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PRESSÃO DAS CONSTRUTORAS AUTOMÓVEIS OBRIGA BRUXELAS A REVER METAS AMBIENTAIS, MAS HÁ MARCAS QUE NÃO CONCORDAM

Expresso Online

2025-12-16 22:09:16

A Comissão Europeia prepara-se para ceder ao lóbi das grandes construtoras automóveis, flexibilizando a proibição prevista de venda de carros equipados com motores a combustão a partir de 2035 Depois de pressões vindas de várias grandes construtoras automóveis europeias, sobretudo da Alemanha e de Itália, a Comissão Europeia deverá recuar na anunciada proibição da venda de novos carros com motor de combustão interna a partir de 2035. Esta terça-feira, Bruxelas irá pronunciar-se sobre o assunto, sendo de esperar que haja uma cedência às grandes marcas do sector para que seja permitido continuar a vender veículos híbridos plug-in e elétricos mas com extensores de autonomia e que possam utilizar biocombustíveis ou combustíveis sintéticos. Na prática, este esperado retrocesso de Bruxelas poderá permitir aos construtores europeus continuar a colocar no mercado carros a gasóleo e gasolina para lá de 2035. Ou seja, poderão manter até 10% dos seus níveis de emissões de gases poluentes face a 2021. Mas nem todas as marcas partilham deste expectável recuo da Comissão. A sueca Polestar, por exemplo (grupo Volvo, de capital chinês), que só produz carros elétricos, está frontalmente contra o esperado recuo de Bruxelas. Suecos da Polestar contra cedências de Bruxelas O CEO da Polestar, Michael Lohscheller, alerta para os riscos desta mudança e diz que "um veículo a combustão fabricado em 2035 poderá continuar a poluir vinte anos depois. Reduzir a meta de 100% para 90% pode parecer um detalhe, mas recuar agora não prejudica apenas o clima , prejudica também a competitividade da Europa”. O mesmo responsável garante que a eletrificação dos carros “é a chave para garantir prosperidade e empregos nas próximas décadas” e que “a inversão deste curso teria o efeito oposto: prolongaria a vida útil de indústrias obsoletas apenas por alguns anos, enquanto o resto do mundo avança. As soluções elétricas já existem e estão a ser amplamente adotadas. A Europa não tem um problema de procura, tem um problema de confiança”. Manfred Weber, presidente alemão do Partido Popular Europeu (PPE), o maior grupo do Parlamento Europeu, afirmou recentemente, citado pela agência Reuters, que o nível de 90% tinha sido acordado pela Comissão e que a redução, mesmo que reduzida, representava ainda um progresso: “Uma redução de 90% até 2035 é uma redução enorme”, disse numa conferência de imprensa em Estrasburgo. Ford anuncia descontinuação de modelos elétricos No entanto, as alterações que vierem a ser anunciadas esta terça-feira necessitarão da aprovação dos governos da União Europeia (UE) e do Parlamento Europeu. Enquanto na Europa se discute a cedência nas metas ambientais provocadas pela venda de carros com motores a combustão interna, a fabricante automóvel americana Ford Motor anunciou, esta segunda-feira, que vai descontinuar vários modelos de veículos elétricos, em resposta às políticas do Governo Trump e à queda da procura de veículos elétricos. Segundo a Reuters, grandes fabricantes automóveis europeus como a Volkswagen e o grupo Stellantis (que gere 15 marcas, como a Peugeot e a Citroën) também apontaram a fraca procura de veículos elétricos e apelaram a uma flexibilização das metas e das coimas por incumprimento. A associação europeia de construtores automóveis ACEA também considera o momento “decisivo” para o sector. Construtoras alemãs impactadas pela China Note-se que os fabricantes de automóveis alemães têm vindo a ser particularmente impactados, não apenas por verem as suas vendas caírem na China , a Porsche, por exemplo, já reduziu o número de stands naquele país de 150 para 100 em apenas um ano , como também estão a ser ameaçados na própria Europa pelas importações de novos carros elétricos chineses a preços cerca de 35% a 40% abaixo dos praticados pelas marcas europeias. E as tarifas aduaneiras que a UE impôs recentemente sobre os veículos elétricos produzidos na China aliviaram “apenas ligeiramente” a pressão sobre os construtores europeus, segundo alguns analistas do mercado. Mercado vê fecho da fábrica da VW como “sinal de realismo” Entretanto, o fecho da fábrica de automóveis elétricos da gigante Volkswagen (VW) em Dresden, na Alemanha, que também deverá ser formalmente anunciada esta terça-feira, é visto pelos investidores “como um sinal de realismo, não necessariamente de fraqueza”, explica a consultora XTB. E adianta que “cortar capacidade produtiva em mercados de elevado custo pode melhorar margens no médio prazo e libertar capital para áreas críticas de crescimento. No curto prazo, no entanto, este tipo de notícia tende a pesar no sentimento, sobretudo num sector já sob pressão bolsista”. Para a Europa, e ainda segundo a mesma consultora, o encerramento daquela fábrica da VW levanta questões mais profundas: “Até que ponto o continente conseguirá manter uma base industrial forte num mundo cada vez mais fragmentado por tarifas, subsídios e políticas industriais agressivas?”. E conclui a sua análise assegurando que “esta tensão entre performance de mercado e desafios reais de competitividade é exatamente o que os investidores estarão a digerir à medida que calibram posições no sector automóvel europeu”. Vítor Andrade Coordenador de Economia Vítor Andrade