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CUSTO DE VIDA - PREÇOS EM 2026 ESTABILIZAM APÓS ANOS DE FORTE SUBIDA

Público

2025-12-29 22:09:36

O ano que está prestes a arrancar será marcado por ligeiras oscilações nos preços dos principais serviços e produtos. Por Rosa Soares, Rafaela Burd Relvas, Victor Ferreira, Diogo Cavaleiro, Luís Villalobos e Isabel Aveiro O efeito pós-pandemia e a invasão da Ucrânia provocaram uma desestabilização violenta do comércio internacional e dos mercados mundiais, com impactos fortes no custo de vida das famílias. O próximo ano deverá ser marcado por alguma estabilização dos valores que se registaram em 2025. Habitação Prestação da casa sem grandes oscilações Não há expectativa de grandes descidas ou de subidas das prestações do crédito à habitação associado às taxas Euribor, no arranque de 2026. Não deixa de ser uma boa notícia, especialmente para quem ainda tem presente as fortes subidas de 2022 e 2023. A actual política do Banco Central Europeu (BCE) de manter as taxas inalteradas desde Julho de 2025, com a taxa da facilidade de depósito, a mais relevante para as variações das Euribor, a situar-se nos 2%, é a principal garantia para os detentores de crédito à habitação a taxa variáveis, que ainda representam cerca de 60% do universo total de contratos. Em face da estabilização da inflação na zona euro, e da expectativa de melhoria na economia da região, o BCE considera estar "numa boa posição", referindo-se ao nível das suas taxas de referência. E nessa medida, as Euribor deverão manter-se próximas dos níveis actuais, em torno dos 2%, no caso da taxa a três meses, ou de 2,1% e 2,2% a 12 meses. Em termos práticos, as revisões de créditos a ocorrer nos próximos meses poderão ditar ligeiras subidas nos que estão associados aos prazos mais curtos e uma descida, cada vez menor, no mais longo. A manterem-se os actuais níveis da Euribor, isso também é positivo para quem tem créditos a taxas mistas (com um período inicial fixo, seguido de variável) e que se encontrem perto de transitar para as Euribor, porque a diferença não será substancial. Rendas actualizadas em 2,24% As rendas actualmente em vigor estarão sujeitas a uma actualização máxima de 2,24% no próximo ano. Com a aplicação do coeficiente previsto por lei, por cada 100 euros de renda, os senhorios poderão pedir mais 2,24 euros por mês no próximo ano, se assim o entenderem (uma vez que a actualização não é obrigatória). A título de exemplo, uma renda que hoje seja de 1000 euros poderá ser actualizada para um valor máximo de 1022,4 euros a partir de 2026. Para que isso aconteça, os senhorios que decidam actualizar as rendas devem comunicá-lo ao arrendatário através de carta registada, com aviso de recepção, com uma antecedência mínima de 30 dias. A regra aplica-se aos contratos de arrendamento que vigorem há mais de um ano. Despesas da casa Electricidade: entre leve subida e ligeira descida O custo da electricidade para as famílias ao longo do novo ano vai registar pequenas variações. No mercado regulado, onde ainda permanecem cerca de 820 mil clientes, a tarifa média vai subir 1% a partir de Janeiro, valor que representará entre 0,18 euros (ou 18 cêntimos) e 0,28 euros, segundo a estimativa da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) para um casal sem filhos, com uma potência contratada de 3,45 kVA e um consumo 1900 kWh/ana, e um casal com dois filhos, potência de 6,9 kVA e consumo de 5000 kWh/ano, respectivamente. Em ambos os casos, os valores apresentados já incluem taxas e impostos. Apenas para o mercado regulado é que a tarifa é fixada pela ERSE e é também este valor que serve de referência para os clientes com tarifa social (para agregados com potência contratada até 6,9 kVa e com baixos rendimentos, incluindo pensões), que continuam a beneficiar de um desconto de 33,8%. No mercado liberalizado, onde se encontravam 5,7 milhões de clientes, as actualizações dependem de cada empresa. A EDP Comercial, a maior operadora deste mercado, deu o tiro de partida ao anunciar uma redução de 4%, mas ainda sujeita a ajuste à tarifa de ligação às redes, que subiu ligeiramente mais que o esperado. Já outra fornecedora, a Iberdrola, anunciou que os seus preços não sofreriam alterações. Neste mercado, Janeiro (a par do resto do ano) é mês para comparar as tarifas oferecidas pelas diferentes empresas e mudar de fornecedor se se justificar, até porque não há períodos de fidelização, nem custos de transferência neste mercado. O