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LUÍS BARROSO - UMA DÉCADA MARCADA PELA CONSOLIDAÇÃO DO MERCADO DA MOBILIDADE ELÉTRICA EM PORTUGAL

Diário As Beiras

2025-11-22 22:03:38

ENTREVISTA Em setembro de 2025, os veículos 100% elétricos representavam 29% das novas matrículas e, considerando também os híbridos plug-in, esse valor atingiu 47,6%, colocando Portugal entre os países europeus com maior penetração da mobilidade elétrica, à frente da Alemanha, França, Espanha ou Itália, destaca Luís Barroso, presidente da MOBI.E No ano em que se assinala uma década do surgimento da MOBI.E como entidade de gestão da rede pública de carregamentos de automóveis elétricos, que balanço faz do percurso realizado? A MOBI.E completou uma década de atividade marcada por um crescimento sustentado da rede pública de carregamento e pela consolidação do mercado da mobilidade elétrica em Portugal. Em 2015, iniciámos a recuperação de postos de carregamento que estavam inoperacionais e, no ano seguinte, fomos mandatados para alargar a rede piloto a todos os municípios, garantindo cobertura nacional. Em 2018, concessionámos a rede de postos rápidos e, em 2020, atingimos a fase plena de mercado, com a concessão da rede piloto a operadores privados e o início do pagamento generalizado dos carregamentos pelos utilizadores. Em 2021, introduzimos o pagamento por cartão bancário via QR Code e instalámos, em Castelo Branco, o primeiro posto de carregamento ultrarrápido do interior, com potência superior a 150 kW um marco importante para a região das Beiras e para a coesão territorial. Atualmente, a MOBI.E gere uma rede com mais de 13.200 pontos de carregamento públicos e 3.500 privados, envolvendo mais de 100 operadores, 35 comercializadores de energia e 75 fabricantes de equipamentos, num universo de cerca de 380 mil utilizadores. Em setembro de 2025, os veículos 100% elétricos representavam 29% das novas matrículas e, considerando também os híbridos plug-in, esse valor atingiu 47,6%, colocando Portugal entre os países europeus com maior penetração da mobilidade elétrica à frente da Alemanha, França, Espanha ou Itália. Os dados mais recentes da MOBI.E dão conta de que, só em setembro, tiveram lugar mais de 767 mil operações de carregamento e 6,4 carregamentos desde o início do ano, um aumento de cerca de 50% face ao mesmo mês de 2024. Quais são os desafios de gestão de rede que este crescimento coloca? Nos últimos cinco anos, a MOBI.E habituou-se a um mercado em rápida expansão e adotou uma estratégia assente na antecipação de problemas e na criação de soluções. Neste sentido, em 2023, concluímos a substituição integral da plataforma de gestão e, com isso, passámos a responder com maior eficiência a um mercado em crescendo contínuo. Atualmente, o principal desafio é garantir a estabilidade e a fiabilidade do sistema num contexto de utilização inten-siva. A nova plataforma integra mecanismos de monitorização em tempo real que permitem detetar ocorrências e interagir rapidamente com operadores e comercializadores de energia, contribuindo para a resolução eficiente de situações no terreno. Atendendo à grande interoperabilidade do sistema assente na digitalização, a integração de dados e a segurança digital são preocupações constantes, uma vez que o aumento do volume de registos e informação em tempo real requer sistemas robustos de cibersegurança e gestão de dados, pelo que a análise preditiva e o recurso a ferramentas de inteligência artificial serão cada vez mais uma aposta para otimizar o desempenho da rede, antecipar necessidades de expansão ou manutenção e prevenir ataques informáticos. Outro desafio é assegurar que a expansão da rede acompanha o aumento da procura, quer em número de postos, quer em potência e distribuição geográfica. A gestão centralizada e inteligente da rede facilita a integração de dados operacionais e reforça a interoperabilidade entre operadores fatores essenciais para manter a qualidade global do serviço. Portugal dispõe hoje de uma das redes de carregamento mais capilares da Europa, cobrindo a totalidade dos municípios. Isso garante que a mobilidade elétrica é já uma realidade em todo o território, incluindo as regiões do