CULTURAS - A COR DOS MUROS
2025-11-28 22:05:00

Projeto Portas da Esperança, da Santa sé, leva a arte e a poesia às prisões de Tires e de Leiria TEXTO MARIA JOÃO BOURBON uando as portas estão abertas, a visão do espaço muda. Em perspetiva, um corredor de celas de uma ala de uma prisão tornase mais do que isso ,, é sonho, é desejo, é esperança (ou não fosse a palavra perspetiva sinónima de esperança ). Uma gradação de cores pastel (que vai, do lado esquerdo, do rosa muito claro ao roxo-azulado e, à direita, do verde ao azul), e uma sequência de palavras (tempo, silêncio, coração, resistência, utopia, entre outras), leva-nos, de porta em porta, a uma frase retirada de um poema de Alberto Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa: “O que eu quero é um sol mais sol que o sol.” Por baixo, uma parede feita de tijolo de vidro, que deixa entrar a luminosidade sem permitir ver o exterior. O espaço descrito, a partir de uma fotografia enviada ao Expresso e de uma conversa com a artista Fernanda Fragateiro, é a casa das mães do estabelecimento prisional de Tires, uma ala destinada a mulheres grávidas e com filhos até aos 3 anos. A intervenção “Eu Quero Um Sol Mais Sol Que O Sol” foi realizada, em residência artística, pela escultora portuguesa em colaboração com as mulheres que aí estão detidas, no âmbito do projeto As Portas que a Poesia Abriu, que inclui ainda um projeto na prisão-escola de Leiria (com jovens reclusos e o artista Ilídio Candja Candja). Ambas estão integradas no movimento artístico internacional do Dicastério para a Cultura e a Educação da Santa sé, do qual é prefeito o cardeal Tolentino Mendonça, intitulado As Portas da Esperança , Jubileu 2025, que tem, em Portugal, o grupo de construção civil DST como mecenas e curador (através da sua galeria de arte, ZET) e o Ministério da Justiça, através da Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais, como parceiros, além da Fundação Jornada Mundial da Juventude. A intervenção na ala das celas na casa das mães é, para Fernanda Fragateiro, O projeto mais importante” da residência artística de Tires, porque resultou “de um desejo grande” daquelas mulheres. Numa das primeiras conversas, algumas manifestaram vontade de pintar as portas cinzentas e ferrugentas. 4e horrível quando aquela porta se fecha”, diziam. A artista não tinha previsto pintálas, pintar 20 portas ferrugentas era uma tarefa gigante”. “Mas O desejo do grupo foi tão grande que decidimos fazê-lo.” O ponto de partida para a residência de Tires, que envolveu uma dúzia de mulheres durante seis semanas, foi um convite da curadora da galeria ZET, Helena Mendes Pereira, e uma pergunta: como se cria espaço num espaço de clausura? “Ou seja, como se pode alterar um espaço difícil, torná-lo mais interessante, feliz, dinâmico, fazendo com que as pessoas se relacionem com ele de uma forma mais humana e de respeito”, contextualiza Fernanda Fragateiro, para quem “o espaço deve respeitar as pessoas”. “Ele devolve-nos e também suscita: se o espaço for mais amável, as pessoas também o SãO.” A artista - cuja obra assenta essencialmente na escultura e na instalação, desafiando as tensões e interseções entre escultura e arquitetura ,, tinha terminado uma intervenção no espaço do Liceu Camões, a convite do arquiteto João Pedro Falcão de Campos, quando este convite lhe chegou. “No Liceu Camões, funcionou a introdução de algumas manchas de cor. E, associada à cor, vinha a palavra. Isso era uma coisa que estava na minha cabeça e que podia funcionar.” Com a colaboração da brasileira Luiza Teixeira de Freitas, sua amiga e curadora, levou a Tires uma lista de 300 palavras, pedindo às mulheres para escolherem apenas dez. A partir dessas escolhas, a curadora brasileira selecionou e devolveu um excerto de um poema que as integrasse. Eram textos de autores como Adília Lopes, Natália Correia, Ruy Belo, Vinícius de Moraes, Matilde Campilho, Clarice Lispector, Tolentino Mendonça, entre muitos outros. “E foi-lhes pedido que, desses poemas, cada uma escolhesse uma frase, a pensar que seria escrita nas paredes e abriria um espaço semântico dentro do espaço arquitetónico”, explica. Foi assim que foram gravadas nas paredes frases como “Eu prefiro rir, porque o riso também é resistência” (Alexandre O Neill), “Saudade é o tempo a tentar voltar” (Manuel António Pina) ou “A alma é livre” (numa referência a A alma é livre mesmo quando o corpo não é", de Mario Quintana). Também O “Livro Ilegível” eo “Livro Cama , do artista italiano Bruno Munari, que trabalha os temas do design e da pedagogia, serviram de inspiração para criar uma peça que pudesse ser usada por mulheres, visitas e, sobretudo, pelas crianças. Foram assim que surgiram as almofadas, pensadas e planeadas na casa das mães, mas concretizadas pela oficina de costura da prisão. E que, no contexto deste projeto, as mães se começaram a apropriar do espaço, pintando as celas ou criando pequenos recantos, com os restos de cartolinas que guardavame colavam nas paredes. MENOS MUROS, MAIS LIBERDADE Mais de 150 