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ECONOMIA - O MOTOR EUROPEU ESTÁ A PERDER TRAÇÃO

Expresso

2025-12-12 22:06:21

Economia. No comércio internacional, a Alemanha deverá ser ultrapassada pela Índia em 15 anos, projeta o Pardee Institute, dos EUA JORGE NASCIMENTO RODRIGUES A Alemanha continua a revelar uma posição invejável no contexto mundial. Segundo o índice global de poder, a maior economia da União Europeia (UE) fecha este ano no terceiro lugar no clube das grandes potências, a seguir aos Estados Unidos (EUA) e à China, ainda que a uma distância significativa. Este índice global é calculado pelo Pardee Institute for International Futures, ligado à Escola de Estudos Internacionais da Universidade de Denver, nos EUA. Abrange várias dimensões, que incluem economia, demografia, diplomacia, força militar e tecnologia. A Alemanha representa uma fatia de 4,2% no poder mundial face a 24% para OS EUA e 17% para a China. Apesar do choque económico violento que a Alemanha sofreu com o divórcio da energia barata da Rússia, o que provocou dois anos de recessão em 2023 e 2024 e uma retoma muito modesta em 2025, o país conseguiu manter o terceiro lugar no poder mundial, ainda que ligeiramente acima do Japão e da India, e uma posição ainda muito forte no comércio internacional Continua a ser a terceira maior máquina de exportação no mundo, depois da China e EUA. No entanto, em riqueza criada anualmente, situa-se em sexto lugar, representando apenas 3% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial medido em paridade de poder de compra. O problema mais sério é o futuro. Segundo as projeções do índice global de poder, nos próximos 25 anos, a Alemanha vai cair do terceiro lugar para a sexta posição. De uma fatia de 4% vai descer para 3%. Será ultrapassada pela India (que salta para a terceira posição), Reino Unido e Rússia. “A razão para esta queda é o facto de o aumento em termos absolutos dos recursos e competências da Alemanha irem crescer mais lentamente, enquanto outros países vão crescer muito mais rápido. Isso é especialmente visível no poder diplomático, no comércio internacional e nos gastos governamentais em Investigação e Desenvolvimento”, refere ao Expresso Collin Meisel, diretor de análise no Pardee Institute for International Futures e professor na Josef Korbel School of Global and Public Affairs, na Universidade de Denver. Meisel destaca o caso do comércio internacional, onde a economia alemã tem sido, nos últimos 30 anos, a terceira potência mundial. Daqui a 15 anos, a Índia já estará à frente. Um olhar sobre o curto e médio prazo também não é galvanizador. O Governo do chanceler Friedrich Merz aponta para um crescimento real anual de 1,3% em 2026 e 1,4% em 2027 e o Fundo Monetário Internacional (FMI), na mais recente análise da economia alemã, projeta 0,9% e 1,5%, respetivamente. Mesmo com a injeção de EUR500 mil milhões nos próximos 12 anos através do fundo especial para investimentos urgentes em defesa e infraestruturas, a Alemanha não deverá regressar ao seu antigo papel de motor da UE. Um crescimento da economia alemã que puxe pela UE é improvável. O FMI projeta uma média anual de 1% até 2030, com um crescimento abaixo de 1% daqui a cinco anos. “Definitivamente não vai conseguir. Um crescimento acima de 2% está claramente fora de alcance para uma economia como a alemã, que está envelhecida. Já í será um sucesso se uma combinação de reformas e de investimentos adicionais conseguir elevar o crescimento potencial da Alemanha para 1%. Mas mesmo isso é improvável”, sublinha ao Expresso Friedrich Heinemann, chefe de investigação no instituto ZEW (Leibniz Centre for European Economic Research), em Mannheim, e professor de Economia na Universidade de Heidelberg, na Alemanha. o otimismo não abunda: “Já se percebeu que o Sonderfonds [o fundo especial] não financia totalmente investimentos adicionais, mas que os fundos vão ser amplamente utilizados para gastos sociais. Pode-se até argumentar que esse dinheiro vai atrasar as reformas na Alemanha, já que dinheiro fresco alivia a pressão financeira de curto prazo, que, de outra forma, forçaria mais reformas no sistema de segurança social”, diz o economista. A contrapartida negativa dos EUR500 mil milhões, admite Heinemann, é uma subida do rácio da dívida pública alemã para 85% a 90% do PIB daqui a 12 anos. O FMI projeta que o défice orçamental alemão suba para 4% do PIB em 2027. A reputação orçamental alemã poderá estar em causa: “Essa reputação da Alemanha vai deteriorar-se se o uso indevido atual do fundo