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MOTORES - DO TAPETE DA SALA PARA A ESTRADA: QUANDO OS SONHOS DE NATAL SE TORNAM REALIDADE

Saber Madeira

2025-12-08 22:07:31

DR Hoje deu-me uma nostalgia e, em vez de estar a testar um novo carro duma qualquer marca automóvel, fiquei sentado a recordar a minha/nossa infância e os brinquedos que tanto desejavamos que fossem deixados no sapatinho pelo velho barbudo a quem chamámos carinhosamente de Pai Natal. E, por entre o cheiro a rabanadas e o barulho dos papéis de embrulho rasgados, há uma memória partilhada por muitos de nós e que mais não era que a silhueta inconfundível de uma caixa rectangular. Lá dentro, não estava apenas plástico e metal, mas estava a nossa primeira possibilidade de condução à nossa medida, uma aula de condução que era apenas válida para o tapete da sala de estar e onde nunca haviam feridos. Neste Natal, enquanto olhamos para as chaves do nosso automóvel em cima da consola da entrada, é impossível não sorrir com a ironia. Hoje preocupamo-nos com a autonomia, o IUC ou a inspecção periódica. Mas houve um tempo em que a única manutenção necessária era trocar duas ou quatro pilhas AA e limpar o pó das escovas de um carro de pista. A paixão pelos motores, para a grande maioria, não nasceu numa bancada de Fórmula 1 nem num stand de luxo. Nasceu na manhã de 25 de Dezembro. Quem cresceu nas décadas de 80 e 90 sabe que o estatuto social no recreio se media em escalas de 1:64 (os pequenos Majorette ou Matchbox) ou, para os mais afortunados, na posse de um Scalextric. Lembra-se do cheiro? Aquele odor eléctrico e ligeiramente queimado quando os carros corriam demasiado tempo na pista de plástico preto montada à pressa na sala? Era o cheiro da velocidade. Naquelas pistas, conduzíamos os carros que os nossos pais sonhavam ter. O Porsche 911, o Lancia Delta Integrale ou o Ferrari F40 , o carro que, muito provavelmente, também estava num póster na parede do quarto. E depois, havia os telecomandados. Marcas como a Nikko eram o auge da tecnologia para uma criança de 10 anos. Tinham alavancas físicas e, o mais importante, muitas vezes traziam um botão mágico que dizia "Turbo". Carregar ali dava-nos, por breves segundos, uma sensação de poder absoluto. Hoje, os nossos carros modernos têm modos "Sport" ou "Boost", mas, sejamos honestos: nenhum nos dá a mesma adrenalina pura daquele botão vermelho de plástico. O fascinante neste Natal de 2025 é perceber que a indústria automóvel sabe exatamente quem nós somos. Nada mais que aquelas crianças que cresceram. Não é por acaso que as estradas de hoje estão a ser povoadas pelos fantasmas dos nossos Natais passados. O design automóvel vive uma era de ouro da nostalgia. Veja-se o regresso do icónico Renault 5, agora 100% elétrico. Para muitos, o R5 não é "o novo citadino elétrico", mas é o "Super 5" que o tio tinha, ou a miniatura amarela que se perdeu debaixo do sofá em 1994. O novo Land Rover Defender pode ser um portento tecnológico cheio de ecrãs tácteis, mas a sua alma quadrada remete-nos para os jipes de brincar indestrutíveis que levávamos para a terra e lama do jardim. O mercado percebeu que, ao comprarmos um carro hoje, não estamos apenas a comprar transporte. Estamos a comprar um bilhete de regresso àquela manhã de Natal, mas com ar condicionado e estofos em pele. Nesta consoada, talvez ofereça um carro a uma criança. Talvez seja um videojogo hiper-realista em vez de uma pista de fendas, ou um drone em vez de um carro telecomandado. A tecnologia mudou, mas o brilho nos olhos é o mesmo. E para nós, os "graúdos"? Quando nos sentarmos ao volante para a viagem de regresso a casa, depois das festas, vale a pena lembrar que aquele pedaço de engenharia de tonelada e meia que conduzimos começou com um sonho pequeno. Afinal, a diferença entre os brinquedos de ontem e os carros de hoje é apenas o preço... e o tamanho das pilhas. De resto, é sempre conduzir em segurança e se lembrar que o melhor presente, afinal de contas, é mesmo estar presente! Boas Fes- tas e boas curvas. s NÉLIO OLIM