interior, como as Beiras, onde o objetivo é continuar a assegurar uma cobertura equilibrada e fiável, reforçando a coesão territorial e a confiança dos utilizadores. Como se processa a atribuição de licenças e pontos de carregamento aos operadores deste setor? O processo de atribuição de licenças e instalação de pontos de carregamento é simples, embora sujeito a regras claras. Os agentes do mercado de mobilidade elétrica têm de obter licença junto da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG), demonstrando capacidade técnica e financeira para exercer a atividade. Para a instalação de postos em espaço público, é necessário o licenciamento de ocupação de via pública junto do respetivo município. Neste ponto, continua a ser importante harmonizar procedimentos entre autarquias nomeadamente prazos, taxas e requisitos para ?? simplificar e acelerar os processos, tornando-os mais previsíveis e transparentes. Por fim, é ainda obrigatório solicitar ao Operador da Rede de Distribuição (ORD) a ligação do posto à rede elétrica. Em Portugal continental, o facto de existir essencialmente um único operador contribui para uma maior uniformidade e menor morosidade face a outros países, mas há sempre margem para otimizar os procedimentos e garantir que a expansão da infraestrutura acompanha o crescimento do parque automóvel elétrico. Como antecipa a inovação tecnológica neste setor, designadamente no acesso aos pontos de carregamento e formas de pagamento? O setor da mobilidade elétrica está em constante evolução tecnológica. As soluções de carregamento inteligentes, que ajustam a carga em função do estado da rede elétrica, e as dinâmicas, como o carregamento bidirecional, permitirão que os veículos elétricos funcionem também como recursos de flexibilidade para o sistema elétrico nacional. Essa evolução fará com que a energia utilizada no carregamento se torne progressivamente uma commodity associada a produtos específicos e inovadores ligados à produção, armazenamento, compra e venda de energia, ultrapassando a mera função de abastecimento do veículo. Do ponto de vista do utilizador, a prioridade é a simplicidade. O acesso universal, a interoperabilidade entre redes e a integração de diferentes formas de pagamento são fatores decisivos para manter o ritmo de adesão à mobilidade elétrica. A inovação refletir-se-á igualmente na autonomia dos veículos e na rapidez de carregamento, mas também nas infraestruturas. As soluções abertas de plug & charge vão ao encontro da expetativa de simplicidade dos utilizadores. Estamos já a assistir a uma mudança de paradigma. Até agora, os postos de carregamento têm sido instalados sobretudo junto a zonas comerciais existentes, onde as pessoas aproveitam para carregar enquanto realizam outras atividades. No futuro próximo, começaremos a ver o movimento inverso: espaços criados de raiz para o carregamento, mas que oferecem também serviços complementares. Estes novos centros de carregamento, com múltiplos postos e áreas de apoio como zonas de trabalho, acesso a Wi-Fi, comércio de conveniência ou espaços de lazer irão transformar a experiência do utilizador e integrar o carregamento no quotidiano de forma mais natural e funcional. A médio prazo, a inteligência artificial e os modelos preditivos terão um papel central na gestão e planeamento da infraestrutura de carregamento, permitindo identificar padrões de utilização e orientar os investimentos em infraestrutura de acordo com as reais necessidades do mercado. Esta expansão da rede até aos atuais 7.060 postos de carregamento, distribuídos por cerca de 13.200 pontos no país, está em condições de dar resposta à procura? (recorde-se as fotos na imprensa de longas filas de automóveis em direção ao Algarve) A rede pública de carregamento tem crescido de forma consistente e está hoje em condições de responder à procura média ao longo do ano. A taxa média de utilização dos pontos de carregamento ronda os 20%, o que demonstra que existe capacidade instalada suficiente para o atual número de veículos elétricos. O Regulamento Europeu de Infraestruturas para Combustíveis Alternativos (AFIR) estabelece que cada Estado-Membro deve garantir 1,3 kW de potência disponível por