NA DST TEMOS UMA ESPÉCIE DE CAPITALISMO POPULAR, TEMOS MUITOS TRABALHADORES QUE SÃO NOSSOS SÓCIOS
2025-12-12 08:34:05

José Teixeira, presidente do grupo DST, diz que “se os empresários forem bulímicos, se quisermos tudo para nós, os trabalhadores não vão trabalhar, apenas obedecerão”. As empresas do grupo onde os trabalhadores são sócios distribuem dividendos. “Nas outras, não, vivemos dos salários e investimos para criar mais fábricas, mais indústria, melhorar salários e por aí fora” Ao longo dos anos a engenharia, a arquitetura e as artes evoluíram muito, mas a indústria de construção ficou parada no tempo. “Estamos a fazer a construção como sempre fizemos, nos estaleiros das cidades, com os materiais de sempre.” Mas por pouco tempo mais: a construção modular industrial vai representar uma mudança de paradigma e revolucionar o mercado e as cidades, antecipa José Teixeira, líder do grupo DST, hoje um dos maiores conglomerados nacionais, que lidera a agenda mobilizadora nesta área. De passagem pela Liga dos Inovadores, José Teixeira acredita que estará para breve o fim da era do tijolo e do estaleiro permanente e o início de um modelo fabril, sistematizado, rápido e mais sustentável. “É imaginar-se numa fábrica de automóveis em Palmela”, na Autoeuropa, onde os trabalhadores estão num ponto da linha de produção e os carros vêm ter com eles para meterem o pneu, o volante, os travões. Na construção industrial o processo é semelhante: produzem-se paredes, pisos, tetos, quartos, cozinhas, casas de banho, em fábrica, juntando depois as peças no local de destino. Além do processo, mudam os materiais: mais madeira, aço e vidro; menos tijolo e argamassa - o tijolo “entra em crise”. Muda também o tempo de obra, que se reduz de um ano para cerca de um mês; reduzem-se os custos ambientais, com menos ruído, pó e trânsito; e reduz-se o preço, já havendo casas industriais a chegar ao mercado abaixo do valor das soluções convencionais, garante José Teixeira. Muda ainda o mercado de trabalho: com o fim de andaimes, trabalho pesado e em altura, abre-se a porta a mais mulheres num sector tipicamente masculino, e hoje em dia, 30% dos trabalhadores das fábricas DST já são mulheres. Em cima disto, há uma pedra de toque muito cara a José Teixeira, e, “isto, sim, é qualquer coisa de disruptiva”: a importância de “levar beleza para tudo o que fazemos”. Porque “a arquitetura não pode acrescentar pobreza à pobreza”, a DST chamou Siza Vieira, Souto Moura, Aires Mateus, Norman Foster e até Vhils, que está a assinar três mil casas de banho com azulejos. A escolha é política: combater a fealdade que “atrai fealdade”, oferecer dignidade a custos controlados e evitar bairros homogéneos onde apenas vivem pobres ou imigrantes. “O classismo destrói a cidade, destrói a comunidade, a relação com os outros. As cidades estão carregadas de muros no Martim Moniz, no Benformoso”, e José Teixeira quer que o papel social da arquitetura entre em ação. “O início conta sempre” A conversa com José Teixeira arranca com uma recolha de cânticos feita por Michel Giacometti junto de operários numa pedreira de Póvoa de Lanhoso, e a escolha foi simbólica. A DST começou como uma empresa familiar, fundada por Domingos Silva Teixeira, pai de José, e este é “exatamente o nosso início. E o início conta sempre”, diz-nos José Teixeira. É importante para “perceber os sapatos dos outros”, e para se perceber o ponto onde cada um está. Da pequena indústria a um grupo empresarial com cerca de 30 empresas (com participações maioritárias e minoritárias), mais de 2 mil trabalhadores, com uma faturação de EUR700 milhões e um EBITDA (resultado antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) de EUR80 milhões, José Teixeira enquadra esta ascensão como “uma etapa do caminho”. E ao longo da etapa a cultura empresarial e a política de gestão contam, e muito. Vai citando o Papa Francisco, Herberto Helder, Thomas Kuhn, John Rawls, Alberto Caeiro, para falar de justiça, comunidade, humanismo; do papel das empresas (muito para lá de serem máquinas de faturação); e dos trabalhadores (muito para lá de máquinas obedientes). “Orgulham-me os resultados, mas há uma coisa que os empresários esquecem: temos um contrato com o Estado, pagamos impostos; temos um contrato com os trabalhadores, e pagamos salários; mas temos um contrato além desse, que é o contrato social, com a polis”, porque a riqueza é coproduzida. Além de apostar na formação profissional e cultural dos funcionários, com aulas de filosofia e momentos de leitura a intercalar o tempo de trabalho, no grupo DST “compensamos e pagamos os resultados da inovação dos nossos trabalhadores. Não ficamos com tudo para nós”. Fazem-no distribuindo 20% dos benefícios fiscais que recebem do Estado do Sistema de Incentivos Fiscais à Investigação e Desenvolvimento Empresarial (SIFIDE), e também dividendos nas empresas participadas pelos trabalhadores. “É uma espécie de capitalismo popular. Temos muitos trabalhadores que são nossos sócios, e nessas empresas distribuímos dividendos”, diz José Teixeira. Nas outras, não: “Vivemos dos salários e investimos o que ganhamos para criar mais fábricas, criar mais indústria, melhorar salários e por aí fora”. Para José Teixeira, esta filosofia “é absolutamente importante, porque se formos bulímicos, se quisermos só as coisas para nós, os trabalhadores não vão trabalhar, os trabalhadores obedecerão”. Tal como é fundamental abolir classismo dentro da empresa: “Não há produtividade sem um espírito social comunitário na empresa. Temos de investir num projeto que não seja a da meritocracia em si, onde os trabalhadores competem uns contra os outros e atropelam.” Frases “Compensamos e pagamos os resultados da inovação dos nossos trabalhadores, não ficamos com tudo para nós” “Se os empresários forem bulímicos, se quisermos tudo para nós, os trabalhadores não vão trabalhar, apenas obedecerão” “Temos muitos trabalhadores que são nossos sócios, e nessas empresas distribuímos dividendos. Nas outras, não, vivemos dos salários e investimos para criar mais fábricas, mais indústria, melhorar salários e por aí fora” Elisabete Miranda Jornalista Elisabete Miranda