pressmedia logo

EUROPA QUER 70% DE COMPONENTES LOCAIS EM CARROS ELÉTRICOS

LusoMotores Online

2026-02-19 22:05:19

Nos últimos dias, tem sido noticiado que a União Europeia planeia exigir que 70% dos componentes dos carros elétricos sejam produzidos no seu território. A informação, que está a gerar debate no setor automóvel, refere-se a uma proposta concreta que consta de um futuro pacote legislativo de Bruxelas: o Industrial Accelerator Act (Lei de Aceleração Industrial). De acordo com um projeto de anexo do diploma, a que vários órgãos de comunicação internacionais tiveram acesso, a Comissão Europeia pretende introduzir regras mais apertadas de “conteúdo local” para os veículos elétricos. O objetivo é claro: proteger a base industrial europeia da concorrência externa, nomeadamente chinesa, e reduzir dependências estratégicas. O que está exatamente em cima da mesa? A proposta estabelece que, para terem acesso a subsídios públicos, serem adquiridos por frotas estatais ou beneficiarem de contratos de aprovisionamento público, os carros elétricos terão de cumprir critérios rigorosos de fabrico. As linhas gerais do projeto indicam que: Montagem final: O veículo terá de ser obrigatoriamente montado na União Europeia. Componentes (exceto bateria): Pelo menos 70% do valor dos componentes (excluindo a bateria) deverá ter origem em países da UE. Baterias: Este é um ponto crítico. Os requisitos para as baterias, o coração do veículo elétrico, serão ainda mais específicos, exigindo que vários dos seus componentes principais também sejam produzidos no território europeu. É importante notar que o valor de 70% ainda não é definitivo e pode ser alvo de negociações antes da versão final do documento, cuja apresentação está prevista para março de 2026. Porquê esta pressa? Este movimento da União Europeia não surge por acaso. É uma resposta direta a dois fenómenos: Concorrência internacional: A UE procura replicar, à sua maneira, o protecionismo industrial visto noutras regiões, como o Inflation Reduction Act (IRA) nos Estados Unidos, que oferece generosos incentivos fiscais para carros montados na América do Norte. Ameaça chinesa: A crescente penetração de veículos elétricos chineses no mercado europeu, que já representavam 12,8% do mercado em finais de 2025, tem gerado alarme. O executivo comunitário teme que a dependência de baterias e componentes fabricados na China coloque em risco milhares de postos de trabalho na Europa. A proposta insere-se num esforço mais vasto de Bruxelas para reforçar a sua autonomia estratégica. Este pacote surge na esteira do Net-Zero Industry Act (NZIA), já aprovado, que define metas para que 40% das tecnologias limpas (como painéis solares e baterias) utilizadas na UE sejam produzidas internamente até 2030. Reações contraditórias A indústria europeia surge dividida. De um lado, as associações de fornecedores de componentes, como a CLEPA, aplaudem a medida e defendem inclusivamente que a percentagem de componentes europeus deveria ser ainda maior (75%), para evitar a deslocalização da produção e a perda de até 350 mil postos de trabalho. Também os produtores europeus de baterias pressionam por estas regras para garantir procura para as suas fábricas, que enfrentam dificuldades para competir com os preços chineses. Do outro lado da barricada estão as grandes marcas automóveis, como a BMW e a Mercedes-Benz, as quaistêm manifestado a preocupação de que a medida possa ser vista como um ato de protecionismo e provoque retaliações por parte de parceiros comerciais, além de poder aumentar os custos de produção e atrasar a transição ecológica. A realidade da indústria O grande desafio desta proposta é a sua exequibilidade. Atualmente, a maioria das baterias utilizadas na Europa é fornecida por gigantes asiáticos (chineses e sul-coreanos), isto enquanto a Europa ainda dá os primeiros passos na criação de um ecossistema de “gigafábricas” de baterias, e projetos importantes têm enfrentado atrasos ou reduções de escala. A questão que se coloca é se, num prazo tão curto, a indústria europeia terá capacidade para produzir internamente todos esses componentes sem estrangular a oferta ou aumentar significativamente o preço final dos veículos, algo que pode afetar os consumidores e as metas climáticas do bloco. LusoMotores Jorge Reis