cada veículo 100% elétrico e 0,8 kW por cada veículo híbrido plug-in. Portugal é o único país que monitoriza em tempo real a disponibilidade da rede, através do portal MOBI.Data, operacional desde 2022, e nunca registámos valores inferiores às exigências europeias. Naturalmente, em períodos de maior concentração de tráfego, como nas deslocações sazonais para o Algarve, podem ocorrer situações pontuais de espera. Esses episódios não resultam de limitações estruturais, mas de picos de utilização muito localizados. Graças a um sistema totalmente interoperável, baseado na filosofia bring your own power, qualquer utilizador pode carregar o seu veículo em qualquer posto da rede através do seu cartão ou aplicação, o que aumenta as opções disponíveis. Muitas vezes, a poucos quilómetros das autoestradas, existem alternativas de carregamento sem filas. Conduzir e carregar um veículo elétrico é uma experiência diferente da de um veículo a combustão, e envolve também um processo de adaptação por parte dos utilizadores. A MOBI.E monitoriza em tempo real os padrões de utilização e trabalha com os operadores para ajustar a capacidade instalada, reforçar zonas críticas e melhorar a experiência do utilizador. O objetivo é antecipar o crescimento do número de veículos elétricos, garantindo uma cobertura equilibrada em todo o território incluindo as regiões do interior e, ao mesmo tempo, assegurar a viabilidade económica dos investimentos realizados pelos agentes privados. Que projeções de futuro se podem fazer quanto à adesão dos automobilistas portugueses à mobilidade elétrica, seja em veículos 100% elétricos, seja híbridos plug-in e que efeitos é que pode ter nos custos de carregamento para o consumidor final? No contexto atual de instabilidade política e económica mundial, é difícil fazer projeções de longo prazo. Ainda assim, há metas claras: a descarbonização total da economia até 2050 e o fim da venda de veículos a combustão na União Europeia a partir de 2035. Portugal já atingiu uma quota mensal de cerca de 30% de veículos 100% elétricos, o que nos coloca numa posição favorável para cumprir os objetivos europeus. Se esta dinâmica se mantiver, é plausível que, em 2030, os veículos totalmente elétricos representem cerca de 70% das novas matrículas. A transição deverá fazer-se sobretudo à custa dos veículos a combustão in-terna e, progressivamente, também dos híbridos plug-in, que tiveram um papel relevante na fase inicial, mas tenderão a perder peso com o aumento da autonomia, da oferta, da rapidez de carregamento dos veículos elétricos e do crescimento da infraestrutura de carregamento. Hoje, o custo total de propriedade de um veículo elétrico é já inferior ao de um veículo a combustão, embora essa perceção ainda não esteja generalizada. As empresas avaliam o investimento com base nesse indicador, mas os consumidores particulares continuam a dar maior peso ao preço de aquisição. Para o consumidor final, os custos de manutenção e de carregamento sobretudo quando existe uma combinação entre o carregamento doméstico e o público são significativamente mais baixos, tornando, sem sombra de dúvida, a mobilidade elétrica mais económica no dia a dia. A tendência é que o custo de aquisição dos veículos 100% elétricos continue a descer, aproximandose rapidamente dos valores dos veículos convencionais.com o aumento da escala de produção e a evolução tecnológica, é expectável que, num futuro próximo, os elétricos venham mesmo a ser mais acessíveis do que os automóveis a combustão. A velocidade a que esta evolução ocorrerá depende, contudo, de vários fatores que ninguém controla isoladamente. A estabilidade transmitida aos investidores e o quadro de incentivos fiscais ou diretos serão determinantes para gerar confai nça nos consumidores e assegurar que a mobilidade sustentável se torne, de forma estrutural, mais económica para a sociedade. Luís Barroso, presidente da MOBI.E Portugal já atingiu uma quota mensal de cerca de 30% de veículos 100% elétricos, o que nos coloca numa posição favorável para cumprir os objetivos europeus. Se esta dinâmica se mantiver, é plausível que, em 2030, os veículos totalmente elétricos representem cerca de 70% das novas matrículas