MAZDA 6E LONG RANGE - UM CASO DE DUPLA PERSONALIDADE... E NACIONALIDADE
2026-01-14 22:06:36

Há histórias que ganham mais força porque não estavam previstas. O novo Mazda 6e é uma dessas histórias. Um carro que não constava no guião inicial da marca japonesa, que nasce de uma base que não é sua, mas que, surpreendentemente, parece mais Mazda do que muitos dos Mazda atuais. AEuropa esperava-o mais cedo, é verdade. E houve quem questionasse se faria sequer sentido. Mas depois de o ver ao vivo e passar algum tempo a observá-lo com olhos de quem conhece os códigos visuais da marca há décadas, a pergunta inverte-se: como é que um carro tão alinhado com o ADN da Mazda surgiu de uma parceria técnica com a Changan? Há carros que pedem explicações logo à primeira vista. O 6e faz o contrário: conquista antes de se justificar. A silhueta é longa, baixa e bem proporcionada, com superfícies limpas e um jogo de volumes que remete imediatamente para a linguagem de design da marca. Mesmo sendo um elétrico, não cai na tentação de recorrer a linhas aerodinâmicas supereficientes, mas quase desprovidas de personalidade, uma tendência que parece ter invadido o segmento. É um grande familiar (4,92 metros de comprimento) com uma presença de berlina e a atitude de um coupé, mas com a versatilidade de um hatchback de cinco portas e o resultado, especialmente neste tom Soul Red Crystal, é, sem dúvida, muito atraente. Elegante e prático A abordagem hatchback torna o Mazda 6e especialmente versátil. A quinta porta da bagageira (com abertura elétrica) torna o acesso à zona de carga muito mais fácil e ainda que a capacidade da mala não bata nenhum recorde (336 litros) é complementada por um “frunk” dianteiro com mais 72 litros de capacidade e com o detalhe curioso de possuir um cesto que permite transportar as compras ou os cabos de carregamento. Atrás, há muito espaço disponível para pernas e cabeça, com um piso plano e uma sensação de “sala de estar” que muitos sedans elétricos já perceberam que é parte do argumento. Os bancos são confortáveis e os dianteiros são elétricos, aquecidos e ventilados. Ergonomia não é perfeita Ao entrar, nota-se que a Mazda levou o trabalho muito a sério na qualidade percebida. Materiais agradáveis ao toque onde interessa (à vista e ao tato), montagem cuidada, e um ambiente que impressiona, especialmente no tom “caramelo” da nossa unidade, que parece condizer na perfeição com o vermelho profundo da carroçaria. A profusão de aplicações em camurça torna o habitáculo ainda mais refinado e contribui decisivamente para o bem-estar e luxo que se sente a bordo do Mazda 6e. Como não podia deixar de ser, num sedan moderno como este, a tecnologia está no centro da experiência a bordo. O ecrã central de grandes dimensões domina a operação do automóvel e, aqui, o novo 6e exige um período de adaptação, sobretudo para quem vem do universo da Mazda. O paradigma é claramente “touch-first”: muitas funções vivem no ecrã, incluindo ajustes que, em modelos mais tradicionais, teriam comandos físicos imediatos. E, como sempre nestas soluções, depende muito da rapidez do sistema, da lógica dos menus e do grau de paciência do condutor quando está em movimento. A verdade é que não somos adeptos de ter de recorrer amiúde ao ecrã central para ajustes tão simples como os espelhos retrovisores. Por outro lado, há detalhes especialmente bem conseguidos, como o generoso head-up display o sistema de som Sony bem integrado e uma iluminação interior ajus-tável (em intensidade e cor) que potencia a atmosfera de requinte a bordo. Mecânica: duas baterias, um dilema inesperado A gama é simples na teoria e curiosa na prática. Há duas baterias e dois caminhos de utilização. A versão com bateria de 68,8 kWh (química LFP) é, paradoxalmente, a que mais agradará a quem faz estrada com paragens rápidas: já que carrega mais depressa em DC (165 kW) e assegura tempos mais