PENSAR - REBELDE SEM CAUSA
2025-12-11 06:30:05

“Aos seus 25 anos, o novo século continua a ser um rebelde sem causa.” ” Assim termina o capítulo I do livro O Divórcio das Nações, do embaixador João Vale de Almeida. Aqui pré-publicamos parte desse capítulo, numa análise de como colapsou uma ordem mundial e vai surgindo uma outra no meio do caos. A visão de um diplomata com mais de 40 anos de carreira internacional A A Natureza e o ritmo dos acontecimentos têm sido surpreendentes. Quantas vezes em anos recentes dissemos para nós mesmos: nunca esperei uma coisa destas! E quantas vezes não acabámos por concluir: já não podemos confiar em nada! Um por um, gradualmente, foram sendo minados vários consensos sobre como as nações devem relacionar-se, e sobre como devem interagir governos e cidadãos. Desde o início deste século, vimos testemunhando um processo de contínua desconstrução de convenções que haviam sido estabelecidas nos anos de 1990, no rescaldo do fim da Guerra Fria. Estão a ser postos em causa, até, elementos de organização da governança global concertados ôno período imediato à Segunda Guerra Mundial: os princípios, valores e instrumentos operacionais das instituições multilaterais, o papel decisivo das Nações Unidas e respetivo Conselho de Segurança e o sistema que supervisionam, bem como a intocabilidade do direito internacional e da integridade territorial dos Estados. Alguns desses consensos seriam talvez mais “consensuais” do que outros, mas todos refletiam o fortalecimento de padrões de comportamento que contribuíram em maior ou menor grau para um período de relativa paz e crescente prosperidade, em nada comparável com a primeira e sangrenta metade do século xx. Quer a apelidemos de pax americana ou prefiramos considerá,la como a evolução de um mundo bipolar para unipolar, a verdade é que a ordem do pós-Segunda Guerra Mundial, consolidada pela queda do Muro de Berlim e da União Soviética, foi bem melhor para a Humanidade do que qualquer alternativa possível. Não perfeita, mas indubitavelmente melhor. E aqui está algo que não deveríamos esquecer nestes tempos de dúvida. As mais óbvias vítimas desta erosão têm sido os padrões de comportamento entre grandes protagonistas estabelecidos depois do fim da Guerra Fria. Alguns desses padrões estavam codificados e outros não, num tempo que todos julgávamos ser o começo de uma nova era, uma era de segurança, prosperidade e democracia, após a queda da União Soviética. As expectativas mais idealistas, inicialmente articuladas por Francis Fukuyama, de que o sistema padrão para a Humanidade seria uma ordem internacional sólida e consensual assente em regras e combinada com um modelo incontestado de democracias liberais representativas, desvaneceram,se. Já quase esquecemos como ônos entusiasmámos com a queda do Muro de Berlim e o advento da democracia nos países da Cortina de Ferro, ou, mais recentemente, com O Acordo de Paris sobre alterações climáticas e a Agenda 2030, que proporcionaram esperançosas plataformas de cooperação com vista à concretização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e à solução dos problemas globais mais instantes. O acordo internacional para evitar que O Irão adquirisse capacidade nuclear bélica , O Plano de Ação Conjunto e Abrangente (PACA)2 de 2015 assumiu também particular relevância, já que foi um raro exemplo de estreita e eficaz cooperação entre as potências ocidentais, por um lado, e a China e a Rússia, por outro, em nome da prevenção da proliferação nuclear. O sereno e mútuo respeito geopolítico de normas e convenções , e do direito internacional em geral permitiu que o livre comércio e a inovação tecnológica gerassem uma nova classe média global, e que o nosso planeta se “estreitasse” e “aplanasse”. Numa citação livre de Winston Churchill, nunca o mundo mudara tanto para melhor em tão curto período de tempo, com efeitos positivos para um tão largo segmento da Humanidade. E, no entanto, hoje, infelizmente, as condições que possibilitaram que tal acontecesse , chame-se-lhe ordem liberal internacional, se assim se quiser , estão sob forte ameaça. Os seus adversários , e aqueles que consideravam que aquela ordem não fora concebida por eles, nem para eles , abandonaram a reserva