JOSÉ TEIXEIRA: DEIXEM OS TRABALHADORES EM PAZ”
2025-12-12 06:00:06

José Teixeira Presidente do grupo DST “Na DST temos uma espécie de capitalismo popular” Foto Nuno Fox AO longo dos anos a engenharia, a arquitetura e as artes evoluíram muito, mas a indústria de construção ficou parada no tempo. “Estamos a fazer a construção como sempre fizemos, nos estaleiros das cidades, com os materiais de sempre.” Mas por pouco tempo mais: a construção modular industrial vai representar uma mudança de paradigma e revolucionar o mercado e as cidades, antecipa José Teixeira, líder do grupo DST, hoje um dos maiores conglomerados nacionais, que lidera a agenda mobilizadora nesta área. De passagem pela Liga dos õnovadores, José Teixeira acredita que estará para breve o fim da era do tijolo e do estaleiro permanente e o início de um modelo fabril, sistematizado rápido e mais sustentável. "ê imaginar-se numa fábrica de automóveis em Palmela”, na Autoeuropa, onde os trabalhadores estão num ponto da linha de produção eoS carros vêm ter com eles para meterem o pneu, o volante, os travões. Na construção industrial o processo é semelhante: produzem-se paredes, pisos, tetos, quartos, cozinhas, casas de banho, em fábrica, juntando depois as peças no local de destino. Além do processo, mudam os materiais: mais madeira, aço e vidro; menos tijolo e argamassa o tijolo “entra em crise”. Muda também o tempo de obra, que se reduz de um ano para cerca de um mês; reduzem-se os custos ambientais, com menos ruído, pó e trânsito; e reduz-se o preço, já havendo casas industriais a chegar ao mercado abaixo do valor das soluções convencionais, garante José Teixeira. Muda ainda o mercado de trabalho: com o fim de andaimes, trabalho pesado e em altura, abre-se a porta a mais mulheres num sector tipicamente masculino, e hoje em dia, 30% dos trabalhadores das fábricas DST já são mulheres. Em cima disto, há uma pedra de toque muito cara a José Teixeira, e, “isto, sim, é qualquer coisa de disruptiva”: a importância de “levar beleza para tudo o que fazemos”. Porque “a arquitetura não pode acrescentar pobreza à pobreza”, a DST chamou Siza Vieira, Souto Moura, Aires Mateus, Norman Foster e até Vhils, que está a assinar três mil casas de banho com azulejos. A escolha é política: combater a fealdade que “atrai fealdade”, oferecer dignidade a custos controlados e evitar bairros homogéneos onde apenas vivem pobres ou imigrantes. “o classismo destrói a cidade, destrói a comunidade, a relação com os outros. As cidades estão carregadas de muros no Martim Moniz, no Benformoso”, e José Teixeira quer que o papel social da arquitetura entre em ação. o início conta sempre” A conversa com José Teixeira arranca com uma recolha de cânticos feita por Michel Giacometti junto de operários numa pedreira de Póvoa de Lanhoso, e a escolha foi simbólica. A DST COmeçou como uma empresa familiar, fundada por Domingos Silva Teixeira, pai de José, e este é “exatamente o nosso início. E o início conta sempre”, diz-nos José Teixeira. ê importante para “perceber os sapatos dos outros”, e para se perceber o ponto onde cada um está. Da pequena indústria a um grupo empresarial com cerca de 30 empresas (com participações maioritárias e minoritárias), mais de 2 mil trabalha-DRATRPCEEE OUçA A A ENTREVISTA NA INTEGRA NO PODCAST “LIGA DOS INOVADORES EM EXPRESSOPT/PODCAS dores, com uma faturação de EUR700 milhões e um EBITDA (resultado antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) de EUR80 milhões, José Teixeira enquadra esta ascensão como “uma etapa do caminho”. E ao longo da etapa a cultura empresarial ea política de gestão contam, e muito. Vai citando O Papa Francisco, Herberto Helder, Thomas Kuhn, John Rawls, Alberto Caeiro, para falar de justiça, comunidade, humanismo; do papel das empresas (muito para lá de serem máquinas de faturação); e dos trabalhadores (muito para lá de máquinas obedientes). “Orgulham-me os resultados, mas há uma coisa que os empresários esquecem: temos um contrato com o Estado, pagamos impostos; temos um contrato com os trabalhadores, e pagamos salários; mas temos um contrato além desse, que é o contrato social, com a polis”, porque a riqueza é coproduzida. Além de apostar na formação profissional e cultural dos funcionários, com aulas de filosofia e momentos de leitura a intercalar o tempo de trabalho, no grupo DST “compensamos e pagamos os resultados da inovação dos nossos trabalhadores. Não ficamos com tudo para nós”. Fazem-no distribuindo 20% dos benefícios fiscais que recebem do Estado do Sistema de Incentivos Fiscais à Investigação e Desenvolvimento Empresarial (SIFIDE), e também dividendos nas empresas participadas pelos trabalhadores. “ê uma espécie de capitalismo popular. Temos muitos trabalhadores que são nossos sócios, e nessas empresas distribuímos dividendos”, diz José Teixeira. Nas outras, não: “Vivemos dos salários e investimos o que ganhamos para criar mais fábricas, criar mais indústria, melhorar salários e por aí fora”. Para José Teixeira, esta filosofia “é absolutamente importante, porque se formos bulímicos, se quisermos só as coisas para nós, os trabalhadores