comparador de preços da ERSE dá uma boa ajuda. Gás natural já subiu 1,5% e o de botija varia muito A actualização anual das tarifas de gás natural no mercado regulado já arrancou a 1 de Outubro e só sofrerá nova alteração no mesmo mês de 2026. O valor determinado pela Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos representou um aumento médio de 1,5%, correspondendo a acréscimos entre 0,21 e 0,36 euros na factura mensal , para as tipologias de consumo mais representativas: um casal sem filhos e casal com dois filhos. No mercado regulado estão cerca de 437 mil consumidores. No mercado livre, onde estão cerca de 1,1 milhões de consumidores, os preços variam entre comercializadores e dependem da oferta comercial contratualizada pelo cliente. Também neste caso, a melhor forma de saber se pode poupar na factura é consultar o simulador da ERSE, sendo que é determinante ter em conta aspectos contratuais importantes, como serviços adicionais, ou, embora pouco frequentes, eventuais penalizações no caso de rescisão antecipada. Tal como na electricidade, os consumidores economicamente vulneráveis beneficiam de um desconto de 31% na factura de gás, a chamada tarifa social, quer ainda se encontrem no mercado regulado, quer já no mercado livre. No caso do gás de petróleo liquefeito (GPL), vulgarmente conhecido por gás engarrafado ou de botija, os preços são fixados livremente pelos diferentes fornecedores. Contudo, a ERSE divulga o preço médio nacional e o preço eficiente, sem e com margens comerciais. Estes valores pretendem ser uma referência para o mercado, e são determinados em função de algumas variáveis, como o custo do GPL nos mercados internacionais, armazenamento, transporte e outros. Além disso, a entidade reguladora passou a disponibilizar uma ferramenta digital que permite conhecer a localização de cerca de 2400 pontos de venda, os maiores, e respectivos preços de venda. Contudo este é um mercado muito segmentado, com mais de 50 mil pontos de vendas, que por serem de pequena dimensão (vendem menos de mil unidades/ano) não são obrigados a comunicar os preços praticados. Ainda assim, os dados divulgados pelo regulador, que inclui as diferentes marcas e tipologia de garrafas, ou a compatibilidade de redutores, pode permitir poupanças ao longo de 2026, tendo em conta que as variações entre o preço mais baixo e o mais caro pode ascender a um euro por quilo de gás. Os consumidores mais vulneráveis podem beneficiar da Botija de Gás Solidária, que garante um apoio de 15 euros por garrafa, com limite de uma unidade por mês de calendário e por beneficiário, programa que pode ser prorrogado até 2026, caso os fundos não sejam esgotados. Contas de condomínios perdem opção mais barata Os bancos não costumam esperar pelo final de ano para mexer nas comissões cobradas aos clientes. Tem havido uma actualização frequente, sem data concreta, e os bancos têm conseguido mais verbas nos serviços prestados. O BCP é o único que anuncia especificamente para 2026 algumas mudanças, a entrar em vigor em Fevereiro, nomeadamente nas contas de condomínio - em que era um dos bancos mais baratos. Até aqui, havia isenção para as contas de condomínios com património e saldo superior a 6000 euros; agora, todas vão pagar: os saldos mais recheados, acima de 7500, têm uma comissão anual de 78 euros, mais imposto do selo, montante que sobe para 120 euros para aquelas que têm menos de 7500 euros. Iguala, assim, os valores da Caixa Geral de Depósitos, que não vai mexer de forma generalizada nas comissões ainda que Paulo Macedo tenha assumido que ia olhar para cada comissão, perceber isenções e comparar com a concorrência. Os condomínios no Novo Banco são mais baratos, 108 euros, mas só se o saldo for superior a 10.000 euros; se for inferior, as comissões anuais são de 144 euros. Mobilidade Portagens sobem 2,3%, mas há mais isenções A partir de 1 de Janeiro, circular nas auto-estradas vai ficar mais caro, excepto para quem o fizer na A2, A6, A8, A19, A25 e A41-CREP, onde haverá mais isenções. Em termos gerais, o preço das portagens vai subir 2,3%, de acordo com a fórmula legal em vigor, que se baseia na variação do Índice de Preços no Consumidor, isto é, na inflação, acrescido de 0,1 pontos percentuais, que remunera as concessionárias. Porém, há que contar também com o fim de portagens que PS e Chega aprovaram, no Parlamento, contra a vontade do Governo, durante as negociações do Orçamento do Estado. Na A2 e na A6, a isenção só se aplica, no entanto, a