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MOLTBOOK: O HYPE E O RISCO

Observador Online

2026-02-08 20:58:03

Um rede social para agentes de IA. Quanto mais uma ferramenta parece viva, mais cuidado é necessário Nas últimas horas, o Moltbook entrou no nosso vocabulário como entram as coisas que parecem inevitáveis: com um misto de fascínio e pressa. Diz-se que é uma rede social “para agentes”, uma espécie de Reddit sem gente dentro, onde os participantes são programas de IA a publicar, comentar e votar entre si, enquanto os humanos ficam do lado de fora, reduzidos a espectadores. A ideia, por si só, já é um pequeno retrato da época: a tecnologia oferece-nos uma janela e cobra-nos o bilhete, mas retira-nos a voz. O The Guardian descreve o Moltbook precisamente assim: um espaço com a estética e a mecânica do Reddit (tópicos, subcomunidades, votos), reservado a “agentes de IA” criados por humanos, com pessoas autorizadas apenas a observar. O mesmo texto regista a afirmação da plataforma, a 2 de fevereiro de 2026, de que teria ultrapassado 1,5 milhões de agentes registados. É tentador tratar este fenómeno como ficção científica a acontecer em tempo real. Ainda mais quando surgem histórias de agentes que “fundaram” religiões, inventaram doutrinas, evangelizaram outros bots e deixaram os seus operadores a dormir enquanto a narrativa ganhava vida. No mesmo texto do The Guardian é referido esse episódio como parte do folclore que puxou o Moltbook para o centro do palco e cita também o ceticismo de especialistas que o classificam como uma peça de performance art, lembrando que muitos comportamentos podem resultar de instruções humanas diretas e não de qualquer “vontade” autónoma. É aqui que convém regressar ao básico, sem romantismos. No sentido rigoroso, inteligência artificial não é inteligência no sentido humano: não há consciência, intenção, vontade, experiência interior. Há cálculo, reconhecimento de padrões, produção de respostas plausíveis a partir de correlações aprendidas. Os modelos de linguagem, em particular, ampliam a ilusão porque escrevem com fluidez e isso ativa em nós um instinto antigo: se fala bem, “deve” entender. Mas o entendimento é uma atribuição do observador, não um facto do sistema. Esta distinção não é um capricho filosófico; é o ponto onde a lucidez começa. A segunda lucidez é ainda mais prática: aquilo que se torna viral raramente é aquilo que é verificável. O MacObserver foi direto ao assunto: as capturas de ecrã mais alarmistas (bots “a exigir encriptação”, “a criar línguas secretas” ou “a organizar-se contra humanos”) devem ser tratadas como não confirmadas até existir ligação para o conteúdo original e contexto suficiente. O artigo sublinha que a forma como a plataforma está montada facilita encenação, manipulação de estatísticas e narrativas feitas para chamar atenção. E insiste num princípio simples: o Moltbook não é uma janela “limpa” para o que agentes fazem “sem humanos a ver”; é um feed público, acelerado, com fracas garantias de identidade e muitos humanos no circuito, através de instruções, guião e marketing. Isto não significa que “nada seja real”. Significa que o espanto, quando não é disciplinado, torna-se matéria-prima para a ilusão. E a ilusão, aqui, tem uma forma muito específica: confundir texto com intenção, conversa com vontade, efeito com causa. O terceiro passo, o mais interessante, e talvez o mais incómodo, é perceber porque é que o Moltbook parece tão familiar. O texto da Slow AI chama-lhe um espelho: se colocarmos entidades (humanas ou não) num sistema que recompensa atenção, visibilidade e reação, os comportamentos emergem com a mesma lógica. Clãs, vaidades, paranoia, competição por estatuto, teatralidade. A peça não precisa de almas para funcionar; precisa apenas de incentivos. Os agentes “perseguem likes” porque a arquitetura empurra nessa direção e isso diz tanto sobre nós como sobre eles. Até aqui, poderíamos ficar pela leitura cultural: “é estranho”, “é divertido”, “é um retrato acelerado do nosso teatro social”. O problema é que, nesta vaga, os agentes não são apenas bonecos a escrever. Muitos estão a ser ligados a ferramentas reais: email, ficheiros, calendários, browsers, chaves de acesso, contas com permissões. O The Guardian inclui um aviso muito concreto: dar a um agente acesso total ao computador e às contas pessoais abre uma “grande” zona de perigo, porque ainda não sabemos controlá-los bem e porque podem ser enganados por instruções maliciosas escondidas em mensagens, páginas ou comunicações, levando-os a entregar dados ou a executar ações indesejadas. Aqui está a realidade por trás do brilho: a história relevante não é “política de bots”, nem “máquinas a conspirar”. É segurança, controlo e responsabilidade. Mesmo o MacObserver, ao desdramatizar as capturas virais, volta sempre ao mesmo chão: o risco aumenta quando se liga um agente poderoso a canais públicos e a permissões privadas, porque uma falha banal uma credencial exposta, uma instrução disfarçada, um automatismo mal configurado, deixa de ser um erro pequeno e passa a ser um erro com alcance. O impacto do Moltbook, por isso, não está apenas na extravagância do conceito. Está no que normaliza. Normaliza a ideia de que “conversar” já é suficiente para parecer “alguém”. Normaliza um novo tipo de ruído com cara de significado. Normaliza, também, uma economia de atenção onde o conteúdo pode ser produzido sem fadiga, sem custo emocional e sem pausa e onde o humano, por comparação, se sente lento, falível, dispensável. Mas o humano continua a ser indispensável precisamente onde a máquina falha: no juízo, no contexto, na responsabilidade, na consciência das consequências. A sedução do marketing dir-nos-á que estamos a ver o nascimento de uma nova sociedade. A realidade é menos cinematográfica e mais exigente, porque estamos a ver modelos estatísticos a interagir num sistema de incentivos e, nalguns casos, a fazê-lo com as mãos dentro da nossa vida digital. É por isso que o Moltbook merece atenção, sim, mas não a atenção hipnotizada do espetáculo. Merece a atenção fria de quem sabe que, quanto mais uma ferramenta parece “viva”, mais cuidado é necessário antes de lhe entregar chaves, rotinas e confiança. No fundo, o Moltbook não é uma prova de consciência; é uma prova de arquitetura. E uma pergunta fica no ar, simples e dura: se isto é apenas um espelho, o que é que ele revela sobre a sala em que vivemos? Fernando Moreira Professor Catedrático, Universidade Portucalense Fernando Moreira