AS INDÚSTRIAS DE DEFESA NA ECONOMIA DO MAR O MODELO TRIPLE HELIX
2025-12-25 22:08:32

Portugal aposta na modernização militar e tecnológica como motor de desenvolvimento económico. Mas, perante o envelhecimento e a falta de efetivos nas Forças Armadas, o país enfrenta um paradoxo: como se garantirá o futuro da defesa nacional? A defesa como motor económico Nas últimas duas décadas, Portugal tem vivido uma transformação profunda na sua indústria de defesa. A ligação entre o Estado, as Forças Armadas, as universidades e o setor privado, formou um eixo de cooperação que procura modernizar as capacidades militares e estimular o desenvolvimento tecnológico e industrial. Apesar dos constrangimentos orçamentais e das crises económicas, o país reconstruiu um tecido industrial virado para a exportação e consolidou uma nova visão: a defesa como investimento estratégico, e não mera despesa pública. Planeamento a três níveis A necessidade de um planeamento conjunto entre O Estado, a indústria e as Forças Armadas, designado por modelo “TRIPLE HELIX”, é visto como essencial para garantir que os programas de defesa se traduzam em valor económico tangível. Durante anos, Portugal avançou com aquisições sem uma estratégia integrada , sem prever o ciclo de vida dos equipamentos, a manutenção ou a reintegração de valor industrial. Hoje, a defesa é pensada como parte de uma economia circular, onde cada aquisição potencia a produção nacional. Ou seja, "para comprar fora do país é preciso vender algo de volta , seja conhecimento, tecnologia ou produtos”. Uma nova geração industrial Em apenas vinte anos, o país passou de uma indústria residual para um setor de defesa diversificado e competitivo. Empresas portuguesas de engenharia e tecnologia desenvolveram competências de excelência em comunicações, vigilância marítima, ciberdefesa e integração de sistemas complexos. Programas europeus como o Fundo Europeu de Defesa e políticas nacionais de contrapartidas industriais têm sustentado este crescimento. A presença de gigantes, como a Thales, a Tekever, a Airbus e a Embraer, reforçou o ecossistema nacional, criando centros de engenharia e exportação tecnológica, em território português. Confiança e transparência Apesar do dinamismo crescente, a contratação pública continua a ser um dos pontos críticos. Faltam mecanismos de penalização e de responsabilização efetiva, o que mina a confiança no sistema. Especialistas defendem que transparência, rigor e continuidade são condições essenciais para garantir que os investimentos públicos em defesa resultem em benefícios reais para a economia e para o país. Hoje, contudo, a relação entre a indústria e as Forças Armadas é mais próxima do que nunca, com diálogo contínuo e cooperação técnica. ê um sinal de maturidade institucional e de que Portugal começa a consolidar uma verdadeira comunidade de defesa. Capital humano e inovação A escassez de recursos humanos qualificados é um dos grandes desafios do setor. A falta de engenheiros, técnicos e peritos em cibersegurança ameaça travar o ritmo da modernização. Iniciativas como o programa Vocationmakers e as parcerias com a Ciência Viva aproximam a indústria das universidades e despertam vocações científicas, mostrando que a defesa também é um motor de conhecimento, talento e inovação social. Economia de defesa integrada A cooperação entre OS Ministérios da Defesa e da Economia é outro ponto de destaque. O exemplo dos Países Baixos mostra que decisões de defesa só são aprovadas após avaliação dos seus impactos económicos.com o investimento nacional a aproximar-se dos 5% do PIB, Portugal enfrenta a oportunidade de consolidar uma economia de defesa integrada , sustentável, geradora de inovação e promotora de emprego qualificado. Responsabilidade social e impacto local O investimento em defesa pode ter também impacto social e educativo. A Thales e outras empresas internacionais promovem programas de literacia científica, visitas escolares e estágios, aproximando os jovens das engenharias e tecnologias emergentes. Mas o contributo mais relevante continua a ser o emprego qualificado e a fixação de talento. Cada posto de trabalho criado é um investimento direto no futuro tecnológico e económico do país. Reflexão final Portugal prepara-se para investir como nunca na defesa, mas as suas Forças Armadas envelhecem e perdem atratividade. A média de idade dos militares ultrapassa o que chamamos de idade jovem, e o recrutamento tem dificuldade em acompanhar o ritmo da modernização tecnológica. Enquanto se adquirem novos equipamentos e sistemas, o capital humano que os deve operar e sustentar está a diminuir. Este paradoxo levanta uma reflexão inevitável: como se garantirá o futuro da defesa nacional? Mais do que um dilema orçamental, trata-se de um desafio nacional. O futuro da defesa portuguesa também dependerá da capacidade de renovar o compromisso entre a Nação e os seus militares , aqueles que, com competência e dedicação, asseguram a soberania e a segurança do país. José Manuel Maia EuroDefense-Portugal Cortesia Marinha José Manuel Maia