residentes, trabalhadores e empresas que tenham residência ou sede nas "áreas de influência" dessas vias concessionadas à Brisa. No caso da A2, o Baixo Alentejo e Alentejo Litoral, deixando de ser paga a portagem entre o nó A2/A6/A13 e Almodôvar; no caso da A6, abrange o Alto Alentejo e o Alentejo mais interior ou central, eliminando-se a portagem no troço entre o nó A2/A6/A13 e Caia. Para usufruir desta isenção, é obrigatório aderir ou ter identificador da Via Verde (da Brisa). Mais a norte, a A25 passa a ser gratuita em toda a sua extensão. Em 2025, já tinham sido eliminadas portagens na maioria dos troços, mas subsistiam ainda custos nos troços Esgueira-Aveiro Nascente, Estádio-Angeja e Angeja-Albergaria, que agora são eliminados. Na A41, conhecida também como CREP - Circular Regional Externa do Porto, passa a haver isenção de portagem em toda a extensão para os pesados. O mesmo se aplica na A19 ao troço S. Jorge-Leiria Sul, bem como na A8, entre Leiria Sul e Pousos. Combustíveis a descer, mas o ISP está de volta A única certeza é que, mesmo que os preços dos combustíveis baixem, como tem sido o caso, os condutores portugueses vão tardar em senti-lo. Isto porque o Governo está a aproveitar cada descida semanal nos preços de mercado para reintroduzir a totalidade do Imposto sobre Produtos Petrolíferos (ISP), que tem sido pago pelos portugueses com desconto. Bruxelas tem exigido o fim desse desconto e o Governo decidiu fazê-lo de forma faseada. Nos mercados internacionais, o preço do crude desceu de forma significativa em 2025. A maioria dos analistas estima que em 2026 o preço do crude vai continuar a baixar. Carregamentos com menos tarifas, num ano de transição Há um novo regime jurídico para a mobilidade eléctrica, mas 2026 é um ano de transição, já que a nova arquitectura, sem gestão centralizada, só entra em vigor em 2027. É provável, no entanto, que os condutores comecem a sentir já este ano algumas mudanças sobretudo no plano comercial. Em termos gerais, os carregamentos podem ficar mais baratos no próximo ano, dado que a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) baixou tarifas para comercializadores, operadores e detentores de pontos de carregamento em cerca de 30%. O preço pago num carregamento tem em conta estes encargos do sistema. Segundo a própria ERSE, as tarifas sobre comercializadores e operadores pesam entre 3% e 4% na formação do preço final. Transportes públicos: bilhetes sobem de preço, passes não Os passes Navegante e Andante vão manter os seus preços em 2026, nas suas diversas tipologias (que vão dos 30 euros no caso de passe municipal, aos 80 euros nos passes de família). Desde 2019 que não há uma subida de preços destes passes. O passe Ferroviário Verde também fica inalterado. De acordo com a Transportes Metropolitanos de Lisboa, as viagens realizadas com passe o Navegante já "representam cerca de 90% do total de viagens realizadas, seja por utilizadores frequentes como ocasionais". Já os bilhetes ocasionais vão ter um aumento no ano que vem. Conforme já foi estipulado pelo regulador dos transportes, a Autoridade da Mobilidade e dos Transportes (AMT), e tendo como base a inflação, o valor máximo da taxa de actualização tarifária (TAT) de 2026 é de 2,28%. Os tarifários actualizados aprovados pelas autoridades de transportes devem ser enviados à AMT até ao último dia de Dezembro. No caso da CP, que já apresentou o novo preçário, verifica-se que um bilhete de três zonas nos urbanos de Lisboa sobe cinco cêntimos, passando a custar 2,20 euros. Numa viagem mais longa, entre Lisboa e Porto, optando pela 1.ª classe do Intercidades, uma ida passa a custar 41,50 euros, contra os actuais 40,55 euros. Alimentação. Da "inevitabilidade" à estabilização Depois dos valores recorde atingidos, o preço do azeite tem vindo a registar uma tendência de redução. Por Isabel Aveiro "Inevitável" foi o adjectivo que a direcção da maior associação de grupos de distribuição alimentar do país usou para sublinhar que o cabaz de alimentação irá aumentar em 2026. Na entrevista ao Jornal de Negócios/Antena 1 publicada há menos de um mês, Gonçalo Lobo Xavier dava como exemplos dessa "inevitabilidade" os aumentos que a Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED) estimava "na ordem dos 7% na carne e peixe", sem especificar quais os animais em causa. Em Novembro, confirmou há dias o Instituto Nacional de Estatística (INE), a inflação abrandou para 2,2%, com os produtos alimentares não transformados a atingirem uma variação