O CUSTO DA NÃO-DIPLOMACIA: A INEVITABILIDADE DO PLANO DE PAZ PARA A UCRÂNIA E O ISOLAMENTO ESTRATÉGICO DA EUROPA
2025-11-24 14:13:04

A Europa assistiu e pagou a fatura, mas o fracasso em antecipar a inevitabilidade negocial foi pago pelas centenas de milhares de vidas que a diplomacia, com pragmatismo, poderia ter poupado. Universidade Portucalense e Instituto Português de Relações Internacionais O plano de paz para a Ucrânia que agora se desenha não é uma novidade, mas sim a materialização tardia de inevitabilidades que vimos tentando explicar há vários anos. Confirma, de forma inequívoca, que não haveria solução militar para este conflito e que, quanto mais o mesmo se arrastasse, mais provável seria que a Ucrânia ficasse exposta: a negociar de uma posição de fragilidade, ou sem capacidade negocial de todo, cenário que Zelensky reconheceu esta semana. A solução passaria, como sempre se antecipou, essencialmente por um entendimento entre os principais atores do conflito: os EUA e a Rússia. A Europa, por sua vez, cada vez mais apostada em converter-se num ator militar, fica a assistir ao processo negocial em casa, sem nele participar ou ter voz. Prende-se, assim, a uma dinâmica de Guerra Fria 2.0 que ela própria incentivou e da qual não consegue sair, por incapacidade das suas lideranças e falta de visão estratégica. A Ucrânia finalmente reconheceu explicitamente a sua condição de pequeno estado, dependente de terceiros para a sua sobrevivência. É a isso que Zelensky se refere quando diz que “a Ucrânia ou perde um aliado de peso ou perde a dignidade”. Esta é uma saída positiva para uma liderança que se tinha enredado na proibição de negociações com Putin e na defesa intransigente da via militar. A pressão decorrente da situação no terreno, aliada à proposta dos EUA, força agora a via negocial imediata que a maioria do povo ucraniano vem defendendo há mais de um ano, como demonstram os estudos de opinião da Gallup. Aos pequenos estados cabe, mais do que a quaisquer outros, uma avaliação muito cuidadosa das capacidades e do contexto. A Ucrânia poderia ter negociado noutro tempo, com outras condições, um resultado bem mais vantajoso. A propaganda de armas milagrosas e de sonhos irrealistas só construiu castelos na areia, que inviabilizaram uma análise pragmática das circunstâncias no terreno e no campo diplomático. Agora, entre a espada e a parede, numa posição impossível e praticamente sem alternativa, o realinhamento forçado com a vontade popular é um resultado positivo para a imagem de Zelensky, em vez da persistência insustentável num arrastamento do conflito à espera de um desfecho que, realisticamente, nunca se percebeu o que poderia ser. A União Europeia, sob a liderança de Ursula von der Leyen e de alguns estados com crescente influência, viu na guerra uma oportunidade para institucionalizar políticas e práticas que já vinham a ganhar tração. Esta estratégia levou a um triplo tiro no pé: 1) A militarização da Europa, com a Europa a gastar hoje mais do dobro em guerra do que há dez anos; 2) O fim da diplomacia como ferramenta central, crescentemente desvalorizada pelos estados e pelas instituições da UE, cada vez mais investidas numa corrida ao hard power e esquecendo o longo sucesso das diplomacias europeias, mesmo com exíguos recursos; 3) O declínio da UE comercial, em que a via de corte total de relações com a Rússia amputou o poderio económico e comercial , a verdadeira fonte de peso e influência da UE. Os resultados desta via eram garantidos à partida e estão agora amplamente demonstrados: uma UE sem ferramentas para lidar com o seu principal vizinho; um impacto negativo sobre a economia russa, mas também sobre as economias europeias, com as principais em estagnação; e, sobretudo, não produziram o resultado esperado de uma retirada russa ou mudança de comportamento. A plêiade de estados, políticos e académicos que alertaram para as limitações desta estratégia , e para o risco de uma UE presa a uma Guerra Fria duradoura e sem rumo estratégico , foi ignorada, ou pior, acusada de pretender o pior para a Ucrânia. Hoje percebemos o oposto: centenas de milhares de mortes poderiam ter sido evitadas e a diplomacia e a negociação poderiam ter feito o seu caminho , como, aliás, estiveram perto em Abril de 2022. Foi incrivelmente fácil para decisores e opinadores traçar o destino económico, político e social da Ucrânia, condenando-a à guerra sem alternativas, sem qualquer cálculo efetivo de ganhos e perdas, e sem pensar em estratégia, nas consequências de cada uma das ferramentas de política externa, em alternativas políticas , ou sem pensar de todo. Sem ser ainda um ator militar e estando diminuída economicamente, o resultado só poderia ser este: uma Europa perdida, sem voz, sem qualquer relevância no desfecho do conflito. A UE assiste à distância, e sem influência aos avanços diplomáticos sobre a Ucrânia. Veja-se a cimeira do G20, onde os líderes das grandes potências não marcaram presença, denotando um fórum diplomático menor, e o papel a que a UE e a Europa se votaram a si mesma, de maior dos menores . Pelo contrário, enquanto os EUA retomam as suas principais preocupações internacionais (algo que era previsível, mais cedo ou mais tarde, fosse qual fosse o líder ou partido no poder), a UE ganhou um inimigo na porta ao lado, com o qual não faz ideia de como lidar. A população europeia não beneficia em nada desta estratégia, e, pior ainda, terá de pagar a conta da guerra, como se vê no apelo de Ursula von der Leyen de 135 mil milhões de euros aos estados-membros para 2026-27. O único aspeto positivo para a UE , para além, claro, do fim da guerra na sua vizinhança , é a possibilidade de repensar cada uma das três propostas que defendeu recentemente para financiar a Ucrânia na guerra e os seus défices orçamentais: a contestada estratégia de utilização dos ativos russos congelados para um empréstimo à Ucrânia, ou “pelo menos” 90 mil milhões de euros a fundo perdido pagos pelos estados-membros, ou dívida conjunta da UE emitida com juros estratosféricos. O eventual fim do conflito permite à UE não ter que tomar nenhuma destas três desastrosas opções lançadas por von der Leyen no seu pedido aos estados-membros. Como sempre dissemos, diplomacia e negociação significam encontrar uma posição de mal menor para cada uma das partes, que ambas consigam aceitar, não sendo perfeita ou ideal. O impasse militar, óbvio há muito, facilitava tal desenvolvimento. Veremos que caminho tem este plano, que ajustes lhe são feitos e como decorre o diálogo entre as várias partes. Não é possível fazer, neste momento, futurologia sobre se será eficaz, ou quanto tempo durará o acordo. Mas a simples pausa no conflito , e, muito mais, o fim do mesmo, independentemente da duração , é infinitamente melhor do que a sua continuação sem qualquer resultado tangível. O que fica é a trágica evidência de que a persistência numa via militar insustentável teve um custo incalculável. A Europa assistiu e pagou a fatura, mas o fracasso em antecipar a inevitabilidade negocial foi pago pelas centenas de milhares de vidas que a diplomacia, com pragmatismo, poderia ter poupado, um preço infinitamente mais alto. Universidade Portucalense e Instituto Português de Relações Internacionais Pedro Ponte E Sousa