inicial e a aceitação tácita, e não mais hesitaram em criticá-la, sentindo-se até suficientemente fortes para a repudiar. Mais preocupante ainda é o fac-to de alguns dos seus signatários iniciais parecerem tentados a desrespeitá-la. Assistimos hoje à dramática contestação de uma ordem mundial que em tempos considerámos garantida. O POSICIONAMENTO DA RUSSIA E DA CHINA Hoje, as tendências positivas da governança global estão em risco de reversão (seja na ação climática ou õnos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) ou a serem já revertidas (a proliferação nuclear é de novo uma ameaça real, e a democracia e o respeito pelos direitos humanos estão em recuo), e as tendências negativas recuperaram força (a violação da integridade territorial, a reivindicação de zonas de influência, e o surto de autoritarismo, para não mencionar a ascensão mundial do populismo e do nacionalismo). A invasão da Ucrânia, em 2022, e a guerra subsequente ocorreram após idênticas violações desses consensos por parte da Rússia em outras partes do país (ocupação da Crimeia em 2014), e antes disso na Geórgia, em 2008. Um membro permanente do Conselho de Segurança da ONU tem vindo, assim, a violar ativa e abertamente a letra e o espírito da Carta das Nações Unidas, com o propósito declarado de apagar do mapa outro membro da mesma ONU. Algo de impensável ainda há poucos anos. A China passou de um processo de gradual e notável mudança económica, combinada com discrição e paciência estratégica, para um discurso musculado que deixa entender o desejo de modificar os ditames da atual ordem, com o objetivo de conquistar liderança global. Desde o “esconder a nossa força e dar tempo ao tempo” de Deng Xiaoping ao “ousar lutar” de Xi Jinping vai todo um mar de diferença. A propósito de mar, o do sul da China regressou às primeiras páginas. Tendo em conta as crescentes desenvoltura e assertividade chinesas, este bem poderá vir a ser o teatro de uma escalada na rivalidade entre grandes potências, que agora domina a narrativa política em Washington e Pequim, com enorme impacto na segurança e na prosperidade globais. A Rússia tem como objetivo criar uma zona de influência e ditar as regras do jogo na sua vizinhança próxima, sem que tenha alguma visão sofisticada de uma ordem mundial alternativa, para além da proteção de um conceito estrito de soberania nacional e da obsessão de reduzir a influência dos EUA e do Ocidente. O projeto de poder da China não é de natureza colonial ou territorial (com exceção da questão de Taiwan), mas fundamentalmente de contestação da hegemonia americana e dos valores universais por detrás da ordem internacional que a ONU tem defendido. E foi isso que transformou esses dois “aminimigos” em aliados táticos. OCIDENTE PARALISADO Para reforçar a sua credibilidade e combater mais eficazmente esta ofensiva revisionista, o chamado “Ocidente” bem poderia dar provas de alguma autocrítica retrospetiva. As intervenções individuais ou coletivas de países ocidentais, não inteiramente ao abrigo do direito internacional, quer õno Iraque e no Afeganistão quer no Kosovo ou na Líbia , por mais justificáveis ou indispensáveis que possam ter sido consideradas, a fim de salvaguardar o sofrimento humano ou proteger a segurança nacional , tiveram um impacto negativo na forma como outros julgam a nossa fidelidade e a nossa coerência com os princípios e valores que perfilhamos. Em contraste com a inação em outros cenários de crise, algumas das nossas intervenções externas minaram a perceção da nossa liderança moral e debilitaram a capacidade do Ocidente de influenciar e persuadir, e, em última análise, de voltar a intervir quando for necessário. Alguns críticos do Ocidente apressaram-se a concluir que um certo grau de húbris após a queda do comunismo poderá ter toldado o nosso entendimento. e uma acusação exagerada, mas a triste realidade é que estamos hoje menos disponíveis e menos capazes para acorrer em auxílio de quem precise ou para confrontar os que oprimem outros, já que tantas vezes o nosso passado vem assombrar-nos. Na nossa frente de leste, tendo em mente que nada poderá alguma vez justificar as ações de Putin, que deve ser por elas plenamente responsabilizado, e que o Onosso foco deve