homóloga do índice de preços de 6%. Para 2026, o Governo antecipa uma inflação de 2,1%. Se levarmos em conta os dados do Gabinete de Planeamento e Politicas e Administração Geral (GPP) que tem a incumbência de divulgar o Observatório de Preços Agro-alimentar, há tendências mistas. Os dados compilados até final de Novembro demonstram que a carne de frango, a mais barata, fechou o penúltimo mês do ano com uma subida de preço (homóloga, face a 12 meses antes) de entre 2% a 12%. A crer na evolução do preço pago em Novembro à produção (mais 4%), se a cadeia de valor funcionar de forma competitiva, não é expectável que o consumidor venha a ser surpreendido com um valor muito mais elevado em 2026. Na carne de porco, os produtores viram o preço recebido ser reduzido em 14% por animal abatido, mas no retalho os preços variaram entre mais 1% e 19% por comparação a Novembro de 2024. O GPP escrevia, no final do mês passado, que os "preços no consumo dos produtos da fileira da carne de suíno" acompanhados pelo observatório "apresentam uma tendência de descida dos preços nos últimos quatro períodos" (de quatro semanas cada). Diferente é a evolução na carne de bovino, como já noticiou o PÚBLICO, cujo valor pago aos produtores era, no final de Novembro, 33% mais elevado do que um ano antes, o que indicia uma tendência de subida junto do consumidor. A carne de bovino, segundo o INE, foi mesmo o bem que registou a maior variação no índice de preços de produtos agrícolas no produtor: mais 42,2% em Novembro, face a igual mês de 2024. Nos ovos, depois de Outubro ter terminado com uma subida de 22,3% no preço pago ao produtor no espaço de um ano e de 29,5% no valor pago pelo consumidor (dados do GPP), é a Associação dos Avicultores Produtores de Ovos (Anapo) que diz que, neste momento, há "uma certa estabilidade", "não há especulação" e "a situação não é preocupante, em termos de preços". O valor da evolução do pescado, contudo, é mais difícil de compactar numa média simples. Os últimos dados do Instituto Nacional de Estatística (publicados já este mês, mas referentes a Outubro) dão conta de uma valorização (em lota) do preço médio dos peixes marinhos de 1,8% num ano. Mas se os crustáceos descarregados viram o seu valor recuar 6,8% nesse período, já os moluscos viram a sua avaliação disparar 72,1% num ano, à conta das capturas de polvo, pota, lulas, berbigão e amêijoas. Cereais e azeite No caso dos cereais, em que Portugal é quase totalmente dependente do exterior com excepção do arroz, as notícias externas trazem algum optimismo. Se a dependência nacional de cereais como trigo e milho justificou a alta dos preços indexada à guerra na Ucrânia, sobretudo a partir de 2022, a estimativa da oferta também deverá ter eco no mercado português. A agência para a alimentação e agricultura das Nações Unidas (conhecida pela sigla inglesa FAO) estimou, no último relatório publicado a 5 de Dezembro, que tanto a produção como as reservas mundiais de cereais atinjam níveis recordes este ano, o que, sem mais surpresas, poderá "aliviar" os custos da matéria-prima da produção de bens que vão do pão às rações animais. As mais recentes declarações da ACIP - Associação do Comércio da Indústria de Panificação, Pastelarias e Similares, fornecedora do comércio tradicional e da restauração, parecem vir confirmar que o preço dos cereais não deverá pesar na factura em 2026: "A estabilidade nos mercados internacionais da farinha, energia e logística cria condições favoráveis para um ano sem grandes oscilações" nos preços, declarou à Lusa no início deste mês. A também mencionada subida do custo dos ovos e frutos secos justificará o "ligeiro aumento" previsto na pastelaria, mas não deverá sobrecarregar o custo do pão tradicional, o mais consumido. Nos dados do GPP, o trigo panificável teve uma descida de preço à produção de 8% no espaço de um ano (Novembro de 2025 face a igual mês de 2024), com os consumidores a pagarem menos 6% por cada quilo de farinha normal, menos 8% por cada embalagem de esparguete e menos 17% por cada quilo de pão tipo carcaça. No caso do azeite, e depois de um período em que os montantes pagos nos supermercados atingiram valores nunca vistos, os preços têm tido uma tendência de descida: recuaram entre 21% (azeite virgem extra) e 29% (azeite virgem) de Novembro do ano passado a igual período desde ano, ainda que o último mês antes do Natal tenha invertido momentaneamente esta tendência (subindo 4% e 12%, respectivamente), face a Outubro, em cadeia.