OPINIÃO - DESCARBONIZAÇÃO COMO OS SECTORES E OS PAÍSES ESTÃO A MUDAR A ECONOMIA GLOBAL
2025-11-25 22:06:08

HEAD OF CONSUMER CREDIT & UTILITIES A luta contra as alterações climáticas já não é apenas um tema de conferências internacionais, tornou-se um imperativo económico. Indústrias, transportes, edifícios e até a agricultura estão a ser forçados a repensar processos, enquanto países em todo o mundo adoptam estratégias distintas para reduzir emissões e conquistar protagonismo na corrida energética. 0 S SECTORES EM TRANSFORMAçàO Na indústria, a aposta recai na electrificação dos processos, no hidrogénio verde, especialmente em sectores de alta intensidade energética como o aço ou o cimento, e em soluções como a biomassa e a captura de carbono. A efciência energética e a economia circular ganham terreno como formas de reduzir a dependência por matérias-primas fósseis de utilização única: e aumentar a competitividade. Na mobilidade, os veículos eléctricos tornaram-se o símbolo da mudança, apoiados por uma rede de carregamento em expansão. Para os transportes de longa distãncia, as alternativas passam pelos combustíveis sustentáveis, desde biocombustíveis avançados a combustíveis sintéticos e hidrogénio, enquanto os transportes públicos eléctricos e a mobilidade partilhada completam o novo ecossistema urbano. Nos edifícios, a prioridade é clara: reduzir o consumo energético. As bombas de calor substituem as caldeiras, o isolamento térmico é obrigatório e os sistemas solares, ce fotovoltaicos e térmicos assumem um papel central. Redes de calor e frio e edifícios inteligentes completam a aposta em efciência e autonomia energética. Na agricultura, a transição ganha corpo através do biometano produzido com resíduos agrícolas, do uso de painéis solares em terrenos de cultivo e da criação de fertilizantes com base em hidrogénio verde. A descarbonização chega, assim, aos campos, transformando o sector primário num aliado climático. AS DIFERENTES VELOCIDADES DO MUNDO A União Europeia tem sido pioneira na defnição de metas e na regulação, tendo em vista o objectivo de alcançar a neutralidade carbónica até 2050. Na indústria, a aposta passa por tecnologias limpas e energias renovaveis; na mobilidade, pela electrificação e pelos combustíveis sustentdveis; nos edifícios, pela efciência e renovação energética; e, na agricultura, pela produção sustentável e redução de fertilizantes químicos. No entanto, o elevado nível de regulação, embora garanta rigor ambiental, também cria entraves à inovação e à expansão de novas fontes de energia. A China, apesar de continuar a ser um dos maiores consumidores de combustíveis fósseis, é também o maior investidor mundial em renováveis. Tem sido feita uma aposta na expansão de parques solares e eólicos e no reforço do parque nuclear, enquanto simultaneamente aposta no hidrogénio. A escala do desafo é monumental: como descarbonizar a maior economia industrial do mundo sem travar o crescimento? o país moderniza fábricas, substitui o carvão por fontes limpas e reforça a efciência energética, mantendo um equilfbrio delicado entre desenvolvimento e sustentabilidade. Nos Estados Unidos, o Inflation Reduction Act (IRA) representa um marco histórico, canalizando incentivos massivos para energia limpa, veículos eléctricos e tecnologias de captura de carbono. A mobilidade eléctrica avança, a efciência nos edifícios é prioridade e a agricultura de baixo carbono começa a ganhar espaço, consolidando a transição verde como motor económico e geopolíftico. No entanto, existem algumas questões relativas à continuidade desta aposta com a actual administração do país. A grande questão é se o país vai reduzir substancialmente a aposta nas renováveis, ou se vai apostar na diversificação de fontes energéticas, sem descontinuar os combustíveis fósseis. Na india, o desafo é triplo: crescer rapidamente, tirar a população da pobreza e descarbonizar uma economia ainda dependente do carvão. A indústria aposta em efciência e modernização, a mobilidade avança com veículos eléctricos e híbridos, e a agricultura adapta-se com práticas sustentáveis e redução de fertilizantes, numa tentativa de equilibrar segurança alimentar e mitigação de emissões. Das grandes regiões do mundo, a india é sem dúvida a que tem o maior caminho pela frente. No Japão e na Coreia do Sul, a descarbonização é uma questão de segurança energética e liderança tecnológica. O Japão aposta no hidrogénio verde, na energia nuclear de nova geração e na integração de renováveis, enquanto reforça políticas rigorosas de efciência e construção sustentável. Já a Coreia do Sul, através do seu Green New Deal, acelera a electrificação da mobilidade, promove edifícios “net zero” e aposta em soluções de economia circular, posicionando-se como um pólo de inovação verde no Leste Asiático. PORTUGAL NA LINHA DA FRENTE Portugal destaca-se como um exemplo europeu de transição energética bem-sucedida. A sua matriz eléctrica é já maioritariamente renovdvel, com dias inteiros em que quase toda a electricidade consumida provém de fontes limpas. O país defniu metas ambiciosas: 80% de electricidade renovável até 2030 e neutralidade carbónica em 2045.com recursos limitados, Portugal soube apostar estrategicamente. A energia eólica , incluindo projectos pioneiros offshore flutuantes = e a solar fotovoltaica colocam o país entre os líderes europeus. Iniciativas como o GreenH,Atlantic em Sines, prometem transformar o território num pólo de produção e exportação de hidrogénio verde. Mas hca a questão: será este hidrogénio usado internamente ou destinado à exportação? Na mobilidade, os incentivos aos veículos eléctricos e a expansão da rede de carregamento complementam o investimento em transportes públicos de emissões nulas. Nos edifícios, multiplicam-se os programas de reabilitação e efciência energética. Ainda assim, os desafos persistem, particularmente tendo em conta os elevados investimentos necessários para fnanciar esta transição. O reforço da rede eléctrica e o desenvolvimento de soluções de armazenamento em larga escala serão cruciais para integrar a produção intermitente das renováveis. E, acima de tudo, a transição terá de ser justa, garantindo oportunidades às regiões ainda dependentes de combustíveis fósseis. A descarbonização já não é apenas uma questão ambiental, é um novo paradigma económico. Os países que liderarem esta transição defnirão o rumo da competitividade global nas próximas décadas. Mas no meio desta revolução verde, uma pergunta impõe-se: estamos realmente a acelerar para um futuro sustentável, ou apenas a mudar o combustível de uma máquina que continua a consumir demasiado? JOSÉ TROVÃO