EDITORIAL - MEDIDA ERRADA NA HORA ERRADA
2025-12-05 22:08:58

A Europa está numa encruzilhada. Não só mas também na mobilidade automóvel, enfrentando neste caso a difícil decisão de manter o rumo definido para chegar o mais rapidamente possível ao desejável destino final da descarbonização ou então aceder às pressões de boa parte de uma indústria considerada o “motor” da economia continental, representando 7% do emprego na União Europeia e gerando um volume de negócios que contribui com a mesma percentagem para o PIB comunitário. Apesar de contrariados pelos vizinhos França e Espanha , que pediram formalmente à Comissão Europeia para não ceder às exigências e manter 2035 como data para o fim da venda de carros novos a combustão ,, países como a Alemanha e a Itália apoiam os grupos automóveis nacionais que agora já não hesitam em ameaçar que as metas para as emissões não serão cumpridas, face ao ritmo atual de crescimento dos veículos elétricos. Pedindo antes “uma abordagem mais realista” de modo a apoiar “uma transição para a mobilidade zero-emissões mais competitiva e mais orientada para o consumidor”. Ou seja, sugerindo (fortemente) a flexibilização das regras europeias a partir de 2035, para que possam vender então, não apenas automóveis 100% elétricos, mas também híbridos plug-in, elétricos com extensor de autonomia alimentado a gasolina, soluções e-Fuels , etc E há mesmo quem conteste o que está previsto exigindo pura e simplesmente o levantamento da interdição na venda de carros equipados com motores de combustão. Se aumentam agora os receios de que a esperada revisão antecipada do calendário para as emissões automóveis possa ceder além do razoável a essas pressões, o momento atual é de ainda maior inquietação por começarem a surgir outros sinais institucionais (e não apenas as habituais opiniões e teorias contrárias) de uma certa tendência desfavorável à mobilidade elétrica. Depois do fim nalguns mercados europeus dos incentivos estatais à aquisição de veículos elétricos , medida desde logo preocupante por ser claramente extemporânea, com o mercado dos BEV ainda tão recente e sabendo-se que nenhum país conseguiu atingir a adoção massiva desta nova tecnologia sem um sustentado apoio governamental ,, o mais recente exemplo dessa tendência chega-nos do Reino Unido: de acordo com a imprensa local, o governo britânico estará a considerar seriamente a introdução de uma possível taxa a aplicar aos carros 100% elétricos baseada no número de quilómetros (ou milhas, no caso concreto) percorridos , quantos mais km fazem, mais pagam. O argumento por detrás desta ideia é ainda “melhor”: como num elétrico não é possível ao Estado cobrar os impostos sobre os combustíveis pagos pela utilização de um automóvel a gasolina ou a gasóleo, esta será a solução para fazer equivaler os diferentes tipos de motorização. Numa altura em que se repetem os avisos de que a adoção dos veículos elétricos não está a acontecer tão depressa quanto o previsto e desejável, recorrendo-se a essa suposta realidade para tentar adiar ao máximo a transição energética, este só pode ser considerado como um novo e flagrante exemplo do conceito de “medida errada na hora errada”