não vão trabalhar, os trabalhadores obedecerão”. Tal como é fundamental abolir classismo dentro da empresa: “Não há produtividade sem um espírito social comunitário na empresa. Temos de investir num projeto que não seja a da meritocracia em si, onde os trabalhadores competem uns contra os outros e atropelam.” emiranda@expresso.impresa.pt “Deixem OS trabalhadores em paz” Legislação laboral não atormenta os empresários, para quem o Governo está a criar uma tempestade desnecessária Não havia necessidade. As alterações ao Código do Trabalho que O Governo quer promover e que esta quinta-feira culminaram numa greve geral “não fazem sentido nenhum”. Não é um tema que preocupe os empresários, à exceção de “meia dúzia de empresários” mais “conservadores”. A opinião é de José Teixeira, líder da DST, um grupo do Norte que se tem distinguido pelas práticas de gestão e pela promoção da cultura e da formação dos trabalhadores. O Governo vem argumentando que os protestos em torno do novo pacote laboral e a greve geral promovida pela UGT e a CGTP são “extemporâneos” e José Teixeira, empresário que dirige um grupo com mais de dois mil trabalhadores, usa a mesma expressão, mas invertendo algo: “extemporâneo” e “fora de contexto” é o debate em torno da necessidade de alterações ao Código do Trabalho. E diz que está a criar-se uma batalha desnecessária e sem qualquer sentido, dando dois exemplos: “Por haver um incumprimento mínimo na amamentação, cria-se uma regra para todos?” Outro exemplo: “Contratos a prazo por mais anos? Isso não é preciso para nada.” O empresário sugere que se leia o relatório de Mario Draghi sobre a falta de competitividade da Europa: “Ouviu Draghi dizer que o problema da competitividade, o problema da produtividade, tem a ver com a relação laboral nos países? o que existe são alguns empresários muito conservadores, muito egoístas, que influenciaram” o poder político. A CIP Confederação Empresarial de Portugal tem sido apontada como uma das artífices da proposta de revisão laboral no centro da polémica, mas José Teixeira garante que, “se houvesse uma recolha de opiniões pelos empresários, se isso não fosse eventualmente decidido na cúpula, acho que isto não avançava, porque os meus colegas dizem-me todos a mesma coisa”. E a mesma coisa é que “isto é extemporâneo nesta altura, está fora de contexto. Não faz sentido nenhum discutir isto; deixem os trabalhadores em paz”. Outro tema banal que entrou no debate público foi o6 da criação de um tutor de inteligência artificial (IA) em todas as escolas, anunciado pelo Governo na Web Summit. “Porque é que não colocam um tutor para a leitura? Um tutor para a leitura no ensino básico era de um efeito muito mais produtivo daqui a uns anos do que uma coisa que passa de moda daqui a dois anos. Não precisamos de tutores de IA nenhuns, precisamos de tutores para a leitura.” Licenciamento, o grande problema Outro tema que faz sentido discutir com urgência são os custos de contexto, considera. “As barreiras que temos, os licenciamentos, a demora nos licenciamentos que temos, isso é que precisamos resolver.” Há duas semanas deram entrada dois pedidos de autorização legislativa um pacote de benefícios fiscais aos senhorios e aos promotores imobiliários e um pacote de simplificação do licenciamento , e José Teixeira mostra-se expectante, não só sobre o desfecho deste pacote como num outro, que estará em preparação, sobre a construção industrial. “Este ministro [da Habitação] está muito envolvido neste processo de simplificar os licenciamentos” e “a construção industrial traz essa vantagem também, que é a possibilidade de nós fazermos as certificações e atalharmos muito os prazos de licenciamento”. José Teixeira Presidente do grupo DST Nova lei laboral? “Deixem OS trabalhadores em paz” E10 CEO da DST diz que a revisão da lei laboral que o Governo pretende não faz sentido nenhum” E10 Compensamos e pagamos os resultados da inovação dos nossos trabalhadores, não ficamos com tudo para nós Se os empresários forem bulímicos, se quisermos tudo para nós, os trabalhadores não vão trabalhar, apenas obedecerão Temos muitos trabalhadores que são nossos sócios, e nessas empresas distribuímos dividendos. Nas outras, não, vivemos dos salários e investimos para criar mais fábricas, mais indústria, melhorar salários e por aí fora Por haver um incumprimento mínimo na amamentação, cria-se uma regra para todos? Contratos a prazo por mais anos? Isso não é preciso para nada Há alguns empresários muito conservadores, muito egoístas, que influenciaram [o poder político]. Se houvesse uma recolha de opiniões e não tivesse sido decidido na cúpula, acho que isto não avançava, porque os meus colegas dizem-me todos a mesma coisa: não faz sentido nenhum discutir isto Os custos de contexto, as barreiras que temos, a demora nos licenciamentos: isso é que precisamos de resolver Este ministro [da Habitação] está muito envolvido neste processo de simplificar os licenciamentos Tutores de inteligência artificial nas escolas? Não precisamos de tutores de IA nenhuns, precisamos é de tutores paraa leitura ELISABETE MIRANDA; PEDRO LIMA