O PROFESSOR NÃO ACABA NA ERA DA IA: TEM DE SER RECONSTRUÍDO
2025-12-22 06:00:06

A urgência da mudança na formação de professores não nasce de uma profecia futurista. Nasce de uma incompatibilidade crescente entre aquilo que pedimos aos docentes e aquilo para que os preparamos. Na Universidade de Évora, a 12 de dezembro, numa mesa-redonda, onde participei, com um título que parecia pedir um novo cartão-de-visita “IA e Educação Digital: um novo perfil de docente?”, ficou claro que há perguntas que já não são do futuro. São do presente, só que com atraso administrativo. Nos textos que preparei para essa intervenção, escrevi que a IA não vai substituir o professor, mas vai, isso sim, obrigá-lo a ser reconstruído por dentro relativamente à forma como planeia, pergunta, avalia, comunica e decide. A ironia é que o sistema educativo ainda fala, muitas vezes, como se a mudança fosse opcional, usando expressões como “vamos ver”, “vamos acompanhar”, “vamos criar um grupo de trabalho”. Entretanto, a sala de aula já mudou. E mudou sem pedir autorização. Entre 2023 e 2024, num relatório produzido pela National Literacy Trust, é mostrado que a percentagem de jovens (13,18) que dizem ter usado IA generativa passou de 37,1% para 77,1%. Um em cada cinco admite que, nos trabalhos de casa, copia o que a IA lhe dá (20,9%). E, talvez ainda mais inquietante, há quem nem confirme se aquilo está certo: 20,6% dizem que não verificam as respostas; 39,9% verificam porque “pode estar errado”. Isto não é uma anedota sobre preguiça juvenil, é um retrato de risco pedagógico. O problema não é o aluno usar IA. O problema é a escola continuar a fingir que a literacia para a usar, e para a contrariar, aparece por osmose. Enquanto isso, a profissão docente está a ser pressionada por duas frentes ao mesmo tempo, a tecnológica e a demográfica. No “Estado da Educação 2024”, o Conselho Nacional de Educação mostra que “Projeções nacionais e internacionais quantificam a magnitude da renovação necessária, indicando que dos cerca de 122 000 docentes ativos em 2024/2025, apenas 76 000 permanecerão em funções, o que representa uma quebra de 37% na oferta, exigindo o recrutamento de, aproximadamente, 3 800 novos docentes por ano, até 2034/2035.” E há um detalhe que devia ser repetido em voz alta em qualquer aula de políticas educativas: em 2023/2024, ficaram por preencher 1 280 vagas de mestrados profissionalizantes em ensino, num total de 3 838, cerca de 33%. Ou seja, mesmo antes de discutirmos IA, já estamos a discutir escassez. E a escassez, quando encontra tecnologia, tende a produzir tentações perigosas, tais como, automatizar à pressa, comprar soluções “chave-na-mão”, transformar educação num serviço com interface bonita e interior opaco, ou até “dar a cada aluno um tutor de IA que ouve, orienta e inspira a sua aprendizagem”. Quem imagina que este cenário se resolve com proibições está a confundir autoridade com nostalgia. O próprio desenho das avaliações está a ser forçado a mudar. Num inquérito a professores, 75,3% dizem precisar de mais formação, apoio e recursos para usar IA generativa de forma eficaz; no mesmo estudo, apenas 9,9% concordam que exista uma política de escola sobre o tema, e só 7,3% concordam que a escola encontrou formas de reduzir oportunidades de plágio com IA. A isto chama-se estar a pilotar um avião com os instrumentos desligados, pode correr bem durante algum tempo, até deixar de correr. Há, porém, um ponto decisivo que importa afirmar sem dramatismo e sem ingenuidade, o professor não é um “meio de transmissão” que a IA venha substituir, como se se trocasse um projetor por outro. A UNESCO é explícita, a escola deve proteger o papel do professor porque a tecnologia não o “deve” nem o “pode” substituir. Mas essa mesma UNESCO lembra outro dado embaraçoso, em 2022, apenas sete países tinham desenvolvido referenciais ou programas de formação de professores em IA. Isto ajuda a perceber por que razão, em muitos contextos, a conversa sobre IA na formação docente oscila entre o moralismo (“os alunos andam a fazer batota”) e o deslumbramento (“isto vai resolver tudo”). Falta o essencial: preparação. E o mundo não está a dar sinais de abrandamento. A OCDE, nos resultados do TALIS 2024, indica que “um em cada três” professores já usa IA no trabalho e que “sete em cada dez” se preocupam com o facto de ela facilitar plágio e batota. Em Portugal, 30% (36% é média da OCDE) dos professores dizem ter usado IA no seu trabalho; e 35% assinalam necessidades elevadas de desenvolvimento profissional em competências para usar IA no ensino e na aprendizagem. A mensagem aqui é simples, não estamos a falar de um acessório, estamos a falar de uma prática que já entrou, mas entrou sem manual comum, sem critérios partilhados e, demasiadas vezes, sem supervisão pedagógica. A urgência da mudança na formação de professores, portanto, não nasce de uma profecia futurista. Nasce de uma incompatibilidade crescente entre aquilo que pedimos aos docentes e aquilo para que os preparamos. E essa incompatibilidade tem perigos muito concretos. O primeiro perigo é a erosão da confiança. Se a escola não souber explicar o que é aceitável, o que é desejável e o que é proibido, e porquê, cria-se um território de arbitrariedade. Quando as regras variam de turma para turma, o aluno aprende a jogar com o sistema, não a aprender. E quando o professor não tem critérios claros para avaliar num mundo onde o texto pode ser “fabricado”, a avaliação torna-se um teatro de certezas fingidas. Não é preciso cair no apocalipse para reconhecer o problema, basta olhar para o que o PISA 2029 vai avaliar. A