competitivos no intervalo dos 10 aos 80%. Além disso, oferece 258 cv de potência e 320 Nm de binário, sempre com tração traseira, e uma autonomia WLTP anunciada de 479 km. A versão ensaiada, a Long Range, vê a capacidade da bateria subir para os 80 kWh (química NCM) e anuncia 552 km WLTP, mas limita a potência de carga rápida a 90 kW, o que empurra a mesma janela dos 10 aos 80% para perto do dobro do tempo. É aqui que o Mazda 6e obriga a pensar: para muitos condutores, mais autonomia no papel não compensa se a realidade de viagem significar mais minutos parado. Por outro lado, para quem carrega quase sempre em casa ou no trabalho e quer reduzir a frequência de carregamentos durante a semana, a Long Range pode fazer sentido. Em corrente alternada, ambas ficam no carregamento trifásico de 11 kW, com tempos de carga completa dentro do esperado para o segmento (8h40). Confortável e refinado, mas menos “Jinba Ittai” do que se espera O Mazda 6e é um automóvel muito fácil de conduzir. A disponibilidade de binário é progressiva, a tração traseira torna-o mais refinado na entrega de potência agradável e a estabilidade em estrada e autoestrada é, no essencial, aquilo que se pede a um familiar elétrico e com ambições viajantes. Em ritmo calmo, o Mazda é refinado e bastante competente. Quando se começa a pedir mais, curvas apertadas, mudanças rápidas de apoio, travagens fortes, percebe-se que este não é um Mazda na mesma frequên-cia emocional de alguns modelos térmicos da marca. A direção tende a ser muito leve e nem sempre oferece o feedback que habituámos a associar à Mazda. O chassis é seguro e previsível, mas o conjunto não convida tanto ao envolvimento; prefere ser eficaz e confortável. E isso é uma decisão de produto: um elétrico grande que quer seduzir pela maturidade, não pela irreverência. Há também um traço típico de vários automóveis elétricos mais recentes: a sensação de que parte do caráter está “filtrado” pela eletrónica e pela calibragem feita para agradar ao maior número de condutores possível. Não é uma crítica absoluta, é apenas a constatação de que, neste como em tantos outros casos, a facilidade de condução tornou-se uma prioridade em detrimento do prazer de condução. Não tem nada de mal, apenas não é algo a que estejamos habituados num Mazda. Preço, o argumento que muda tudo Em Portugal, o Mazda 6e entra com um posicionamento muito competitivo para o tamanho, tecnologia e imagem que oferece. A gama arranca nos 42.508 euros (versão EV Takumi), sobe para os 44.458 euros (Takumi Plus) e chega aos 46.958 euros neste EV Long Range Takumi Plus. É uma estrutura clara, com pouca dispersão e muito equipamento incluído, o que torna a decisão mais simples do que em muitos rivais onde a lista de opções é quase um segundo imposto. Este ponto é fundamental: mesmo que o 6e não seja o elétrico mais rápido a carregar em todas as versões, nem o mais emocionante ao volante, oferece uma proposta global que, pela relação preço/equipamento, é difícil de ignorar e que o coloca muito bem posicionado face a concorrentes como o Tesla Model 3. No fim, é isso que torna o 6e interessante. Não será “o Mazda perfeito”, mas também não é “um Mazda disfarçado”. O que importa é que é, para já, um dos Mazda mais relevantes no mercado e só isso já é digno de nota. FICHA TÉCNICA MAZDA 6e LONG RANGE Motor Comprimento Consumo elétrico, síncrono 4921 mm 16,5 kWh/100 km (WLTP combinado) Bateria Largura Autonomia 80 kWh 1890 mm 552 km (WLTP combinado) Potência Altura Acel. 0-100 km/h 180 kW / 245 cv 1491 mm 7,8 segundos Binário Bagageira Velocidade máx. 320 Nm 336 litros (traseira) 175 km/h Tração 72 litros (dianteira) Tempos de carregamento dianteira Peso 8h40 , 11 kW AC (0-100%) Suspensão 1953 kg 0h47 , 90 kW DC (10-80%) ind. tipo McPherson (frente), ind. multilink (atrás) PREÇO desde 45.008EUR , Mazda 6e Long Range desde 42.508EUR , gama Mazda 6e Rui Reis