VÍDEO DA SEMANA: FICÇÃO CONSENSUAL SOBRE RODAS
2026-02-02 22:12:37

Inverdade, ficção consensual, pós-verdade, mitos dos tempos e tantos outros mais: num tempo de aforismos, percebemos que o universo automobilístico também os produz - e em abundância. Não falamos hoje dos banais utilitários travestidos de siglas hiper-desportivas que povoam as estradas (e o ego) do nosso país, num peeling de pele que lhes promete uma alma que nunca terão. Falamos, sim, de automóveis que nunca foram aquilo que pareciam ser e que, ainda assim, acabaram por se tornar mais verdadeiros do que muitos dos que o eram. No mais recente Deep Dive, Shervin conduz-nos por dois dos automóveis mais icónicos alguma vez criados para o ecrã, cuja relevância cultural ultrapassou largamente o seu papel narrativo. O primeiro é o famoso “Ferrari” de Miami Vice: o Mardikian 350 GTS de 1983, construído pela McBurnie Coachcraft. Apresentado ao mundo com a estreia da série em 1984, o exemplar de Sonny Crockett tornou-se parte inseparável da estética da década. Apesar da aparência italiana, tratava-se de uma réplica em fibra de vidro sobre base Chevrolet Corvette, encomendada por Albert Mardikian. Das quatro unidades produzidas, foi este exemplar que assumiu o papel principal em cena, fixando-se no imaginário colectivo. O segundo caso remete-nos para Ferris Bueller s Day Off (“O Rei dos Gazeteiros”, de 1986) e para o seu inesquecível “Ferrari” California. Idealizado como um verdadeiro 250 GT Spyder de 1961, o projecto acabou por recorrer a uma réplica da Modena Design & Development, solução prática para um automóvel demasiado raro - e valioso - para a rodagem. Utilizado em várias configurações durante as filmagens, o carro tornou-se um símbolo duradouro de liberdade juvenil e imprudência, reconhecimento que culminou com a sua entrada no National Historic Vehicle Register em 2018. Das avenidas soalheiras de Miami a um dia perfeito que descamba irremediavelmente, estes automóveis contam histórias maiores do que a sua própria materialidade. Réplicas, sem dúvida - mas também artefactos culturais que provaram que, por vezes, a ilusão é suficiente para podermos criar a lenda que permanece.