EÇA & OUTRAS - A COLEÇÃO AZUAGA REGRESSA AO USUFRUTO DOS CIDADÃOS
2025-11-26 22:09:11

historiador Em quatro salas da ala norte do Solar Condes de Resende encontra-se parte da coleção oitocentista organizada por Marciano Azuaga (1840-1905), antigo ferroviário que foi chefe da estação das Devesas e que em 1904 a doou ao Município de Gaia que nunca a tratou devidamente como decorria do compromisso de a ter recebido. O Museu Azuaga e o Museu de Numismática eram as duas únicas coleções públicas locais no princípio do século XX, tendo estado abertas ao público, em más condições, até aos anos trinta, quando a autarquia decidiu comprar ao escultor Teixeira Lopes (1866-1942) a casa-atelier onde este vivia e trabalhava e o seu recheio, que daí em diante passou a ser designada como Casa-Museu com o seu nome, e onde ele continuou a viver até à sua morte. Esta opção “encaixotou” as peças daqueles dois “museus”, tendo a coleção Azuaga sofrido desde então diversas vicissitudes, até que nos anos setenta transitou para uma arrecadação do novo edifício da Biblioteca Municipal, onde se quedou até aos anos oitenta, afastada do público. Em 1987 transitou para o Solar Condes de Resende, então ainda em obras de adaptação, mas que não contemplaram a criação de salas adequadas para reservas desta coleção. Com mais de duas mil e setecentas peças provenientes de todos os continentes, de várias épocas e de diversíssimos materiais, foi recebendo “incorporações posteriores” aos inventários iniciais, nomeadamente peças arqueológicas e etnográficas locais ou regionais, além de outras de natureza diversa. Mas até à década de noventa do século passado muito poucas destas peças foram estudadas e os seus estudos publicados, conforme se pode constatar pela sua bibliografia. E, no entanto, a coleção, no seu todo ou algumas delas, tinham já recebido a atenção de Leite de Vasconcelos, Ricardo Severo, José Fortes e sobretudo de Armando de Mattos, que nos anos trinta, como diretor da Biblioteca e dos Museus Municipais de Vila Nova de Gaia (o Azuaga e o de Numismática), e sobretudo como investigador, não só sobre elas publicou vários estudos, como os deu a conhecer e tentou impedir a sua anulação cultural. Quando tal aconteceu, foi-se embora. Desde então, a falta de quadros profissionais no município nas áreas da História, História da Arte, Arqueologia, Antropologia Cultural e Museologia mantiveram-no num olvido indicador de forte atraso cultural. Já vários investigadores compararam esta coleção com a do Museu Allen do Porto, do Museu de Manchester ou do Museu de Artes e Tradições Populares de Paris, mas essas coleções caíram em boas mãos, quer autárquicas, quer universitárias, quer estaduais, para até hoje cumprirem as suas missões.com a coleção Azuaga, só após a criação do Gabinete de História e Arqueologia de Vila Nova de Gaia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto em 1982 e da sua implantação como grupo de trabalho autárquico em Gaia é que a situação começou a mudar, devagar certamente, mas de forma decidida.com a transferência de boa parte da coleção para o Solar Condes de Resende em 1987, onde já vinham sendo estudadas pelo Gabinete desde 1984 as peças da Necrópole de Gulpilhares e outras do núcleo de Arqueologia, é que na realidade começou o estudo pontual de algumas outras peças e núcleos. Como seu responsável a partir daquela data, não só estudei alguns e os dei a conhecer, como procurei atrair para essa tarefa, normalmente não remunerada, alguns especialistas de várias universidades, estagiários académicos bem orientados, alunos meus da Universidade Portucalense Infante D. Henrique e docentes e alunos da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto que comigo colaboravam nas semanas de estudos especializados do Museu de Sítio de Ervamoira no Vale do Côa, e outros investigadores com créditos firmados. Tendo a coleção uma muito significativa variedade e qualidade de núcleos cerâmicos, não admira que tenha sido em sua volta que se desenvolveram muitos dos seus estudos e outros trabalhos que foram sendo publicados, ou ainda estão à espera de publicação. Importa também aqui recordar que nesta ação de valorização da coleção Azuaga várias das suas peças foram, entretanto, apresentadas em exposições temáticas, não apenas em Vila Nova de Gaia, mas também na Bretanha, França (Abadia de Daoulas); Lisboa (Museu de Etnologia e Museu das Comunicações); Oliveira de Azeméis (Museu local); Régua (Museu do Douro) e Vila Real (Museu de Arqueologia e Numismática). Deixo aqui um agradecimento muito especial a Susana Guimarães que durante anos comigo trabalhou no Solar Condes de Resende na gestão desta coleção, na sua conservação e disponibilização para estudo, tendo realizado ela própria os trabalhos que acima se indicam e em 2018 comigo elaborado o estudo «Universalidade da coleção Marciano Azuaga e incorporações posteriores» desde então ali disponível e recentemente publicado com o título O Museu Azuaga na génese dos museus gaienses. Vila Nova de Gaia: ASCR - Confraria Queirosiana, 2025. Agora que uma boa parte da coleção voltou a encontrar-se com o seu público com o apoio da vereadora Paula Carvalhal e com a qualidade profissional pelos colegas João Luís Fernandes e Lídia Baptista, aqui fica assinalada esta recente reparação que o município de Gaia devia à memória de Marciano Azuaga e à sua generosidade. E também aos investigadores profissionais que a mantiveram viva e que, com os seus trabalhos, evidenciaram a sua mais-valia cultural, pelo menos «entre aqueles, porém, felizmente numerosos, que têm a religião do objeto de arte, e para quem o colecionar é a forma superior do viver » (Eça de Queirós, Notas Contemporâneas). email queirosiana@gmail.comconfrariaqueirosiana.blospot.comeca-e-outrasblogspot.comCoordenação da página queirosiana@gmail.comendereço postal Endereço Postal: Solar Condes de Resende Travessa Condes de Resende, 110 4410-264 Canelas V.N. GAIA - PORTUGAL Tel.: 227 531 385 | Fax.: 227 625 622 Telm.: 968 193 238 J.A. Gonçalves Guimarães