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“CONSULTAS POÉTICAS” LEVARAM ARTE, CONFORTO E HUMANISMO AOS SEM-ABRIGO

Diário do Minho

2025-12-20 07:03:02

“Consultas Poéticas” levaram arte, conforto e humanismo aos sem-abrigo José Alberto Cerqueira e Sérgio Correia, dois utentes do Centro de Alojamento Temporário (CAT) da Cruz Vermelha, em Braga, viveram, ontem, um dia diferente, que os fez sentir escutados, valorizados e compreendidos. Com recurso à poesia e à arte, duas vias, no mínimo inesperadas, o dstgroup, em parceria com a Associação Paisagem Periférica e com o apoio da Cruz Vermelha Portuguesa , Delegação de Braga, replicou, pelo segundo ano consecutivo, a iniciativa “Consultas Poéticas”, levando presença e esperança não apenas ao José Alberto e ao Sérgio, mas a muitas pessoas em situação de sem-abrigo e vulnerabilidade social que, diariamente são apoiadas no CAT, e que sentiram este gesto de cuidado inesperado como um verdadeiro tratamento médico. Promovidas pelo segundo ano consecutivo, as “Consultas Poéticas” demonstraram que a poesia pode chegar a todos, e constituir um meio de diálogo íntimo e de apoio moral e psicológico. As “consultas” começaram invariavelmente com um “Como é que estás?” e depressa se transformaram em encontros indivi-duais entre um artista-consultor e um participante, daí resultando uma “receita poética” personalizada e baseada em critérios puramente emocionais. Raquel Sousa, assessora executiva da dst, explicou que a iniciativa deste ano dá continuidade ao projeto-piloto que iniciou no ano passado. Realçando que «há poetas no CAT de Braga», Raquel Sousa encara esta proposta como «uma forma de dar continuidade ao papel ativo que o dstgroup tem no seu ADN há muitos anos, apoiando a cultura e assumindo o seu papel de responsabilidade social e empresarial. «Sentimos que os utentes beneficiam desta conversa com um artista, e que ali desabafam sobre coisas que, no seu dia-a-dia, são incapazes de fazer com os técnicos da Cruz Vermelha. Estas consultas acabam por não ser intrusivas porque eles gostam de conversar, de ter um apoio, um colo, e esta iniciativa tornou esses pequenos sonhos possíveis. A arte e a cultura podem ser vias de inclusão social porque tudo o que tem a ver com cultura faz com que nós consigamos voar, sonhar mais alto, através dos livros, das outras pessoas e das conversas com elas», afri mou. Ao todo, foram cinco ho-ras de “Consultas Poéticas”, com uma duração de cerca de 25 minutos cada, resultando em “Receitas Poéticas” várias e personalizadas para cada caso. Catarina Santos, direto-ra técnica do CAT da Cruz Vermelha de Braga, explicou que no centro residem atualmente 40 utentes, aos quais se junta cerca de meia centena que frequenta o centro em caráter não regular para usufruir dos serviços de cantina social e higiene diária. «Consideramos esta iniciativa mesmo muito importante para os utentes por proporcionar momentos felizes, instantes tão pequenos que acabam por se transformar em gigantes por aquilo que as pessoas entendem que lhes é dado», afri mou. Catarina Santos admite que «muitos dos utentes ficam um bocadinho reticentes no início, porque não estão habituados a esta atenção toda, sobretudo nesta altura do Natal, em que tudo parece tão triste para quem está sozinho». «Muitos dos nossos residentes usam a arte como forma de se expressarem, de terem voz na sociedade tradicional, onde ainda há muita discriminação. Portanto, nestes momentos em que se podem expressar, é de todo aconselhável que isso aconteça aos diversos níveis», afri mou. Manuela Ferreira, diretora artística do projeto “Consultas Poéticas” e presidente da Associação Paisagem Periférica salientou que os artistas “douto-res poetas” que participaram na iniciativa traziam grandes expetativas (que se cumpriram), após os bons resultados da edição do ano passado. «Foi uma experiência muito especial e a nossa primeira ação de “Consultas Poéticas”, por isso agora estamos a celebrar praticamente um ano da primeira experiência e um ano de uma viagem de experiências muito especiais, em contextos muito particulares, maioritariamente vulneráveis, com o apoio e a confiança muito excepcional da dst, que tem apoiado e tem acreditado nesta iniciativa», revelou, acrescentando que esta experiência já percorreu o Estabelecimento Prisional de Guimarães e alguns bairros sociais daquela cidade. Em conversa com os jornalistas, um dos utentes do CAT de Braga, Sérgio Correia, contou que também se dedica à poesia. «Já faço poesia há muito anos. É uma coisa que só me faz bem e só me ajuda a passar o tempo», contou. Também José Alberto Cerqueira adiantou que gosta muito de escrever. «Nasci numa terra de poesia e de arte. Sempre fui muito ligado à música e entreguei-me à poesia. Gosto de ter tempo para libertar a alma e para me exprimir», contou. Receita Cada “Receita Poética” é passada no final da consulta, personalizada e pode ser declamada no dia, ou guardada para o futuro. José Alberto Cerqueira contou à atriz Luísa Maria, que também gosta de escrever poesia DESABAFAR Sérgio Correia diz que a poesia o ajuda a desabafar 5 HORAS Cada consulta durou 25 minutos. Foram 5 horas ao todo Carla Esteves