ENXURRADA DE INCENTIVOS AOS ELÉTRICOS NA ALEMANHA PODE BENEFICIAR MARCAS CHINESAS
2026-02-02 22:12:35

O objetivo é baixar emissões e aumentar a venda de elétricos. Mas especialistas alertam para potenciais efeitos nefastos na economia. O Governo alemão quer acelerar a adopção de carros elétricos. Por isso, anunciou um reforço no programa de incentivos à compra de veículos elétricos na Alemanha. O objetivo é operar a correção necessária nas vendas para irem ao encontro das metas estabelecidas pela UE. O novo programa de incentivos, avaliado em 3 mil milhões euros até 2029, destina-se a agregados familiares com rendimento anual tributável até 80 mil euros e prevê incentivos entre 1500 e 6000 euros por viatura, em função do tipo de motorização, da composição do agregado e do nível de rendimento. Em termos de escala, o Executivo estima que a dotação total seja suficiente para subsidiar até 800 mil veículos ao longo de todo o programa. Mas, segundo vários especialistas citados pela Automotive News Europe, a medida pode produzir efeitos muito diferentes daqueles que Berlim procura. O carregador de 9 kW permite recarregar a bateria em 4 horas. Uma bolha na procura Benjamin Kibies, analista sénior da Dataforce, estima que os incentivos acrescentem cerca de 60 mil matrículas de veículos elétricos em 2026, ajudando os construtores a evitar multas por emissões de CO2. Ainda assim, alerta que o impacto será temporário. “Vai gerar um impulso que não é sustentável”, afirmou, sublinhando que os subsídios tendem a distorcer o funcionamento normal do mercado, antecipando compras e criando quebras abruptas quando terminam. Stefan Bratzel, do Center for Automotive Management, vai no mesmo sentido. Para o académico alemão, os incentivos são “um fenómeno de curto prazo”, incapaz de resolver os problemas estruturais do setor. O histórico recente reforça esse argumento: quando a Alemanha terminou abruptamente o programa anterior em 2023, as vendas de elétricos caíram 27% em 2024, antes de recuperarem no ano passado. Vender carros com o dinheiro dos contribuintes O ponto mais controverso do novo esquema é a sua neutralidade industrial. Ao contrário de outros países europeus, a Alemanha optou por não excluir veículos produzidos fora da Europa, abrindo a porta a modelos fabricados na China. Para Ferdinand Dudenhöffer, diretor do Center Automotive Research, a consequência é clara. “Quem ganha é a BYD e outros construtores chineses, além de marcas generalistas europeias como a Peugeot e a Citroën. Mas não os fabricantes alemães”, disse à Automotive News Europe. E foi mais longe: “Estamos a convidar importadores a vender carros na Alemanha com dinheiro dos contribuintes.” Desvalorização dos carros usados A pressão sobre os construtores alemães - Volkswagen, BMW e Mercedes-Benz - surge num momento delicado, marcado por custos industriais elevados e margens comprimidas na transição elétrica. Segundo Kibies, o programa pode ainda provocar “erosão dos valores residuais”, um efeito particularmente sensível num mercado de usados elétricos que continua frágil. A VDA - Associação da Indústria Automóvel Alemã -, através da sua presidente Hildegard Müller, alertou que estes incentivos também deveriam considerar os veículos usados. Em declarações à publicação, Müller defendeu que o impacto no mercado de usados deve ser avaliado em 2027, lembrando que “os automóveis usados também podem desempenhar um papel importante na eletrificação e no cumprimento das metas climáticas”. A inclusão dos híbridos plug-in também gera críticas. O analista considera que, em termos de emissões reais, estes modelos oferecem apenas cerca de 15% de redução de CO2 face a um automóvel a gasolina ou gasóleo médio, questionando a eficácia climática do apoio. Apostar em custos de utilização mais baixos Kibies reforça ainda outro ângulo que, na sua opinião, não está a ser devidamente apoiado: o custo da eletricidade e dos carregamentos em postos públicos. Tornar o carregamento de um carro elétrico mais barato do que abastecer um carro convencional “ajudaria simultaneamente o mercado de novos e usados” e, numa perspetiva mais ampla, “resolveria um dos principais obstáculos à produção” industrial na Alemanha. Recordamos que, com ou sem incentivos, todas as marcas de automóveis vão ter de baixar de forma substancial as suas metas de emissões até 2028. Caso contrário, haverá lugar ao pagamento de multas que podem ascender às centenas de milhares de euros. Algumas marcas ponderam inclusivamente suspender a venda de alguns modelos, mesmo que haja procura, para não superar a meta definida pela UE. Guilherme Costa