VOLVO ES90 - VIAJAR EM EXECUTIVA AO ESTILO NÓRDICO
2026-02-09 22:06:12

A berlina topo de gama da Volvo tem argumentos de peso para roubar clientes à BMW e à Mercedes. A começar por uma combinação rara e bem conseguida entre luxo e minimalismo. a O Volvo ES90 é daqueles automóveis criados para quem tanto quer (e pode) ser conduzido por um motorista, como por quem prefere assumir o volante. Atrás, sentimos mesmo que estamos a viajar em executiva. O espaço é amplo o suficiente para se cruzar as pernas e os bancos envolventes fazem-nos sentir “em casa” ao ponto de ser muito fácil adormecer em viagens longas, até porque o encosto pode ser parcialmente reclinado para se conseguir uma posição mais confortável. O piso totalmente plano, consequência de uma plataforma criada de raiz para carros eléctricos, reforça a habitabilidade, permitindo que até o passageiro do meio não sofra com o habitual túnel de transmissão que ainda encontramos em muitos rivais adaptados de versões a combustão. Sentados ao volante, a diferença de filosofia para as alternativas alemãs, como o Mercedes EQE ou o BMW i5, é evidente. Enquanto os concorrentes alemães, com destaque para a Mercedes, parecem apostar numa corrida aos armamentos digitais, enchendo o tablier de vidro e luzes LED, a Volvo opta pela serenidade. O design é sofisticado, sim, mas de uma elegância contida. Não há excesso de informação a saltar à vista, nem menus labirínticos para ligar o aquecimento dos bancos. Tudo exala calma. Felizmente, a Volvo não caiu no erro cometido no irmão mais pequeno, o EX30, de concentrar tudo no ecrã central. No ES90, existe um painel de instrumentos atrás do volante com a informação essencial de condução, como a velocidade e a autonomia, complementado por um head-up-display (projecção no párabrisas) generoso q.b.. São detalhes que fazem toda a diferença na segurança e conforto visual, evitando que tenhamos de desviar o olhar da estrada para saber a que velocidade circulamos. O ecrã central de 14,5 polegadas, na vertical, continua a ser o centro de comando, correndo o sistema operativo da Google, o que significa que temos acesso nativo ao Google Maps que continua a ser, na minha opinião, o melhor sistema de navegação do mercado, especialmente na previsão de trânsito e cálculo de rotas com paragens para carregamento. E claro, podemos instalar N apps, incluindo a alternativa mais popular ao Google Maps, o Waze. Aliás, basta introduzirmos as credenciais Google para se sincronizar os dados da cloud com o carro. Referimo-nos a informações como agenda, favoritos no Google Maps ou lista de contactos.com estes dados, podemos, por exemplo, pedir, em vivavoz, ao assistente Google para iniciar a navegação para a casa de um amigo ou para consultar a agenda do dia. O sistema de infoentrenimento também inclui a já habitual câmara de 360 graus, bem como vistas de diferentes ângulos. O que neste carro assume particular importância já que a visibilidade através do vidro traseira é limitada. Supercomputador com rodas Por baixo desta aparência serena esconde-se o que a marca chama de “ superset tech stack ”.Traduzindo para português corrente, isto significa que o carro está equipado com dois computadores da Nvidia (Drive AGX Orion), capazes de processar 508 biliões de operações por segundo. Para terem uma ideia, representa cerca de 15 vezes mais rápido que o smartphone topo de gama que trazem no bolso. E para que serve tanto poder de processamento? Sobretudo para a segurança. O ES90 vem artilhado com um sistema de sensores impressionante, incluindo um Lidar (aquele “alto” no tejadilho que funciona como um radar a laser), cinco radares, sete câmaras e 12 sensores ultra-sónicos. O objectivo é criar um escudo de segurança invisível à volta do carro, capaz de detectar peões, animais ou outros veículos mesmo na escuridão total. Na prática, isto traduz-se numa condução assistida, que, em teoria, deveria ser irrepreensível. No entanto, durante o teste, o sistema Pilot Assist revelou-se por vezes um pouco brusco a manter o carro no centro da faixa e nem sempre leu correctamente os limites de velocidade. É provável que futuras actualizações de software (feitas remotamente, como nos telemóveis) refinem este comportamento, mas, por agora, a fluidez de sistemas equivalentes da Tesla ou da BMW ainda parecem um furo acima. De outro modo, o ES90 tem, em teoria, todo o hardware necessário para liderar no que diz respeito ao apoio à condução, mas o software tem ainda muito espaço para evoluir. No capítulo mecânico, a Volvo oferece opções para todos os gostos, mas a versão ensaiada, com um só motor de 245 kW (333cv) e tracção