OCDE introduziu, como domínio inovador, a “literacia mediática e em inteligência artificial”. Isto é um sinal político e pedagógico, a escola será medida, também, pela capacidade de formar jovens que reconheçam manipulação, viés, conteúdos sintéticos e influência algorítmica. Se continuarmos a formar professores sem esta gramática, estaremos a pedir-lhes que ensinem uma língua que nunca aprenderam. O segundo perigo é a ampliação da desigualdade. Quando a formação é frágil, quem já tem capital cultural e apoio fora da escola aprende a usar IA como alavanca, mas quem não tem, usa como muleta. A diferença é enorme, uma alavanca aumenta a força, uma muleta substitui a capacidade de andar. E uma escola que não ensina pensamento crítico, julgamento e validação de informação, aquilo que, nos debates de 2025, identifiquei como competências decisivas na era da inteligência expandida, arrisca transformar a IA numa máquina de reproduzir assimetrias, enquanto uns aprendem a perguntar, outros aprendem a copiar. O terceiro perigo é a “desprofissionalização” silenciosa do docente. Isto é menos óbvio, mas talvez mais grave. Sem formação sólida, a IA entra como “atalho” para tudo: planificações, fichas, feedback, etc. O professor, sobrecarregado, agradece e compreende-se. Mas, se o atalho se tornar hábito, a profissão perde músculo, perde a capacidade de desenhar experiências de aprendizagem, de diagnosticar dificuldades, de construir progressão. A tecnologia não substitui o professor, substitui, isso sim, partes do seu ofício e, se não houver vigilância, substitui-o por dentro, até ele próprio deixar de saber fazer sem a ferramenta. A UNESCO, quando fala de riscos como desigualdade, privacidade e desvalorização do papel docente, não está a escrever ficção científica, mas a descrever tendências previsíveis. Se estes são os perigos, o que significa mudar a formação de professores a curto, médio e longo prazo, sem slogans e sem receitas mágicas? A curto prazo, a prioridade é dar chão comum. Não se trata de transformar cada docente num especialista técnico, mas de garantir literacia prática, como funcionam modelos, porque erram, como introduzem vieses, como se verificam respostas, como se citam fontes, como se protege a privacidade de alunos. É aqui que a formação inicial tem de deixar de tratar tecnologia educativa como um capítulo decorativo e passar a integrar, transversalmente, a tomada de decisão pedagógica em ambiente digital. E há um gesto imediato que vale ouro: clarificar a avaliação. Não para “apanhar” alunos, mas para redesenhar tarefas que obriguem a pensar em vez de apenas produzir texto. A oralidade, o trabalho de projeto, a observação de processo, a resolução de problemas com justificação, a reflexão metacognitiva, a defesa pública de escolhas, tudo isto ganha valor não por ser moderno, mas porque torna visível o pensamento. Esta mudança, aliás, está alinhada com o que vários docentes do ensino superior têm defendido, isto é, menos dependência de formatos facilmente contornáveis por chatbots e mais aprendizagem autêntica, colaborativa e experiencial. A médio prazo, o foco tem de ser estrutural através da revisão de planos de estudos dos cursos de educação e dos mestrados de ensino, reforçar estágios com supervisão que inclua práticas com IA (e práticas sem IA, deliberadamente), e criar formação contínua com progressão real, não uma sessão avulsa, mas percursos. Portugal, aliás, mostra um paradoxo útil, muitos professores consideram positiva a formação contínua que fizeram, mas sinalizam necessidades elevadas em áreas críticas (IA incluída). Ou seja, não falta boa vontade, falta oferta consistente e relevante. E falta tempo, porque se as barreiras são horários e sobrecarga, a política educativa tem de tratar a formação como condição de trabalho, não como hobby noturno. A longo prazo, o desafio é cultural e ético, porque é necessário reconstruir o contrato entre escola e sociedade num ambiente onde a informação pode ser fabricada, a autoridade pode ser simulada e a atenção é disputada por máquinas de recomendação. Aqui, a formação de professores tem de incluir não só competências, mas uma ideia forte de missão, onde o professor tem de ter o papel de guardião de práticas justas, de debate informado, de convivência democrática e de sentido humano. É precisamente por isso que a IA não mata as humanidades, mas obriga-as a liderar através da leitura profunda, argumentação, discernimento moral, imaginação crítica, tudo o que não se reduz a resposta rápida. Quem achar que isto é mais uma vaga pode consolar-se com uma última ironia, o sistema educativo já está a mudar, só que de forma desigual, improvisada e, por vezes, clandestina. A pergunta não é se vamos adaptar a formação docente. A pergunta é se a vamos adaptar com intenção, equidade e rigor, ou se vamos assistir, com ar grave, à substituição das boas práticas por conveniências automáticas. E aí, sim, a IA não substitui o professor, substitui a escola por uma caricatura funcional porque é eficiente a produzir papéis, frágil a formar pessoas. No fim da mesa-redonda em Évora, voltei à ideia que desencadeou o meu texto, a IA é cada vez menos ferramenta e cada vez mais infraestrutura. Infraestruturas não se experimentam, governam-se. E governar, em educação, começa por formar bem quem ensina. Se falharmos isso, não falharemos apenas uma transição tecnológica. Falharemos uma geração inteira e, com ela, a nossa capacidade de distinguir conhecimento de ruído, liberdade de manipulação, aprendizagem de imitação. Fernando Moreira Professor Catedrático, Universidade Portucalense Fernando Moreira