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ALBERT CHEUNG - “A CHINA FEZ UM GRANDE TRABALHO NO CARRO ELÉTRICO

Expresso

2025-12-19 22:09:32

Albert Cheung CEO delegado da Bloomberg NEF “A China fez um grande trabalho no carro elétrico” Foto MATILDE FIESCHI O apagão de 28 de abril marcou durante largos meses os debates dos especialistas em energia. Albert Cheung, o número dois da Bloomberg NEF (divisão da Bloomberg focada no mercado de energias limpas), estava numa conferência em Nova Iorque quando a rede ibérica foi abaixo. Recorda-se de como os participantes espanhóis debandaram do evento. Este mês Cheung esteve em Lisboa, numa outra conferência, promovida pela REN e pelo Expresso, onde disse não ter dúvidas de que a aposta nas baterias será decisiva nos próximos anos. P Vários meses depois do apagão ibérico há alguma lição a tirar? R Para algo como isto ter acontecido é preciso que várias coisas tenham falhado. Não pode ser apenas uma falha. é preciso olhar para todo o sistema [elétrico], compreender os procedimentos e os diferentes tipos de produção, bem como a rede. Para mim, se há uma lição a tirar é que precisamos de pensar sobre como todo o sistema opera, num mundo que tem cada vez mais renováveis. P Na última década tivemos um enorme aumento da aposta na energia solar. As baterias marcarão a próxima década? R Sim. As baterias serão o game-changer. Já começaram a ser. Temos estado com empresas ligadas à transição energética no mundo inteiro e no ano passado quando eu perguntava qual era a coisa a que devíamos prestar mais atenção respondiam-me sempre “armazenamento de energia”. A nossa previsão é de 100 GW (gigawatts) de nova capacidade de armazenamento instalada a nível global no próximo ano. é substancial. P E as condições económicas já funcionam do ponto de vista de quem investe? R Começamos a ver situações em que a energia solar e as baterias conseguem concorrer com a produção de origem fóssil. Não é em todo o lado. Se tiver gás barato é mais difícil de acontecer, mas em sítios com gás mais caro é possível. E também está a acontecer no momento cer-to. Os custos do armazenamento de energia caíram 90% nos últimos dez a 15 anos. E isto está a acontecer num momento em que alguns sistemas elétricos estão a registar uma saturação de energia solar (e em alguns casos de energia eólica). Para ter mais renováveis no futuro, a menos que se tenha energia hídrica, o armazenamento [com baterias] será a chave. P Porque é que a captura e sequestro de carbono (ccs, na sigla eminglês) e o hidrogénio têm uma fatia reduzida do investimento global na transição energética? R O hidrogénio e a captura de carbono interessam sobretudo para descarbonizar indústrias pesadas como a siderurgia e os cimentos. Infelizmente, não são economicamente viáveis hoje em dia. E podem nunca vir a sê-lo. São muito diferentes da energia solar e eólica. Uma fábrica com captura de carbono será sempre mais cara do que sem captura de carbono. Sempre. P Mesmo que o preço das licenças de emissão de co2 suba? R Bem, se tiver um elevado preço de carbono pode conseguir viabilizar, mas há outros desafios. Não é bem como no sector elétrico. Há 15 anos podíamos atribuir uma tarifa feed-in (com remuneração garantida) a um parque eólico e estaria tudo bem, mas se quisermos converter a siderurgia temos de nos preocupar sobre se ela será competitiva no fu-turo com as siderurgias da China, da India, do Japão. P Há 15 anos, quando começámos a ter centrais solares maiores, o preço dos módulos fotovoltaicos era muito elevado, mas caiu entretanto. Poderemos também baixar o custo de tecnologias como o hidrogénio verde? R Poderemos baixar os custos. Para tal é preciso criar projetos-piloto para desenvolver novas indústrias e criar cadeias de abastecimento. Onde sou mais cauteloso é na ideia de que haverá um momento em que já não será necessário um subsídio. Estamos muito longe disso. P Há espaço para a energia nuclear na Europa? R Sim. Há uma discussão cívica e social sobre a energia nuclear e os países têm diferentes perspetivas. A energia nuclear é uma fonte maravilhosa de energia se se conseguir produzi-la de forma segura e custo-eficiente. Tem quase zero emissões de carbono, é fiável... P Mas? R é cara e é difícil de construir. São projetos muito demorados, quando omparados com os parques eólicos e solares, que podem ser instalados em dois a quatro anos. A energia nuclear terá um papel, mas não será a maior fonte de eletricidade. Na minha perspetiva, se chegarmos à neutralidade carbónica será devido à existência de muita energia renovável e alguns outros recursos como a energia nuclear e a captura de carbono, em que teremos de pagar mais. P E oS pequenos reatores modulares (SMR na sigla em inglês) serão uma solução nos próximos 10 a 15 anos? R Estou algo entusiasmado com os SMR porque têm potencial de expansão por serem modulares. Os primeiros reatores nucleares modulares serão muito caros. E serão precisos muitos para baixar a curva de preço, mas espero que se consiga fazê-lo. P A indústria de carros elétricos apresenta um peso esmagador da China. Há apenas vantagens nisso? Ou também aspetos negativos? R Aindústria chinesa fez um grande trabalho na expansão dos carros elétricos, tanto ao nível das baterias como dos veículos. Há 10 anos não eram bons. Hoje a tecnologia lidera a nível mundial e os benefícios são evidentes. Estive na China no mês passado e a qualidade do ar em Xangai é muito melhor do que a de que me lembrava há uns anos. As emissões baixaram. E algumas estimativas indicam que a China já ultrapassou o peak oil , o pico do consumo de petróleo de uma economia. é uma conquista fenomenal. O único senão é que o enorme sucesso que as empresas chinesas tiveram ao desenvolver a tecnologia dos carros elétricos é uma ameaça aos fabricantes ocidentais. Isso pode ter consequências em termos de perda de emprego. Em qualquer transição há vencedores e perdedores. A questão é o que fazer quando se está a perder. Há riscos. é um tema no qual devemos navegar com cuidado. P Como vê a resposta da União Europeia aisso? R A indústria automóvel é poderosa. A Europa precisa de encontrar uma estratégia em que possa descarbonizar com sucesso, ao mesmo tempo que cria uma indústria de veículos elétricos e protege as suas empresas. P Que desafios a expansão dos elétricos traz à gestão da rede? R Não estou preocupado com o consumo de energia dos carros elétricos de uma forma agregada. O que pode preocupar é a velocidade da instalação das infraestruturas de carregamento: tem de ser muito alta para acompanhar o crescimento das vendas de carros elétricos. P Uma das questões centrais da transição energética é o custo que poderá ter para os consumidores. A fatura elétrica não será muito mais alta do que é hoje? R O que a nossa análise mostra é que se queremos chegar à neutralidade carbónica em 2050 teremos um sistema energético que será mais caro, mas a diferença não é assim tão grande, são mais 9% face aos custos atuais. a COMEçAMOS A VER SITUAçôES EM QUE A ENERGIA SOLAR E AS BATERIAS CONSEGUEM CONCORRER COM A PRODUçâO FôSSIL Albert Cheung é o CEO delegado da Bloomberg NEF, divisão do grupo Bloomberg que se especializou na análise da transição energética. A trabalhar em Londres, lidera o departamento de análise global. Passou este mês por Lisboa, para falar numa iniciativa da REN e do Expresso MIGUEL PRADO