continuar a ser a garantia da soberania e da integridade da Ucrânia, deveríamos perguntar-nos, retrospetivamente, quando o contexto for mais adequado, se acaso esgotámos todas as oportunidades para evitar que a Rússia se afastasse irremediavelmente. Novos e velhos conflitos irromperam ou ressurgiram com singular grau de intensidade e violência Ono Médio Oriente e em regiões de àfrica, por exemplo, e a comunidade internacional parece hoje em grande medida incapaz, e por vezes até indisponível, para contribuir para a busca de soluções. A capacidade de prevenir e evitar conflitos é hoje gritantemente insuficiente. Vivemos numa era de incerteza e volatilidade, ao mesmo tempo que o nosso planeta é confrontado com mudanças existenciais que , mais do que nunca , exigem cooperação internacional. O divórcio chega no pior momento possível para o planeta Terra. Há quem possa pensar que estou demasiado obcecado com o “divórcio” por ter tido contacto direto com o traumático Brexit enquanto primeiro embaixador da União Europeia em Londres ou que talvez esteja a esquecer que, por vezes, o divórcio é a melhor solução para uma relação atribulada. A esses responderei que é exatamente por ter testemunhado como é possível abeirarmo-nos do precipício sem prevenir a queda que tanto me preocupam e que tanto desconfio de divórcios com consequências globais. Nas relações internacionais, o divórcio só serve para exacerbar tensões, e não para as aliviar, e o mais provável é que o divórcio abra terreno para um novo grau de acrimónia e talvez de confronto aberto. Não deveríamos correr esse risco. O PAPEL DA DESIGUALDADE A polarização e a fragmentação não se circunscrevem à geopolítica. Têm também consequências inevitáveis na economia. A viragem do século foi testemunha de um extraordinário aprofundamento da globalização e da emergência de avanços tecnológicos ímpares. O seu efeito combinado deu novo alento a centenas de milhões de pessoas , e esse êxito tremendo não pode ser subestimado. O problema é que a globalização e a tecnologia também atiraram milhões para o desespero e a perda de identidade. Abrimos a porta a novas classes médias, mas também criámos novos pobres. Foram demasiadas as regiões de países industrializa-dos em que não conseguimos gerar novos postos de trabalho para aqueles cujas aptidões tinham deixado de ser úteis por existirem outros, algures, que eram mais competitivos. Fomos abençoados com inovações tecnológicas de cortar o fôlego, e inventámos postos de trabalho nunca antes existentes, mas acabámos por constatar que a tecnologia e o capital de investimento a ela associado não criavam necessariamente novos postos de trabalho nos locais onde antes os tinham destruído. Lamentavelmente, e em sintonia com o pensamento económico dominante, os governos não fizeram o suficiente nem atuaram atempadamente para eliminar as fraturas onde elas surgiam. A riqueza global cresceu e o fosso entre o mundo de-senvolvido e o mundo em desenvolvimento diminuiu. Todavia, a disparidade de rendimentos também se acentuou em muitas partes do mundo e muitos culparam por isso o comércio ou as importações ou as potências estrangeiras, ou simplesmente “os ricos”. ê especialmente relevante, na nossa era de informação, o facto de a desigualdade se ter tornado muito mais visível. Já não é possível esconder níveis de desigualdade gritantes ou o respetivo efeito sobre os cidadãos menos privilegiados, que sentem ainda mais terem sido deixados para trás. E isso reflete-se na perceção pública dos mercados e das fronteiras abertas. A assimetria demográfica entre norte e sul deu origem a crescentes tensões migratórias, mas é unânime que as iniciativas internacionais para lidar com elas foram vãs. As migrações são necessárias e justificáveis de um ponto de vista humano e económico, mas extremamente difíceis de gerir politicamente. Se não for adequadamente acompanhado, o fenómeno migratório pode ter consequências negativas tanto para os países de destino como para os de origem, e obviamente também para as populações implicadas. No terreno económico, conseguimos enormes progressos na eficiência das cadeias de abastecimento e na produtividade, mas algumas nações ocidentais permitiram que a dependência externa atingisse níveis