traseira, parece-nos a escolha mais racional. Acelera dos 0 aos 100 km/h em 6,6 segundos, o que é mais do que suficiente para qualquer ultrapassagem segura, mantendo uma suavidade de rolamento invejável. Para quem acha que um carro de luxo precisa de colar os passageiros ao banco, existe uma versão de tracção integral com quase 700cv capaz de cumprir o arranque em quatro segundos mas, honestamente, num carro com esta vocação de “tapete voador”, tal brutalidade parece-me desnecessária. A suspensão pneumática de câmara dupla (disponível na versão Ultra) faz um trabalho notável a filtrar as irregularidades do asfalto, proporcionando uma sensação de flutuar sobre a estrada. A insonorização é outro ponto forte, isolando-nos efi# cazmente do ruído exterior, o que permite desfrutar do excelente sistema de som da Bowers & Wilkins sem interferências. Mas, num eléctrico, a pergunta mais repetida é sempre sobre a autonomia. A versão testada, Single Motor, vem com uma bateria de 88 kWh úteis, enquanto as versões de tracção integral sobem para os 102 kWh úteis. Em termos práticos, isto traduz-se numa autonomia anunciada (WLTP) que supera os 600 quilómetros para a versão ensaiada e chega aos 700 quilómetros nas ver-sões com dois motores. Valores que permitem encarar viagens longas sem a ansiedade da autonomia. Mais impressionante ainda é a velocidade de carregamento: graças à arquitectura eléctrica de 800 volts, o ES90 aceita potências de carregamento até 310 ou 350 kW para, respectivamente, as versões com bateria de menor e maior capacidade. Isto significa que, se encontrarmos um posto que forneça esta potência (e já não assim tão raros), conseguimos recuperar até 200 quilómetros de autonomia em dez minutos, ou carregar de 10% a 80% em pouco mais de 20 minutos. É, verdadeiramente, o tempo de um café e de esticar as pernas. Na bagageira, temos 468 litros de capacidade. É um valor aceitável, superior ao do Mercedes EQE, mas que perde para o BMW i5. A abertura é larga, facilitando o carregamento de malas grandes, mas não esperem a versatilidade de uma carrinha. À frente, sob o capot, existe um pequeno compartimento (o chamado “frunk”) de 27 litros. É manifestamente pouco servirá para guardar os triângulos ou o kit de limpeza, mas para lá colocar os cabos de carregamento será preciso ter o talento de um mestre de origami. Veredicto O Volvo ES90 é uma lufada de ar fresco num segmento que, por vezes, confunde luxo com excesso. Até podemos dizer que é minimalista, apesar das dimensões generosas e do design que transmite a ideia de robustez. O que mais nos conquistou foi a qualidade de vida a bordo, o conforto soberbo e a tecnologia que, na sua maioria, está lá para ajudar e não para complicar. Se se procura uma berlina executiva eléctrica e valoriza-se mais a elegância discreta e a serenidade do que a ostentação tecnológica ou a condução desportiva pura, esta é, muito provavelmente, a melhor opção do mercado. Pode não ter a bagageira do BMW i5 ou a autonomia recordista de alguns rivais, mas oferece uma experiência premium que se sente mais autêntica e menos gadget. É um automóvel que nos faz sentir bem, quer sigamos ao volante, quer optemos por relaxar no banco de trás. E, sendo verdade que a Volvo actualmente é detida por um grupo chinês, o ES90 demonstra claramente as raízes suecas da marca. Curiosamente, parece-nos que o concorrente que mais pode roubar clientes à Volvo acaba por vir da Polestar, marca que se encontra também sob o chapéu da Geely e cujos modelos têm muitas semelhanças em termos de conceito, embora apostem num perfil mais desportivo. Na página ao lado, de cima para baixo: O sistema de som permite simular espaços de concertos A capacidade da mala frontal (frunk) é reduzida No tablier, a disposição é simples, mas fazem falta botões físicos para a climatização A bagageira é aceitável, mas longe de ser uma referência i Volvo ES90 Single Motor Motor 245 kW de potência (333cv) e 480 Nm de binário Bateria 92 kWh totais, 88 kWh úteis, 800 volts, química NMC Carregamento Lento (AC): 11 kW (0-100% em 9h30) Rápido (DC): até 310 kW (23 min. e 170 kW de média entre 10-80%) Bidireccional: Não Autonomia WLTP (combinado): 633 km Teste: 450 km (auto-estrada) a 695 km (cidade) Prestações 0-100 km/h: 6,6 segundos Dimensões 5x1,942x1,546 m (CxLxA), 2410 kg Mala: 424 litros (expansível para 1427 litros) Frunk: 27 litros Preço Desde: 71.471EUR (Ultra: desde 83.894EUR, versão ensaiada: 91.948EUR) Para quem acha que um carro de luxo precisa de colar os passageiros ao banco, existe versão de quase 700cv, mas, num carro com vocação de “tapete voador”, tal brutalidade é desnecessária Sérgio Magno