especial continuar. As chamadas regras de Maastricht já não existem de uma forma clara. Muito depende da interpretação por parte da Comissão Europeia. E a Comissão, com uma fiscalização frouxa, prepara o caminho da Europa para níveis de dívida perigosamente altos”, refere o economista do ZEW. Olhando para a pegada alemã no mundo vemos que, no grupo das 60 empresas cotadas com maior capitalização no mundo, a Alemanha conta com apenas uma, a SAP, em 439 lugar. No sector dos semicondutores, no grupo das 50 empresas mais importantes do mundo, só se encontra uma alemã, a Infineon. No entanto, na inteligência artificial (IA), o economista Christian Rammer, investigador sénior no ZEW e responsável pelo painel anual de inovação neste instituto, acha que “a Alemanha é forte em aplicações de IA para a indústria e pode competir com OS EUA e a China nesse segmento do mercado”. Mas para aplicações da IA viradas para o consumidor “a situação é completamente diferente, pois esse nunca foi um ponto forte germânico, situação que é similar às debilidades em smartphones, redes sociais e plataformas de comércio eletrónico para os consumidores”. Em geral, no que se batizou por “Indústria 4.0” , integrando internet das coisas, computação em nuvem, análise de dados, IA e maquinaria com capacidade de aprendizagem ,, este investigador do ZEW acha que a Alemanha tem uma boa posição. E considera que não está tão ameaçada como nos casos da indústria automóvel, da indústria química e da eletrónica. Sector automóvel em risco Na corrida na indústria automóvel, onde a Alemanha se contava entre os campeões, o balanço não é otimista: “A estratégia dos três principais fabricantes originais de equipamentos (Volkswagen, Daimler e BMW) há muito tempo que tem sido seguir ambos os caminhos motores a combustão e veículos elétricos, mas no caso destes últimos focam-se mais no segmento de gama alta do mercado (ou seja, no alto preço). No mercado de massas de automóveis elétricos, os fabricantes alemães não estão bem posicionados e certamente não ocupam uma posição de liderança, e são obrigados a seguin as tendências definidas por produtores chineses e americanos”, refere Christian Rammer, investigador sénior no ZEW. E acrescenta queo que se passa com o sector automóvel germânico é uma situação muito invulgar para os fabricantes alemães, que há muito tempo eram líderes globais em tecnologia no mercado automóvel. “Caso os elétricos eliminem totalmente os automóveis com motor a combustão nos próximos dez anos, este sector alemão perderá definitivamente a sua posição e entrará em declínio”, conclui o economista alemão. J.N.R. A crise silenciosa vista de Berlim Na capital alemã, a economia suscita alguma preocupação. ê esperado este ano um disparo das insolvências. Em Berlim, a ausência de frio gélido e de neve poderia ser uma metáfora perfeita do estado da economia: embora esteja a passar por dificuldades, estas não parecem ecoar nas conversas de rua. Muitos esperam o regresso da normalidade. No entanto, a indústria alemã alerta que se confronta com um momento sem precedentes. A Associação Federal da Indústria Alemã (BDI) crê que a posição do país no domínio industrial se encontra em “queda livre”, tal como disse o seu presidente, Peter Leibinger, à agência DPA na semana passada. Perguntamos a uma senhora de meia-idade, que segura uma marmita com o seu almoço enquanto espera o comboio na paragem de metro de Lichtenberg, se poderíamos inquiri-la sobre a crise em que o país se encontra. Mira-nos com incómodo e assegura que não fala com jornalistas. A comunicação social na Alemanha é vista por muitas pessoas com desconfiança. E em manifestações e discursos públicos a extrema-direita vem difundindo a ideia da “Lúgenpresse” (imprensa mentirosa, em alemão). No seu último estudo, intitulado “Zerstõrungslust” (vontade de destruir, em alemão), os sociólogos Carolin Amlinger e Oliver Nachtwey analisam um fenómeno mais amplo. Segundo os autores, em muitas democracias atuais surgiu aquilo a que chamam um “fascismo democrático” atitudes que, sem recorrer a um golpe de Estado, procuram corroer as instituições e as normas de convivência. Entre estas atitudes encontra-se um “prazer destrutivo”, que se manifesta, por exemplo, na deslegitimação dos meios de comunicação, percebidos como fazendo parte de um sistema que falhou. Não é o caso de Enrico. Apesar do nome de origem italiana, não tem sotaque e nasceu em Mecklenburgo-Antepomerânia. Também se sente defraudado pelo sistema, mas não se importa de conversar com a imprensa. Uma das razões