quilómetros a norte, no Estabelecimento Prisional de Leiria (Jovens), o moçambicano Ilídio Candja Candja esteve em residência artística entre 15 e 30 de setembro, trabalhando com cerca de 15 jovens (número que foi diminuindo ao longo do tempo, por decisões e constrangimentos vários). Também ele nunca tinha posto os pés numa prisão, nem num contexto tão condicionado. “Existem várias limitações”, conta ao Expresso. “Não podíamos entrar com materiais aguçados, os horários eram limitados, o material...” Neste contexto, não se pintaram portas, mas muros. Ou melhor, um muro de 22 metros no interior da prisão, entre a escola e o edifício da saúde, que pertence ao último. A decisão de pintá-lo partiu dos próprios jovens, cujo desejo foi transmitido à curadora da galeria ZET e ao artista moçambicano cuja produção cruza desenho, pintura, colagem, instalação, cores vibrantes e temas como a tropicalidade, a viagem e a resistência. E O resultado foi um muro colaborativo. Também aqui o ponto de partida foram as palavras. O projeto arrancou com desenhos individuais a partir de uma frase ou palavra, entre as quais se destacou uma: justiça. Os jovens exploraram técnicas, temáticas, começaram a dar forma às palavras e, a partir daí, selecionaram, em conjunto com o artista, as predominantes. “Chegámos a um consenso e foram tiradas partes de imagens para o mural, que fomos construindo em conjunto”, detalha. Pintaram juntos, Ilídio ajudou-os a manusear os materiais, a sombrear, a realçar imagens A dada altura, decidiram “trabalhar a inclusão”. Todos pensaram numa imagem que poderiam associar a esta palavra e o resultado foi um cérebro matemático, com números OS mesmos que OS identificam dentro da prisão. Assim nasceram “Inclusão: Menos Muros, Mais Liberdade” e “Pelo Sonho e Que Vamos”, obra móvel que resulta dos desenhos que servem de esboço para o mural que a curadora Helena Mendes Pereira quer que seja doada a uma universidade portuguesa ,, à semelhança do que a ZET e a DST fizeram, em 2018, com a obra da residência com O artista Ricardo Campos, realizada na prisão de Braga, doada à Universidade do Minho. “Em Leiria, não criámos portas, mas transformámos um muro, simbolizando o dia em que a vida destes jovens voltará a ter dias sem muros”, escreve a curadora no catálogo que será divulgado esta sexta-feira, ôno dia da apresentação das obras. Um projeto que, nas palavras de Ilídio Candja Candja, conseguiu “derrubar muros, tanto da sua parte como dos jovens de preconceito, de xenofobia...” e trazer um vislumbre de liberdade. Ao contrário do que acontece com a implementação das Portas da Esperança em Itália, Helena Mendes Pereira não condicionou o resultado. Enquanto “em Itália se fazem portas artísticas, que são obras de arte que se instalam nas cadeias, normalmente no interior”, a intuição da curadora dizia-lhe para não ir por esse caminho. “Como O cardeal Tolentino Mendonça nos deu liberdade, disse-lhe que nos interessava O modelo de residência artística colocar OS artistas a trabalhar com as pessoas reclusas no interior da prisão. Por isso, eu não falei em portas aos artistas”, para lhes dar mais liberdade de pensar em obras que fizessem sentido para aquelas pessoas e estabelecimentos. Foi na 60a edição da Bienal de Veneza, no ano passado, que se estreitaram laços entre Tolentino Mendonça e José Teixeira, presidente do grupo DST, convidado pelo cardeal para visitar nessa altura O “pavilhão” da Santa Sé. Intitulado “Com OS Meus Olhos” e localizado na prisão feminina da ilha da Giudecca, foi um gesto de “pedagogia da esperança”, no qual “a arte contemporânea saía dos circuitos habituais para uma missão de resgate da consciência social em relação a um lugar demasiadas vezes ignorado”, escreve O comissário, o cardeal Tolentino Mendonça. num texto que integra o catálogo das residências artísticas portuguesas. Esse encontro serviu de mote para outro, onde o convite para a DST concretizar O projeto Portas da Esperança em Portugal seria feito pelo cardeal e poeta. A DST ,, que já tinha participado noutras intervenções em contexto prisional assume, segundo o seu presidente, um dever kantiano” e uma missão social apoiada na arte e na cultura. “Está demonstrado pela neurociência que a poesia, a literatura, a música e a arte ativam OS mesmos neurotransmissores que O sexo, O álcool e a droga. E o que nós queremos é levar a poesia e a literatura como um fármaco, a possibilidade de uma nesga de esperança e de, recorrendo a um verso de Herberto Helder, tudo poder ser outra coisa .” mjbourbon@ impresa.p .pb “Em Leiria, não criámos portas, mas transformámos um muro, simbolizando o dia em que a vida destes jovens voltará a ter dias sem muros” HELENA MENDES PEREIRA DIRE TORA-GERAI E CURADORA DA GALERIA ZET O mural “Inclusão: Menos Muros, Mais Liberdade”, com Ilídio Candja Candja e os sjovens da prisãoescola da Tires (foto maior). A intervenção “Eu Quero Um Sol Mais Sol Que O Sol”, da artista Fernanda Fragateiro em colaboração com as reclusas da casa das mães da prisão de Tires MARIA JOÃO BOURBON