perigosos, ao ponto de o comércio começar a ser visto como ameaça à segurança nacional. O protecionismo, o fecho de fronteiras, o localismo, o onshoring, o reshoring, o friendshoring e outros conceitos velhos e onovos permearam as políticas e o léxico político. A “segurança económica” tornou-se elemento intrínseco da “segurança”. ê ainda controverso se ela trará mais riqueza e menos desigualdade do que aquilo que pretende substituir, mas estamos indubitavelmente perante o “prato do dia”. «ê A POLiTICA, ESTuPIDO!” O efeito combinado de todos estes desenvolvimentos é claro: a globalização enquanto modelo económico perdeu a batalha da reputação e carece de novo lustro , a oposição pública começou de facto a manifestar-se já em 1999 com os protestos nas ruas de Seattle, à margem de uma reunião de ministros da Organização Mundial do Comércio (OMC), como as pessoas da minha geração recordarão. Em termos políticos, esperava-se que o comércio, os mercados abertos e a tecnologia aumentassem a interdependência económica, e que a emergência de uma nova classe média mundial alterasse o paradigma das relações entre nações, sobretudo entre os antigos e novos moradores do “bairro global”. Lamentavelmente, quando hoje assistimos ao regresso de velhos reflexos e “instintos básicos” às relações internacionais, quando presenciamos uma guerra de narrativas e uma competição acrescida entre sistemas de valores e modelos de governança nacional e global, não podemos deixar de reconhecer a ingenuidade de tais expectativas. Hoje, a geopolítica sobrepõe-se à geoeconomia. Desta vez, “ê a política, estúpido!” Acresce um fator crítico tantas vezes subestimado: a cultura. Não no sentido restrito do termo, mas em sentido mais lato, abrangendo conceitos como civilização, identidade e outros. A política e a economia não bastam para compreender o contexto deste século. Alargou-se o fosso no que respeita a valores e crenças. A rápida evolução dos conceitos de família, género e etnicidade é libertadora, mas também fonte de ansiedade. E há câmaras de eco a exacerbar preocupações e animosidade e a insuflar reflexos tribais A tolerância torna-se um bem raro no espaço público, alastra-se o diálogo de surdos, e o mesmo se pode dizer da violência com motivações políticas “o mundo que eu conheci está a desaparecer”, lamentam muitos cidadãos, mas o reflexo instintivo mais frequente não é de tentar compreender e ajustar-se à mudança, mas sim de a rejeitar e de se fechar sobre si próprio. E de tudo isso se aproveitam as forças políticas radicais. O primeiro quartel narra,nos um conto eloquente sobre o fim do “fim da História”. Temos de tomar consciência dele se quisermos relançar o século XXI. IV visao@visao.pt Já quase esquecemos como nos entusiasmámos com a queda do Muro de Berlim e0 advento da democracia nos países da Cortina de Ferro, ou, mais recentemente, com o Acordo de Paris sobre alterações climáticas e a Agenda 2030 A China passou de um processo de gradual e notável mudança económica, combinada com discrição e paciência estratégica, para um discurso musculado que deixa entender o desejo de modificar os ditames da atual ordem, com o objetivo de conquistar liderança global LIVRO Lançado no mês passado, O Divórcio das Nações (Dom Quixote, 344 págs., EUR19,90) traz-nos as memórias e as reflexões do embaixador sobre os primeiros 25 anos do século XXI. Todo o contexto internacional para se perceber como chegámos a este tempo de tanta incerteza e da queda de uma ordem mundial que conhecíamos. Nova desordem mundial A Rússia e a China, dois "aminimigos”, transformados em aliados táticos contra OS EUA A “segurança económica” tornou-se elemento intrínseco da “segurança”. e ainda controverso se ela trará mais riqueza e menos desigualdade do que aquilo que pretende substituir, mas estamos indubitavelmente perante o “prato do dia” v Nos palcos mundiais Enquanto embaixador da União Europeia, João Vale de Almeida posicionou-se contra o Brexit. Fotografias com líderes como António Guterres, Hillary Clinton e Donald Tusk O problema é que a globalização e a tecnologia também atiraram milhões para o desespero e a perda de identidade. Abrimos a porta a novas classes médias, mas também criámos novos pobres JOÃO VALE DE ALMEIDA