que menciona, entre as que crê que afetam de forma negativa a sua vida, é o aumento de imigrantes. O jovem, que sorri enquanto fala com amabilidade, limpa edifícios e encontrámo-lo com o seu uniforme de trabalho nas imediações da Warschauer Straße, a regressar do emprego. Quando é inquirido sobre a crise, assegura que tem medo sobretudo de que a inflação aumente ainda mais. Não crê que o seu emprego venha a ser afetado pelos despedimentos ou pela recessão, mas explica: “Tenho de pagar a alimentação do meu filho, porque estou separado da mãe dele, e cada vez me é mais difícil chegar ao fim do mês.” Também opina que “a Alemanha deixou de ser o país social que era antes”. Devido a problemas de saúde, teve de estar algum tempo sem trabalhar e assevera que os políticos não sabem o que significa ter de se viver com subsídios que não cobrem as necessidades básicas. A poucos passos encontra-se o novo centro comercial East Side Gallery. A funcionária de uma loja assegura que não notou nenhuma quebra nas vendas devido às compras online. “Até agora não mudou nada”, garante. No entanto, os dados oficiais contam outra história, já que as vendas baixaram devido à concorrência de plataformas como a Temu. E a crise não se limita à indústria pesada. Segundo a Creditreform, 2025 deverá ver as insolvências na Alemanha atingir um máximo de uma década: esperam-se este ano perto de 24 mil falências empresariais e mais de 76 mil insolvências de particulares. o comércio retalhista regista um bom número desses encerramentos e a crise já custou mais de 100 mil empregos nas maiores empresas. A incerteza dos trabalhadores por conta própria e das pequenas empresas também cresceu nos últimos meses. O clima empresarial melhorou ligeiramente em novembro, embora se mantenha em níveis baixos. “Para os trabalhadores por conta própria é uma montanha-russa económica”, assegurava esta terça-feira Katrin Demmelhuber, especialista do instituto IFO, num comunicado. Para Winston, que encontramos numa paragem de elétrico no bairro de Friedrichshain, é fundamental pôr as coisas em perspetiva quando se trata de avaliar a crise alemã, que, aliás, diz ainda não ter sentido. Tem 23 anos, chegou do Quénia há seis meses e faz voluntariado. Veio para a Alemanha em busca de um futuro melhor. “No meu país há muito mais desemprego e pobreza, veem-se nas ruas milhares de pessoas sem emprego”, lembra. CARMELA NEGRETE em Berlim Exportações para a Alemanha aceleram Berlim está a perder peso no investimento direto em Portugal, mas ganha relevo nas exportações lusas Se o motor alemão está a gripar, os efeitos para a indústria portuguesa são tímidos: nos primeiros dez meses do ano, Portugal exportou EUR9,4 mil milhões para a Alemanha, mais 15,8% em termos homólogos, acelerando face ao crescimento médio anual de 10,9% entre os anos 2020 e 2024. Já as importações oriundas da Alemanha cresceram 9,7% até setembro, para EUR11,1 mil milhões. O resultado é que o défice da balança comercial portuguesa com a Alemanha encolheu de EUR2 mil milhões para EUR1,7 mil milhões no período de janeiro a outubro, segundo os dados publicados na quarta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). E Berlim está a ganhar peso como cliente das empresas lusas. A exportação de medicamentos para a Alemanha tem contribuído para este desempenho. Dados relativos aos primeiros três trimestres do ano indicam que nesse período a Alemanha representou 14,3% das exportações portuguesas, acima dos 12,4% do período homólogo, e sempre acima dos quatro anos anteriores (com um peso em torno dos 11%). Os números do INE relativos ao ano passado, sobre tecido empresarial nacional, mostram que 79% das empresas portuguesas com exportações para a Alemanha têm neste destino uma fatia minoritária (menos de 25%) das suas vendas ao exterior. Mas há 11% das exportadoras que concentram quase metade do total de vendas lusas à Alemanha, e que têm uma exposição substancial a este mercado (que representa mais de 50% do que vendem ao exterior). Mas se a Alemanha está a ganhar relevo como destino de exportação, está, por outro lado, a perder importância enquanto investidor. Dados do Banco de Portugal indicam que em setembro o investimento direto estrangeiro (IDE) da Alemanha em Portugal ascendia a EUR9,7 mil milhões. Embora tenha crescido 38% em seis anos, expandiu-se menos do que o de outros países. Em 2019 a Alemanha tinha o quinto maior IDE em Portugal. Mas está agora em oitavo lugar, tendo sido ultrapassada pelo Luxemburgo, Países Baixos i e Estados Unidos da América. MIGUEL PRADO