TRANSIÇÃO ENERGÉTICA EXIGE PRAGMATISMO E NOVOS MODELOS DE NEGÓCIO
2025-11-28 06:31:04

A transição energética europeia e o seu impacto na mobilidade atravessam um momento crítico, marcado por desafios de competitividade, burocracia excessiva e falta de coordenação global. D«6 evemos acabar com aquele discurso de termos que eliminar já e agora os combustíveis fósseis, porque eles ainda fazem parte da mistura energética de que precisamos”, defendeu Ana Silveira, diretora de Relações Externas e Comunicação da Galp. Numa perspetiva pragmática sobre o papel dos combustíveis fósseis na transição, a responsável sublinhou que, apesar do esforço para introduzir renováveis, estas representam apenas 15% do mix energético global, enquanto os combustíveis fósseis mantêm 70%. Estas declarações foram dadas no debate “Roadmap para uma mobilidade mais sustentável”, integrado na conferência de arranque da 4.8 edição do Electric Summit, uma iniciativa do Negócios que conta com o apoio da Galp e da Siemens, a EY como knowledge partner e Oeiras como município anfitrião. Ana Silveira frisou que mesmo num cenário de neutralidade carbónica a Agência Internacional de Energia prevê que 20% do consumo energético continuará baseado em fontes fósseis até 2050. “A transição é necessária, mas tem de ser uma transição em que não haja umas energias contra as outras. E necessário haver uma adição de novas energias”, explicou. A Galp está a investir 650 milhões de euros em Sines, construindo a maior unidade de produção de hidrogénio verde em curso na Europa, com 100 Megawatts (MW) de capacidade, e uma unidade de biocombustíveis para setores não eletrificáveis, como aviação e transporte pesado. “Quando começámos a construção deste projeto, o maior na Europa tinha 20 MW. Neste momento já há 54 MW em operação”, contextualizou Ana Silveira. A empresa aposta também na mobilidade elétrica, com 9 mil pontos de carregamento em Portugal, e inaugurou recentemente em Madrid um hub com 116 postos de carregamento rápidos e ultrarrápidos. Burocracia na rede Sofia Tenreiro, presidente executiva da Siemens Portugal, abordou as dificuldades enfrentadas pela indústria europeia face à concorrência asiática. A Siemens produz carregadores elétricos em Portugal, com mais de 500 postos instalados no país, mas enfrenta concorrentes chineses com condições subsidiadas e sublinhou que 99% da produção da fábrica portuguesa destina-se à exportação. A executiva considerou que Portugal e a Europa têm capacidade competitiva, mas precisam de olhar com mais seriedade para os temas da regulação e da inovação, para conseguirem passar para a ação e não ficarem apenas na teoria. A responsável destacou ainda que muitas empresas olham só para o preço, esquecendo aspetos críticos como qualidade, segurança dos equipamentos e armazenamento de dados. Ambas as executivas identificaram o licenciamento e o acesso à rede como entraves críticos ao desenvolvimento da mobilidade elétrica. “Temos equipamentos instalados há dois anos que não podem ser utilizados devido a bloqueios na rede e no licenciamento”, lamentou Sofia Tenreiro. Novos modelos A aposta na inteligência artificial enos dados surge como elemento diferenciador. Sofia Tenreiro deu como exemplo que “um consumidor com um smart meter em casa vai perceber quais são os equipamentos que estão a gastar mais, com esta informação pode tomar decisões sobre as horas em que vai fazer determinados carregamentos”. A Siemens conseguiu que o seu campus em Alfragide, com 4.800 pessoas, consuma hoje menos energia do que durante a pandemia, quando es-tava vazio. Miguel Cardoso, partner e líderda EY Parthenon, propôs uma rutura radical nos modelos de negócio. “A mentalidade não pode ser trocar um carro a gasolina por umelétrico. Os carros estão parados 94% do tempo, temos de romper completamente os modelos de negócio”, argumentou dando exemplos de mobilidade partilhada e até de automóveis voadores que a Embraer testará comercialmente em 2027. O consultor recordou que há 14 anos trabalhava na Coreia do Sul num projeto que via o automóvel não como veículo, mas como um dispositivo conectado com tecnologia. Como uma espécie de smartphone com rodas. “As pessoas não querem ter coisas, querem usar as coisas”, defenden5 do quie a intermodalidade é essencial para o futuro da mobilidade. Sobre o ritmo da transição, Miguel Cardoso mostrou-se otimista. “A conclusão é que o futuro é elétrico. O que varia é a velocidade, e cabe-nos acelerar essa transformação”. Reconheceu, contudo, que subsistem barreiras. “As pessoas, os consumidores, ainda estão à espera de que a experiência de utilização seja semelhante à do carro de combustível”. A ferrovia do futuro e os desafios urbanos Portugal enfrenta um dilema histórico na construção do seu futuro de transportes. Décadas de investimento concentrado nas estradas deixaram o país refém de escolhas do passado, que agora custam caro à economia e ao ambiente. “o país perdeu demasiado tempo na alta velocidade e na ferrovia como um todo”, ,salientou João Jesus Caetano, presidente do Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT). A opção política durante décadas foi investir na infraestrutura rodoviária enquanto se desinvestia na capilaridade da rede ferroviária, com custos económicos grandes para o país. Aescolha teve uma lógica pragmática. Como explica João Jesus Caetano noo debate “Políticao e infraestrutura para a mobilidade sustentável”, integrado na conferência de