conseguiria impedir o Exército russo de tomar à força os territórios de Donbass. “Posição de fragilidade” A Ucrânia confirmou, entretanto, que vai iniciar conversações na Suíça com os EUA. O Secretário do Conselho de Segurança e Defesa da Ucrânia, Rustem Umerov, anunciou que as consultas sobre as medidas a adoptar para pôr termo à guerra terão lugar nos próximos dias. O Presidente ucraniano aprovou a composição da delegação para as conversações, que será chefiada pelo chefe do seu gabinete, Andriy Yermak, e incluirá altos funcionários da segurança, de acordo com uma declaração do seu gabinete no Telegram. Aprovou igualmente instruções para as negociações. “A Ucrânia nunca será um obstáculo à paz e os representantes do Estado ucraniano defenderão os interesses legítimos do povo ucraniano e os fundamentos da segurança europeia”, refere o comunicado da Presidência. “Este plano de paz para a Ucrânia corresponde a várias coisas que vimos tentando explicar há já vários anos: que não haveria solução militar para este conflito; que, quanto mais se arrastasse o mesmo, mais provável seria que a Ucrânia ficasse exposta, negociando de uma posição de fragilidade ou não tendo capacidade negocial de todo - como Zelensky reconheceu na sexta-feira”, diz ao PÚBLICO Pedro Ponte e Sousa, professor de Relações Internacionais da Universidade Portucalense e investigador do IPRI. Para o especialista “a Europa, crescentemente apostada em converter-se num actor militar”, e que agora tenta entrar no debate, corre o risco de “ficar a assistir ao processo negocial em casa, sem nele participar ou ter voz, enquanto fica presa a uma dinâmica de Guerra Fria 2.0 que criou e da qual não consegue sair, por incapacidade das suas lideranças e falta de visão estratégica”. tp.ocilbup@oten.ovi Ivo Neto