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A AUDÁCIA DA ESPERANÇA

Observador Online

2025-12-24 06:00:05

Sejamos como os Comandos da história do meu pai. Independentemente da circunstância, tenhamos a coragem de agir com compaixão. Acredito profundamente no poder transformador das comunidades e, neste artigo, não escrevo só como diretor da Casa do Impacto, mas também como filho, cidadão e alguém que testemunhou como uma comunidade pode mudar o destino de uma vida. A minha história começa antes de mim, na década de 1960, em plena guerra colonial em Moçambique. Uma criança de três anos, ferida e sozinha após perder a mãe num ataque, é encontrada por soldados portugueses. Os Comandos da 9.ª Companhia resgataram-no, cuidaram dele e acolheram-no como um dos seus. Esse rapaz era o meu pai, António José, mais tarde conhecido como António José Comando. Comando não é um mero apelido , é um símbolo de uma comunidade que escolheu agir com humanidade no meio do conflito. Estes militares, preparados para a guerra, viram naquela criança algo mais do que um sobrevivente ou um refém. Os mesmos que foram responsáveis pela perda , nele encontraram potencial e decidiram ser o seu porto seguro, acompanhando-o mesmo depois do fim da guerra, oferecendo-lhe um lar e esperança. É esta força de agir que guia o meu trabalho. Comunidades fortes, sejam elas família, amigos ou instituições, são aquelas que resistem às adversidades e que se unem para reescrever o futuro. Aquelas que reconhecem talento, resiliência e propósito onde outros apenas veem falhas, estatísticas ou desespero. Como os Comandos foram para o meu pai e como tantas organizações de impacto são hoje para milhares de pessoas. Mas esta missão não é uma responsabilidade exclusiva das instituições. Uma das grandes mudanças dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (2015-2030) da Organização das Nações Unidas é precisamente essa corresponsabilidade: cada pessoa, empresa e comunidade tem um papel ativo na transformação social e ambiental. Na Casa do Impacto, tenho o privilégio de acompanhar empreendedores que trabalham motivados por essa visão. Ao longo de 7 anos, apoiámos mais de 480 projetos que nutrem o potencial dos seus beneficiários e enfrentam problemas sociais e ambientais com novas abordagens. A Code for All, por exemplo, através de bootcamps de programação, apoia pessoas desempregadas ou em situação precária: um participante vindo do Bangladesh hoje é developer na Suécia; uma sobrevivente de violência doméstica reconstruiu a sua vida e lidera equipas como scrum master; um jovem com apenas 5% de visão aprendeu a programar e encontrou o seu lugar na tecnologia. O que os une é uma comunidade que acreditou neles quando eles ainda duvidavam de si. Outro caso é o da MyPolis, que promove a participação cívica e democrática dos jovens alinhada com causas assentes na igualdade, no ambiente e nos direitos humanos. Com 60 mil participantes, gerou 5 mil propostas transformadoras, das quais 800 foram apresentadas em Assembleias e 300 implementadas em colaboração com os seus autores e representantes, em sete países do mundo. Um projeto criado para a comunidade, dentro da comunidade e que venceu recentemente um prémio do Fórum Mundial para a Democracia: foi escolhido entre 470 candidaturas de todo o mundo. Como alguém com raízes africanas a crescer em Portugal, sei que a representação desempenha um papel determinante no desenvolvimento individual e coletivo. Precisamos de fomentar a reflexão crítica sobre estereótipos, através de exemplos, evitando o “perigo de uma única história”. Quando vemos alguém como nós a ocupar espaços de liderança, nasce uma faísca: “Se ela conseguiu, talvez eu também consiga”. Porém, para que essa esperança floresça, precisamos de abrir portas (e mantê-las abertas). É crucial que todas as vozes, independentemente da sua origem, tenham oportunidade de contribuir e liderar uma sociedade mais justa, inclusiva e coesa. As comunidades incentivam diálogos empáticos e derrubam preconceitos. Ao promover políticas que valorizam a diversidade, plataformas como a Casa do Impacto assumem-se como pontes para um futuro mais equitativo. Barack Obama escreveu, em The Audacity of Hope, “a esperança é aquilo dentro de nós que insiste, contra todas as evidências, que algo melhor está à nossa espera se tivermos coragem de o procurar”. Eu procurei, mas não o fiz sozinho. Tive a sorte de encontrar pessoas, instituições e comunidades que me disseram “a tua história também conta”. Mais do que grupos de pessoas, as comunidades são redes invisíveis de pertença que nos sustentam. O meu apelo é simples: sejamos como os Comandos da história do meu pai. Independentemente da circunstância, tenhamos a coragem de agir com compaixão, de acreditar quando outros desistem e de tecer, juntos, um futuro ao qual todos pertencem. Porque, no fim, é isso que as verdadeiras comunidades não salvam apenas uma vida, transformam e multiplicam. Sobre a Casa do Impacto: Fundada em 2018, a Casa do Impacto é um hub dinamizado pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa que tem como missão impulsionar uma nova geração de empreendedores que estão a desenvolver modelos de negócio com impacto socioambiental positivo, alinhados com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas. O espaço integra escritórios, cowork, atividades de formação e experimentação, e programas de investimento.Redes Sociais da Casa do Impacto: Facebook + Instagram + LinkedIn + Twitter + MediumPara mais informações consultar: casadoimpacto.scml.ptPara mais informações e imagens, por favor contacte: Cátia Soares E: catia.soares@docotrspinpr.com T: +351 912 838 037 Nuno Comando Diretor da Casa do Impacto da SCML Nuno Comando