arranque da 4.8 edição do Electric Summit, uma iniciativa do Negóciosque contacomo apoio da Galp e da Siemens e tem a EY como knowledge partnere Oeiras como município anfitrião, “construir uma autoestrada é muito mais rápido do quie construiruma linhad de alta velocidade”, permitindo captarfundos europells com maior eficiência para criar coesão territorial e chegar às zonas do território afastadas dos centros urbanos. “Na Europa o setor dos transportes representa 15% a 20% das emissões de carbono, dependendo das estimativas, mas Portugal chega quase a 30%", contextualizou Luís Guimarães, Chief Commercial Oflicer do Banco de Fomento. Mais grave ainda, "85% do transporte total em Portugaldepende do petróleo”, reconhecendo a urgência da mudança. O projeto da alta velocidade avança com apoio financeiro estratégico. Luís Guimarães explica o modelo. “o que O Banco Português de Fomento fez foi, através de uma garantia prestada, lesbloquearu um financiamento adicional do BanCO Europeu de Investimento”. Masumae questão técnica divide as opiniões e está relacionada com: rede em bitola ibéricaoueuropeia. Para João Jesus Caetano não há uma grande vantagempara Portugal em fazer a migração da bitola ibérica para a bitola europeia, porque a interoperabilidade não se relaciona apenas com a bitola. Acrescentoue que “se fizermos em bitola europeia a alta velocidade, estamos a criar uma ilha dentro ode Portugal. Essa infraestrutura não poderia ser utilizada por comboios da rede convencional”. o custo-beneficio não compensaria, contrariando a pressão de Bruxelas. Nas áreas urbanas, os problemas são de outra escala. João Jesus Caetano descreve a limitação estrutural de Lisboa. “Temos quatro eixos ferroviários com capacidade muito limitada”, que são as linhas de Sintra, Cascais, Azambujae Lisboa-Setúbal, e por iSSO “o transporte rodoviário de passagei-rOS acaba por ser a solução mais evidente”. Os problemas das cidades A transição exige mais do que infraestrutura fisica. João.Jesusi Caetano é pragmático. “A única forma de fazermos a mudança de um carro privado para um sistema de transportes públicos é que a pessoa utilize o transporte público e perceba que há ganhos por utilizar o transporte público”. Paradoxalmente, existe dinheirodisponível que não está a ser utilizado, o que Luís Guimarães considera uma oportunidade perdida. “Temos uma linha de quase 300 milhões de euros com garantia de até 75% do financiamento, pode ir até 10 milhões por cada investimento, e estápraticamente porutilizar. Há iainda uma faltade awareness da oferta que o Banco tem”, salienta Luís Guimarães. A mudança está a acontecer, mas “as linhas específicas de mobilidade sustentável continuam subaproveitadas”. Portagens e velocidade “Portugal foi pioneiro na mobilidade elétrica”, recorda com nostalgia João Jesus Caetano. “Fomos o primeiro país do mundo a ter umarede integrada e interoperável de âmbito nacional. Isto em 2009, 2010.” A crise económica travou esse ímpeto, mas o momento regressa. No transporte de mercadorias, João Jesus Caetano aponta desenvolvimentos promissores. “Existe a Milence, uma joint venture do grupo Volvo, do grupo Daimler e do grupo Volkswagen, com 500 milhões de euros de seed money para criar uma rede de pontos de carregamento, 1.700 pontos de carregamento na Europa”. Luís Guimarães vê o investimento industrial como motor de competências. “A vantagem de ter investimento em Portugal em tecnologia de alta gama é a capacitação dos portugueses para trabalhar nessas indústrias e melhorarem o seuportefólio de competências” Para as cidades, o presiclenter do IMT consideraqu “nãopodemos implementar o sistema de portagens sem ter uma rede de transportes públicos altamente capacitada para responder”, e salienta que a redução de velocidade nas cidades éfundamental para baixar os índices elevados de sinistralidade. Sobreos TVDE, quejá jásomam 40 mil veículos nacionais, João .Jesus Caetano considera que “ocupam um espaço que não é ocupado pelo transporte público”, colmatando falhas de um sistema ainda insuficiente. &6 Estamos a construir em Sines o maior projeto de hidrogénio verde em curso na Europa, um investimento decisivo para descarbonizar setores difíceis de eletrificar. ANA SILVEIRA Diretora de Relações Externas e Comunicação, Galp Temos equipamentos instalados há dois anos que não podem ser utilizados devido a bloqueios na rede e no licenciamento. SOFIA TENREIRO Presidente executiva, Siemens Portugal O futuro é elétrico. O que muda é a velocidade da transição, e cabe-nos acelerar essa transformação. MIGUEL CARDOSO Partner e Líder da EY Parthenon o debate “Roadmap para uma mobilidade mais sustentávef contou com a participação de Miguel Cardoso, Ana Silveira, e Sofia Tenreiro. A moderação esteve a cargo de Diana Ramos, diretora do Negócios. &. Temos uma linha de quase 300 milhões de euros para mobilidade sustentável que continua praticamente por utilizar, uma oportunidade que não pode ser desperdiçada. Luís GUIMARàES Chief Commercial officer, Banco Português de Fomento Não podemos implementar um sistema de portagens sem ter uma rede de transportes públicos capacitada para responder às necessidades das cidades. Joào JEsUS CAETANO Presidente, Instituto da Mobilidade e dos Transportes o painel “Política e Infraestrutura para a Mobilidade Sustentável” contou com a participação de João Jesus Caetano, e Luís Guimarães. A moderação foi de Paulo Moutinho, editor executivo do Negócios. FILIPE S. FERNANDES